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domingo, 7 de junho de 2026 12 comentários

Caixa de Pandora


Guerrilha de informação,
reduzindo a comatosos
todos os fãs de telejornais.
O replay configura
um diverso balé:
o corpo que cai,
cem vezes
alvejado pela metralhadora,
é mil vezes
perscrutado pela câmera.

Guerra de slogans,
grafitos em chamas,
mensagens não percebidas.
A razão em linha de fuga.
O show da vida,
a vida em show.
Dissolvendo as antenas
parabólicas da certeza.
Invadindo a cabeça
complacente do rebanho.

Mas querer ter muita convicção
não leva a muita coisa:
a angústia sem soluções
é o leitmotiv da década.


(Meu primeiro poema "publicado", Revista do Corpo Discente da UFMG, há 37 anos).

terça-feira, 5 de maio de 2026 12 comentários

Em surdina


Estou que não me sei. 
Desiludido dos sistemas 
e das superstições, fecho-me 
em copas. Esforço inútil: 
nenhuma fuga é possível. 
A vida é, 
inexoravelmente. 
Nela adolesço 
o estreito-pouco do meu corpo, 
querendo sempre mais 
- como Cecília – 
do que vem 
nos milagres.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026 22 comentários

Undíssona


Sua voz imerge em mim
no seu escafandro de som,
mergulhando
para além
de meus arrecifes
à tona,
das minhas marés revoltas.

Rumor
na arrebentação da onda,
sua voz
é preamar
vociferando
nos calcanhares da praia,
umedecendo de vagas fartas
o atol da orelha.

Sua voz é Jonas
e faz
dos meus ouvidos
sua baleia.


domingo, 6 de abril de 2025 12 comentários

De um amor sem piedade


O amor está morto. 
E quem escreve poemas,
nesse tempo de
átimos e átomos,
está disparando no vazio.

Mas
o verbo amar,
cruel,
acossa-nos
por onde quer que vamos.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2025 10 comentários

Escopo


Pelo inferno e o céu de todo dia,
eu conservo somente um desejo:
transformar o tédio em poesia.

Que seja do que em mim silencia,
ou do que sinto, mas que não vejo –
o essencial é que haja a lexia.

(Se, tal como uma sala vazia,
a página frustrar-me o que almejo,
que, ao menos, não se faça a atonia).


sexta-feira, 5 de julho de 2024 10 comentários

Alçapão


Todo mundo 
tem um
                                   
                                                        fundo
                                                        falso.

quinta-feira, 2 de maio de 2024 10 comentários

Receituário


)
Um poema
sob influências.
(

Desconfie do imperativo,
viva no indicativo,
pense no subjuntivo,
sonhe no infinitivo.


sexta-feira, 15 de dezembro de 2023 0 comentários

Totem


Sou o vento que respira
sobre a melancolia do mar;
sou o abutre nas rochas,
rendido aos evangelhos do equilíbrio;
sou um golfinho e mergulho
nas profundezas da minha alma;
sou um desenho numa árvore,
sem compromissos além
da minha própria forma;
sou uma gota de óleo na água,
condenada a permanecer inabsorvida;
sou o esplendor do silêncio,
que é mais do que a palavra;
sou a imitação da rosa,
pendida na angústia da felicidade
de um buquê de noiva;
sou a cimitarra do quarto crescente,
ceifando este fiapo de noite;
sou tudo o que eu nunca lhe disse
dentro dessas margens.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022 0 comentários

Formosa


Ninguém mais se lembra do nome da ilha;
se tanto, usam para falar da sobrinha, ou da filha.
Para mim, tem um quê de plenitude da ideia,
teor e forma em cima de mesma boleia
– trazida à baila sem raiva ou agressão,
o argumento para além da mera opinião.

Pois ter ideia, mesmo aquela que desabe,
no país onde a raiva é contra quem sabe
é de uma audácia sem tamanho: intrepidez.
Dia a dia, contra a truculência da estupidez,
tão-só estudar, refletir e negar a impostura
é buscar a liberdade frente à ditadura.

A ideia precisa, repito, vai além da crença
e a verdade – bela! – só é possível quando se pensa,
mesmo e sobretudo quando a situação é tensa.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022 0 comentários

Périplo


A distância nos faz
arquipélagos.
No flerte, o istmo.
Adiante, a península da atração,
a esplanada do afeto,
a cordilheira das paixões.
Mas o amor é (in)continente.

 
domingo, 10 de outubro de 2021 1 comentários

Passadiço

 

O poema é alvenaria
: implausível ereção
de castelos, engenharia
reversa, o desfazer
da forma para engendrar
sentidos – uma leitura.

O poema é percurso
: jornada por sendas incógnitas,
paisagem movediça, extravio
de rumos, inventário de quimeras
degredadas e anistiadas –
rasura e reescrita
no mesmo apoucado espaço.

Construção e caminho,
o poema é passagem.

quinta-feira, 15 de julho de 2021 2 comentários

Uns



Uns são
Benjamim.

Uns vão,
trampolim.

Uns tão...
manequim.

Uns não, 
outrossim.

terça-feira, 28 de abril de 2020 0 comentários

Óbito alheio


)
do Diário do Confinamento
(

Sua explicação
esclarece,
mas o medo não
esvanece.

Não que acrescente
meu comentário
ao estritamente
necessário:
nunca sabemos quantos se vão
naquele que perece.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019 2 comentários

Soneto onomástico (conferência de assinaturas)



Patrícia Galvão
Orlando Condé
Fabrício Paixão
Amanda Sodré

Fernanda Pilé
Maurício Negrão
Armando Tomé
Letícia Falcão

Narcisa Faial
Belisa Quental
Miguel Valentim

Evandro Queiroz
Leandro Munhoz
Raquel Serafim

segunda-feira, 9 de julho de 2018 2 comentários

Exegese


No léxico das coisas, plural é apenas
o número gramatical que expressa mais de uma unidade,
como revelam
– singulares –
os dicionários.


domingo, 4 de fevereiro de 2018 4 comentários

Quintessência


Amo a mera existência
da palavra fim.
Complexíssima ideia
em mínimo termo:
uma sílaba.

sábado, 9 de dezembro de 2017 11 comentários

Procura-se



Procura-se um amigo. Não precisa ser tremendamente especial, basta ser humano. Precisa saber falar e calar – sobretudo, ouvir. Tem que gostar de poesia, da madrugada, do sol, da lua, do canto dos ventos. Deve ter ressonâncias e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja puro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo, e no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Deve gostar de ruas desertas, de poças d’água, de beira de estrada.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos e dos diferentes, e que saiba conversar sobre qualquer coisa. Um amigo para não enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, anseios e realizações, sonhos e realidade. Um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque nos chama de amigo e se comove quando chamado assim. Alguém que nos dê a consciência de que ainda estamos vivos.

Será que essa pessoa é você?

domingo, 16 de abril de 2017 4 comentários

Diverso


De vez em quando, 
precisamos de um milagre às avessas 
para desnudar a linguagem, 
fazê-la durar por um minuto
: tão somente 
a vasilha com o vinho – 
uma recusa sacramental em se multiplicar, 
reclamando 
através disso 
um único pedaço de pão, 
um único peixe.

sábado, 2 de julho de 2016 8 comentários

Terra-a-terra


Fui riscado do seu mapa,
mas não desisti
da sua geografia.

quarta-feira, 8 de junho de 2016 12 comentários

Loa ao olho


Um ídolo que requer segredo, o olho 
não tem matiz discernível e confere 
ao espectro o que lhe falta

: as cores se refratam 
                e colidem 
                e formulam o visível. 

O olho é um zero 
difratando o tempo 
                e a água. 

É pelo que revela: 
uma condição de vantagem, 
um contrato 
                com o que se percebe. 

O olho é nada 
que já se viu.

 
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