domingo, 29 de abril de 2012

'Ars Domestica'


Sol que vaza por persianas,
um calor senegalesco.
É inútil
dissimular essa melancolia
que invade a tarde.
Crusoé das ilhas de concreto,
tenho a trégua dos livros,
as dobras de sombras nas paredes,
o tempo que isso leva.

Citando Pound,
“a beleza é lenta”.


16 comentários:

Rafaela Gomes Figueiredo disse...

melancolia que vem de fora ou de dentro?
lembrei de um versinho meu: melancolia dentro da tarde dentro de mim...

tb segui, lenta, nestes teus versos, que, incansavelmente, me cadenciam os sentidos.

um beijo
boa semana

Fabrício Franco disse...

Rafaela,

Calor + domingo. Como não sentir alguma melancolia, lassa e invasora? Tudo é lento nessas horas.

Beijo e obrigado pela visita!

Su Palanti disse...

O sol que aquece as tardes sombrias, aquece o coração nos dias chuvosos e frios...
Bela citação...
Bjusss

Fabrício Franco disse...

Suzana,

A tarde, por essas bandas, raramente é sombria. Sol escaldante dá lugar à modorra, que escorre, lenta, pelas horas. Aqui, o grande feito é resfriar-se...

Abraço!

Raquel Sales disse...

Fabrício,

como você bem sabe, as terras de cá também são senegalescas, no início do outono. Sombra, água fresca é tudo o que se quer. A melancolia até vem, mas acompanhada de um estado letárgico, uma vontade de nada. Acaba sendo sensação boa, principalmente, quando é feriadão... VIVA!

Inté...

Fabrício Franco disse...

Raquel,

É essa vontade de nada que se acomete devagar, trazendo em seu bojo a melancolia, em câmera lenta, nos domingos de grande calor. Resta-me a observação sem pressa do que me rodeia.

Abraço e grato pela sua visita!

Anônimo disse...

ARS DOMESTICA: no cotidiano, a beleza da vida - "malgré tout".
Gosto de ler você e perceber que sua inteligência e sua sensibilidade afiam seu modo de olhar os fatos e sua forma de sentir a vida.Seus escritos me ENSINAM!
Grande abraço!
Andrea Marcondes

Fabrício Franco disse...

Andrea,

"Eh bien"! Tive ótimas professoras na minha vida, que me focaram o olhar naquilo que é imprescindível.

Abraço, terno!

Van disse...

Oi Fabrício,

Nossa! Isto me trouxe uma memória nítida da minha primeira infância, bem novinha: Minha mãe obrigava-nos a dormir no meio da tarde, a sesta era obrigatória e quão triste era parar de brincar e ser obrigada a ficar deitada olhando as listras transversais na parede, provocadas pela réstia de luz que passava entre os vãos da persiana, fechada na tentativa de criar uma noite para os pestinhas relaxarem. Como era melancólico aquilo, ficar olhando os fachos na parede até se deixar vencer pelo desejo alheio quando o sono enfim chegava.

Muito obrigada por me refazer esta memória, agora vou poli-la e guarda-la na prateleira das inesquecíveis vivências.

Beijos Mil

Fabrício Franco disse...

Van,

Nunca tive o hábito da sesta. Talvez por ser tão irrequieto que meus pais nem ousavam me colocar para diminuir a velocidade. Hoje, no entanto, as tardes quentes têm o condão de me desacelerar: essa vida é um eterno retorno...

Beijos e obrigado pela visita.

Nanda disse...

Fiquei 'presa' no final; mas porque pensei que Rubinho B. deve ser lindo...rs - Perdão, não quero perder o amigo nem a piada... =D

Fabrício Franco disse...

Nanda,

Não pude deixar de rir. Acho que é a primeira vez que rio de um comentário a um texto aqui do Logomaquia. Mas, justificando um tiquinho: talvez saibamos tanto mais do Barrichello justamente por ele ser mais lento. A velocidade nos tira a capacidade de observação.

Abraço!

Anônimo disse...

Penso que aqui, no hemisfério norte, os dias quentes de verão se travestiram de dias primaveris, o que aumentou a modorra de qualquer outro desejo meu que não a imobilidade. Lembrei que um dia te falei que o calor chega e eu paro. É alguma programação genética, não consigo evitar.

Grande beijo, poeta!

Patricia.

Fabrício Franco disse...

Patrícia,

Programação genética universal, creio eu. Somente aqueles mais fortes, ou mais agitados por natureza, conseguem manter o nível de disposição frente a tanto calor.

Bem-vinda à primavera, aliás!

Um beijo!

Will Carvalho disse...

Tens andado melancólico, não é?!
Mas - particularmente falando - independente do estado de espírito, essa tarde, tão bem descrita por você, têm os bolsos transbordantes de melancolia.

Fabrício Franco disse...

Will,

... É mais uma repassada no baú dos escritos, recuperando o que já produzi. Acho que produzo mais (não necessariamente melhor) quando a melancolia me invade. E tardes quentes, assim indolentes, acabam sendo boas para isso...

Obrigado pela visita!

 
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