sábado, 15 de outubro de 2011

Lá fora


Desde que comecei a escrever
(e provavelmente muito antes disso)
as palavras “lá fora” parecem carregar
mensagens distantes, como se um estranho
poder emanasse delas quando eu as digo
sem pressa ou as escrevo, cedendo ênfase
igual às duas palavras curtas.

Ao longo dos anos,
fui aprendendo de onde vem esta carga,
de que paisagem deriva seu clarão sobrenatural.

Em memória, eu retorno
à minha cidade natal e vejo,
da janela de casa,
minha mãe partindo para o trabalho,
aquele gosto estranho de mundo
amplo se estendendo
sem fim para além
das minhas possibilidades de despedida.

8 comentários:

Keu Azevedo disse...

que bonito, moço!
De uma sensibilidade gostosa...
Acho o 'la fora' tão grande...
Lá fora é um mundo todo que, às vezes, nem a nossa imaginação em maior empenho abraça.

Fabrício Franco disse...

Moça escarlate,

... Por causa do tamanho dele, é que tento, vezenquando, fechar o foco para que eu possa conviver sem tanto medo diante de tanta grandeza.

Beijo e muito obrigado pelo comentário!!!

Rogério Salles disse...

Sempre tive a impressão de que "lá" é sempre externo e onde está tudo o que buscamos. "Lá" reside a esperança e a ambição saudável que nos move enquanto vivermos, antes do último "lá", onde fica a morte. Gostei de seu texto. Abraço.

Fabrício Franco disse...

Rogério,

Obrigado pela visita! Gosto muito desse colóquio com quem me lê. E sim, essa vastidão do lá, a curiosidade de saber o que há, é que nos move a saber, conhecer, descobrir mais.

Volte sempre!

Anônimo disse...

Você,como todo escritor,vivencia os fatos,as circunstâncias, na sua profunda significação existencial. Imagino a senhora sua mãe,ao partir para o trabalho...(preocupada, desde então, com o "gosto estranho do mundo"
que o filho querido teria que experimentar.)
Gosto de ler você!
Abraço, com carinho,
Andréia Marcondes

Fabrício Franco disse...

Andréia,

Acredito que você, como mãe, sabe o quanto é complicado dividir-se nas atribuições de trabalhadora (o ganha-pão da família é inadiável) e cuidadora dos filhos. Nem sempre esse malabarismo sai a contento. Mas não há mágoa no que escrevo: é apenas reminiscência, 'la recherche du temps perdu'.

Meu abraço, com carinho!

Andressa C. disse...

só a foto já é uma poesia.

não conheço mais de uma possibilidade de despedida.

Fabrício Franco disse...

Obrigado, Andressa, pelo comentário e leitura atenta. A foto é minha 'cereja no bolo', sempre o toque último, logo antes de postar. Gosto de adequar imagens e texto, e é sempre uma atividade que demanda muito tempo, mas que me dá muito prazer em fazer.

Quanto à outras despedidas, penso que haja: aquela que é a promessa do retorno.

 
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