terça-feira, 19 de julho de 2011 10 comentários

Palimpsesto

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Ou todo homem nasce original e morre plágio.


Sou refém de minhas referências,
do que li ao longo da vida –

das bulas de remédio
aos compêndios da alta ciência,
folhetos,
folhetins,
antologias.

Estratos de palavras
acumulam-se
e vão se sedimentando em mim,

a ponto de se mesticizar
tão de todo
que é infactível
demarcar os confins

entre a coletânea e o ineditismo.
Como separar
as frases que plantei
daquelas que colhi
em florilégio alheio,
se crescem no mesmo
buquê de vocábulos?

Existo nessa folhagem,
entre o abrir e fechar de páginas,
redigindo capítulos
de um livro vivo,
essa casca tênue que sou,
reescrita
todos os dias.


quarta-feira, 13 de julho de 2011 10 comentários

Composição da cidade


À janela,
como James Stewart no filme do Hitchcock.
Deixo meus olhos disponíveis
e inauguro a temporada de observação
“comme il faut”.

A cidade é explícita
e não se faz de rogada,
revela-se toda.

A poluição que a veste
é uma forma dela se dizer,
uma apresentação.

Questão de personalidade,
de inerência. Porém,
e talvez por isso,
o verde prospera violentamente,
seduzindo a vista,
gulosa por sombra.
O amplexo dos bulevares
enche os pulmões de preguiça:
longos, lânguidos,
realçam o asfalto,
insinuando mistérios.

O que virá além da próxima curva?

O melhor que se faz aqui
é entregar-se às próprias pernas
e errar anônimo pelas ruas,
sem outra preocupação
que o repouso do espírito.
Isso proporciona a liberdade de movimento
que geralmente o trânsito subtrai ao passeante,
degradando-o a simples pedestre.
Passear é um ato gratuito -
sem desinteresse, não há contemplação.
E contemplar é o que se faz de melhor:
são muitos os rostos,
vindos de todas as partes,
Babel de origens.

Essa foi minha morada.
Cava e transfinita,
a cidade, à verve do texto,
se me impõe num ninho,
sob as imagens da retina.

(Volto à Ipatinga, 25 anos depois...
Cidade outra, 
ainda que a memória a guarde, 
mesma.)
domingo, 3 de julho de 2011 12 comentários

Causa mortis


Telefone ocupado,
linha cruzada,
voz silenciada,
caixa postal lotada,
quota extrapolada,
carta extraviada,
endereço errado,
telegrama atrasado,
jornal não veiculado,
mensagem desviada,
garrafa naufragada,
tambor calado,
livro inacabado,
disco arranhado,
energia cortada,
ferrolho trancado,
ônibus lotado,
voo cancelado,
trem descarrilhado,
pneu esvaziado,
estrada bloqueada,
atalho obstado,
mapa rasgado,
bússola quebrada,
validade expirada,
erro não calculado,
confiança ludibriada,
alma espatifada,
amor terminado,
caso encerrado.

 
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