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domingo, 2 de fevereiro de 2025 12 comentários

Atendimento telefônico


Aperte 1 para a impaciência com o menosprezo
dos atendentes de todos os serviços telefônicos,
sua falta de preparo ao lidar com pessoas,
sua ineficiência cava, ensinada e repetida,
como se isso fosse um trato profissional requerido.


Aperte 2, 3, para a renúncia do seu tempo, 
que se esvanece em sinfonias inanes de saxofone,
música de elevador, transformando tudo num ruído
oco, sem sentido, até você perder o propósito:
para quem estou ligando mesmo?


Aperte 4, 5, 6 para insatisfação garantida,
de ficar perdido diante de tantas opções de discagem,
como defronte a um menu indigesto,
cuja comida nunca mata a sua fome,
cujo sabor só promete a náusea vindoura.


Aperte 7, 8, 9 para a vontade de esganar
o atendente, o supervisor, o chefe de operações,
todos assentados no sarcasmo, podendo fazer algo,
mas – ainda assim – presos no conluio de postergar
e até mal usar o idioma, num gerundismo canhestro:


“amanhã estaremos mandando o técnico à sua casa”.

sexta-feira, 8 de maio de 2020 0 comentários

Involução do espécime


)
do Diário do Confinamento
(

Você, 
que transforma a angústia
em saudável perspicácia e defende tudo
o que compreende em palavras:
   sua condenação virá pela língua,
   na erosão lenta, mas indiscutível
   que dimana de cada decepção.

Você,
que consome informações
em crescente desgosto, sem ao menos
ter a percepção de como tempo devora
só os desamparados e se dá a si mesmo
seus próprios mandamentos –
[não sou -fóbico ou -ista 
(insira aqui seu prefixo), mas...]:
   atente para o momento em que não fizer sentido
   a natureza das coisas crispadas em seu íntimo.

Não é preciso se apressar, nem jogar fora
a verdade mais persistente:
“amai-vos uns aos outros”,
“somos todos iguais perante a Lei”.
Só se lembre bem de como era a vida antes:
obscurantismo, ignorância, medo
da escuridão como devorador de gentes,
o trovão que era reprimenda dos deuses,
um panteão inteiro a idolatrar em sacrifício.

Diga-me então como você é capaz
de chegar a este ponto, para trancar
as portas da história e não se reconhecer
no seu povo – os outros! – e como desaprendeu as lições.

quarta-feira, 29 de abril de 2020 0 comentários

Números


)
do Diário do Confinamento
(

Entrementes, no quebranto das notícias,
o extermínio galopante, implacável.
A fatura cruel de eleições sinistras
no recenseamento do luto inviável.
Sem adeus nas covas a granel,
a ferida fica aberta, inexplicável.
A morte virou estatística,
um desmazelo indesculpável.
Perdemos vidas, não cifras,
e não há planilha que nos seja razoável.

sexta-feira, 24 de abril de 2020 0 comentários

O vizinho


)
do Diário do Confinamento
(

O vizinho sabe
nada além
do que se sucede em conflito.
Disposto e armado
da retórica mais vil,
quer catequizar todos no grito.
Estratégia de marketing ou gafe,
repete chavões reacionários,
antes vomitados por seu mito.
Chauvinista e fanfarrão,
cospe imposturas preconceituosas
quase tendo um faniquito.

O vizinho vocifera disparates
como se, para respirar,
isso fosse requisito.
Abrutalhado em sua mediocridade,
renega tudo o que não entende:
ciência, para ele, é delito.
Apóstolo do obscurantismo,
brada que sua opinião vale tanto
quanto todo livro escrito.
Cúmplice de impiedades,
vilipendia sua companheira,
(esse seu esporte favorito).

O vizinho, talvez, também,
seja alguém que more aí perto,
em seu distrito.

Afinal,
quem hoje não conhece
alguém assim descrito?

terça-feira, 14 de abril de 2020 0 comentários

Valia


)
do Diário do Confinamento
(

Em tempos de crise,
revelamos nossos valores:
enquanto uns ofertam sua serventia, 
outros só precificam a vida.

domingo, 20 de outubro de 2013 10 comentários

A náusea


Começou: meu corpo, consumpto e lasso,
aturdido no cânion dos lençóis,
vai se enrodilhando como caracóis,
sob o peso do meu cansaço.

Sem indício de andaime, sou lançado
nesse ilhéu que se tornou minha cama.
Cercado pelo sono por todos os lados,
vou me alastrando pelo panorama

de um extenuante langor de domingo,
sonhando com a semana, onde me extingo
num abrandamento torpe e servil
em labores de cunho mercantil,
que me reduzem a mero perfil –
cadastro, ficha, menos do que um pingo.


 
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