Você, que transforma a angústia em saudável perspicácia e defende tudo o que compreende em palavras: sua condenação virá pela língua, na erosão lenta mas indiscutível que dimana de cada decepção.
Você, que consome informações em crescente desgosto, sem ao menos ter a percepção de como tempo devora só os desamparados e se dá a si mesmo seus próprios mandamentos – [não sou -fóbico ou -ista (insira aqui seu prefixo), mas...]: atente para o momento em que não fizer sentido a natureza das coisas crispadas em seu íntimo.
Não é preciso se apressar, nem jogar fora a verdade mais persistente: “amai-vos uns aos outros”, “somos todos iguais perante a Lei”. Só se lembre bem de como era a vida antes: obscurantismo, ignorância, medo da escuridão como devorador de gentes, o trovão que era reprimenda dos deuses, um panteão inteiro a idolatrar em sacrifício.
Diga-me então como você é capaz de chegar a este ponto, para trancar as portas da história e não se reconhecer no seu povo – os outros! – e como desaprendeu as lições.
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