domingo, 7 de junho de 2026 12 comentários

Caixa de Pandora


Guerrilha de informação,
reduzindo a comatosos
todos os fãs de telejornais.
replay configura
um diverso balé:
o corpo que cai,
cem vezes
alvejado pela metralhadora,
é mil vezes
perscrutado pela câmera.

Guerra de slogans,
grafitos em chamas,
mensagens não percebidas.
A razão em linha de fuga.
O show da vida,
a vida em show.
Dissolvendo as antenas
parabólicas da certeza.
Invadindo a cabeça
complacente do rebanho.

Mas querer ter muita convicção
não leva a muita coisa:
a angústia sem soluções
é o leitmotiv da década.


(Meu primeiro poema "publicado", Revista do Corpo Discente da UFMG, há 37 anos).

terça-feira, 5 de maio de 2026 12 comentários

Em surdina


Estou que não me sei. 
Desiludido dos sistemas 
e das superstições, fecho-me 
em copas. Esforço inútil: 
nenhuma fuga é possível. 
A vida é, 
inexoravelmente. 
Nela adolesço 
o estreito-pouco do meu corpo, 
querendo sempre mais 
- como Cecília – 
do que vem 
nos milagres.

quarta-feira, 1 de abril de 2026 10 comentários

Itinerários de Sísifo


Conforme nos rendemos 
às estrições desse tempo,

às agendas atulhadas
de coisas por fazer,
aos canhotos dos cheques
marcando
impiedosamente

os valores devidos
ao próximo mês,

tornamo-nos um
borrão indistinto

(desatino dos astrolábios)

na ginástica dadaísta das ruas,
onde somos tão só
a roda de um

invisível moinho de galés.


domingo, 29 de março de 2026 12 comentários

Prestidigitação


As palavras não se comportam, 
desproporcionam a vontade de escrever,
atormentam a inspiração.
Nada mais natural que se desprendam de mim,
como casca de árvore, como suor,
como pele de áspide. No entanto,
coisa nenhuma se expressa, elas continuam aqui,
recolhidas nesse interstício,
presas no atrito da imprecisão.
E qual o motivo, meu Deus?
Afora as óbvias,
justificativas assim precisas não há.
A autocrítica intransigente,
certa desambição de se fazer lido,
a persistente sensação de que nem
se é tão imperioso colocar minha alma no papel.
Novo tentame. Fixo-me na música das esferas,
conto meu fôlego daqui ao Zen,
busco resignação nos confins da sofreguidão.
Como um regente vacilante, ergo minha batuta
contra a fúria dos constrangimentos da eloquência
: minha escrita torna-se o contraveneno
da mordida do embotamento,
truque de dedos,
bruxedo de vocábulos.



 
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