terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Relicário


Água trazida como relíquia num cálice. 
Bebi metade num gole contínuo 
– não por avidez, 
mas porque o dia estava quente. 
Aqui, 
todos os dias são quentes, 
aliás. Então, 
esbaforido, o telefone tocou 
– quem, não me lembro. 
Sustei o trago. 
Coloquei o copo 
para obscurecer-se no balcão 
enquanto eu me comovia 
com alguma incumbência 
proposta pela minha impressionabilidade. 

Estive fora o dia todo. 

Quando voltei, lá estava – 
esquecido, escorregadio, 
num anel escuro de descuido 
– evidência muda da minha sede remota, 
agora à temperatura ambiente, 
metade de puro nada. 

Não foi tarefa pouca, 
nesse momento, 
alcançá-lo e sorver tudo.

14 comentários:

Anônimo disse...

Beber da sede de palavras tão lindas... Só nos faz ver e sentir com otimismo q qdo encontramos um copo pela metade do líquido, ele está de verdade meio cheio...e n meio vazio! Boa semana!E é sempre um enorme prazer compartilhar sua sensibilidade e inteligência. Bj.
Ana Paula.

Patricia disse...

Quando, na infância, entramos na escola e a professora, paciente, nos ensina as vogais, e as primeiras consoantes, juntando um 'b' com um 'a' pro nosso primeiro 'ba', nem imaginamos que um dia, dessa primeira sílaba, tão simples, tão pequena... ainda nos cairia aos pés esse mundo mágico dos sentimentos em desordem tão bem ordenados nas palavras de um poeta!

Minhas graças à tua primeira mestra! À ti, minha eterna gratidão por deixar meu coração mais leve e feliz!

Fabrício Franco disse...

Ana Paula,

Fico contentíssimo de ver 'suas pegadas' por aqui. Escrevo para essa troca, esse diálogo com quem me lê. É nela que o verdadeiro motivo de amealhar palavras tem sua razão: porque palavras caladas nada fazem, palavras retidas só entopem os canais. Que fluamos, não é mesmo?

Obrigado pela visita e seja bem-vinda sempre! Beijo!

Fabrício Franco disse...

Patrícia,

Eu que agradeço tanta gentileza. Que possamos compartilhar mais e mais sílabas, palavras, sentidos. E mais uma vez: seja muito bem-vinda por aqui, a casa é nossa. ;)

Beijo!

Nanda disse...

Interessante como pra quem tem talento; tudo pode virar fonte de nspiração.

Fabrício Franco disse...

Nanda,

A inspiração não era mesmo 90% de transpiração ou algo assim? O calor é grande, a vontade de escrever não diminui e - graças a Deus - estou tendo tempo para me dedicar a isso. O melhor de tudo é que estou sendo lido. E disso que mais gosto.

Obrigado por comentar! Abraço!

Anne Barreto disse...

Não podia ter melhor leitura para um alvorecer!
Deu até saudade do calor do Vale... (que fique bem claro que digo do calor humano dos meus amigos que estão no Vale...)

Grande beijo!!

Su Palanti disse...

Quando me vejo a 'sorver' com gosto palavras simples de sentimentos simples, posso sintetizar meus anseios em apenas uma imagem: uma aurora clara que ilumina mentes ainda embotadas da falta de palavras...

Fabrício Franco disse...

Anne,

Estranhamente, seu comentário me lembrou um comercial muito antigo, de um refrigerante que nem mais existe. Nele, um sujeito era salvo depois de dias no deserto e, quando perguntado o que queria beber, ele retrucava que queria batatas fritas. E ninguém entendia, mas mesmo assim concordava. Depois de comer algumas, aí sim ele pedia uma garrafa do refrigerante (queria-se reforçar a mensagem de que o refrigerante matava mesmo a sede). O seu comentário me traz esse sede, que só pode ser mitigada com a presença, a sua.

Beijos, com carinho, minha amiga.

Fabrício Franco disse...

Su,

É tão árduo esse achar a simplicidade. Porque as palavras são expeditas e fugidias, vêm no enquanto do próprio desejo, como se nos dominassem. E se elas conseguem se nos iluminar (pois são faróis até mesmo para que as escreve), o que nos resta é seguir-lhes a trilha, até onde queiram fazer sentido, não é?

Obrigado pela leitura generosa!

Anônimo disse...

Ah! POETA!
Você consegue traduzir em poesia (com profundidade), até os fatos mais simples do cotidiano!
Meu abraço,
Andrea Marcondes

Fabrício Franco disse...

Caríssima Andrea,

Saber-me lido (e aprovado) por você é um dos meus grandes trunfos. Obrigado pela leitura, sempre!

Abraço, com muito 'carrinho' (lembra-se dessa?)

Van disse...

Olá Fabricio

gostei muito de revê-lo por lá, quanto tempo!

Gostei também de ser seguida por você. Obrigada!

Nunca deixei de lê-lo e nunca o farei. São genialidades como esta do gole de água que te espera por um dia, descrito com tamanha poesia e força, que me trarão aqui sempre para lê-lo.

Beijos

Fabrício Franco disse...

Van,

É reconfortante saber que tenho sua leitura de volta. Não nos percamos.

Beijo!

 
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