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terça-feira, 4 de julho de 2023 0 comentários

A lição do labirinto


Não me fio
na linha que percorro
: me busco e me perco
sem mapa mundi,
nas longitudes de mim.

Minhas trilhas,
traçadas em passos,
são histórias
dos meus descaminhos.

domingo, 18 de junho de 2023 0 comentários

Destino


Perco-me
mais e mais,
assaz desatinado
para ter noção alguma
de qual é o norte
dessa bússola,
indo parar quase
exatamente
onde eu queria
estar.

domingo, 23 de outubro de 2022 0 comentários

Peregrino


Estou no precáriode estar sem rumo,
onde a passagem sabe
das sendas que os meus pés
não mais abordam.


Eldorado,
Hespéria,
Pasárgada,
Cólquida,
Xangrilá,
reinos miríficos e mundos arcanos
já receberam a visita
de minha mala sem sossego.

A promessa de chegar
afasta o cansaço
das minhas solas gastas
e faz afluir o perto.

A distância é uma fronteira
em dissolução e assoma
como o regresso
prevalecendo-se dos passos.

Atrás de mim
seguem as pegadas
a caminhar pelas reminiscências
de meus roteiros,
a relatar não mais
que minhas trilhas imaginárias,
o fascínio de meus trajetos,
a tenção de meus andamentos,
meu sestro de andarilho.

domingo, 12 de setembro de 2021 1 comentários

Afora



Respeito, antes de tudo:
gentileza em meio à raiva,
polidez, ainda que irritado
– pois a paixão é mesmo
esse fogo e o amor fica pouco
mais além, entremeado
de paciência e esforço.

Para lá das quimeras
de se estar sempre
certo ou errado,
há um campo
(como já disse Rumi)
e é só aí
que a relação floresce.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020 0 comentários

Caminhantes


) 
A partir de um poema de E.M. de Melo e Castro 
( 

Apenas um passo
e é então possível
medir a extensão
do andar de um homem.

Ainda que esse tamanho
não seja preciso ou reiterado
mas, quem dá um passo, anda
e é andando que se chega.

Onde chegamos
muito nos define,
bem como as distâncias
construídas com nossos caminhares.

Pois estas são nossas
medidas, assim determinadas
pelas nossas pegadas, que ficam.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020 0 comentários

Jardim pênsil


Na teia de aranha,
animação suspensa
: uma folha seca.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020 0 comentários

Amor posto


Você me beija
e em mim se instala,
sem cerimônia.

sábado, 15 de agosto de 2020 4 comentários

Flavescente


Caprichosamente,
o elenco da tarde
polvilha de mínimos sons
– um trinado, um sopro,
um rumor ao longe
–
céus fartos de amarelo
quase pálido e embaçado
– daqueles que só se veem
em obras gastas e por pouco
totalmente preteridas em baús
–
esmorecendo
vagarosamente
o fluxo dos minutos até
a teia de aranha
cessar de se agitar
e, tanto o inseto condenado
e eu nos darmos como aceito
que nada há mais o que fazer.

terça-feira, 21 de abril de 2020 2 comentários

Posologia


)
do Diário do Confinamento
(

Tentamos ser tudo de uma só vez:
nossos nomes e sobrenomes,
nossa solidão e nossa coletividade,
nossa ambição afoita e nossa esperança cega,
nossos amores
não correspondidos
e parcialmente aceitos.

Nossas vidas perpendiculares
configuradas em paralelo,
não nos gráficos austeros da biografia oficial,
mas em diagramas de múltiplos lados
e pontos de vista.

Vidas que se tramam com outras
e dessa tapeçaria surgem pequenas verdades:
contra a convenção e o coletivismo irracional,
cada um sabe a dose que lhe envenena ou cura
e a solidão que lhe é companhia ou agrura.

domingo, 19 de abril de 2020 4 comentários

Dos copos


)
do Diário do Confinamento
(


Admiro a amnésia dos copos.
Lavados, enxugados, reusados.
Deslembram de sua água,
                              seu suco,
                              seu café.
Recebem e devolvem
quase tudo
que lhes foi dado,
sem rancor e sem remorso.
Guardam para si
só o ínfimo do sucedido,
que desaparece
antes
do próximo gole.


domingo, 18 de agosto de 2019 2 comentários

Análogas



)
Para Indi,
admirável em qualquer idade
(

A menina agrilhoada
na mulher despontada:
eis a luta travada.
A menina é arteira, sagaz,
dribla a mulher sem deixar-se tocar.
Mas a mulher é astuta,
troça da menina,
deixa pensar que se engana.
A menina apronta. A mulher se revela.
Peleja em vão, luta desconexa, sem fáceis triunfos.
Mulher, menina, ambas a mesma...
Subversivas? Desejantes!



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015 12 comentários

Tangível


Seus dedos fazem
odisseia pela topografia
de meus poros, minha tez
de pergaminho. Vagueiam,
em romaria, pelas subidas
e depressões das cordilheiras
em minhas costelas, cumes de ossos,
decodificando os inchaços
e ondulações da epiderme
como se fossem Braille.

Estes entalhes na textura
de dobras e vincos
são as chancelas que o tempo me deu,
breviário cunhado
em escrituras de cicatrizes.

Seu afago cigano palmilha
o adobe exausto da minha pele,
carta geográfica despida de invólucros,
e me torna um frêmito de expectativas,
Kundalini
a percorrer a espinha.


domingo, 23 de novembro de 2014 16 comentários

Moratória


Não me importa
se você vai demorar
: não tenho pressa.


quarta-feira, 9 de julho de 2014 12 comentários

Ocorrência


A tristeza crônica de um fim de tarde.
Nuvens criando rugas no céu lilás,
o ar frouxamente obstruído por teias.
Atravesso a hora final do crepúsculo
com a tácita consciência da grave presença do mundo,
com a compacta serenidade de uma árvore. 

Satisfeito comigo, como um hibisco.

quarta-feira, 16 de abril de 2014 12 comentários

Litogravura


Coreto de concretagem ciclópica,
bancos em dispersão isotrópica.
Sombra, quase que microscópica.
Localidade nem tão misantrópica -
contumacíssimo verde ainda medra
dentre a praça impressa na pedra.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014 16 comentários

Prenda


No auge da tempestade,
saio para assistir
e, ao voltar,
trago no cálice das mãos
um granizo
do tamanho de uma bola de gude,
um gomo
caído das nuvens
fendidas por relâmpagos.

Fascinado,
eu me esqueço
da possibilidade de quebra
das vidraças, desconheço
as advertências de minha mãe
e seu rosário
a postos para oração,
o cobrir sobressaltado de espelhos 


                                                                (um caso antigo
                                                                entre minha avó
                                                                e trovoadas ancestrais).

Observo
meu bocado do firmamento
derreter – levo-o aos lábios,
provo dos ventos glaciais
e das noites polares.

Enquanto a chuva cai
mais suavemente
e o trovão ressoa
mais distante,
a tempestade se dissolve
doce
em minha língua.


sábado, 20 de julho de 2013 12 comentários

A estrutura do dia




A tarde ensaia um sol,
enquanto
se despede de um distante
refrão de chuva.
Uma festa
de terra molhada me flui
pelos dedos.
Viajo pelos novos aromas
como ave migratória.

... Decifrando as cicatrizes
deixadas pela correnteza.

quarta-feira, 10 de julho de 2013 14 comentários

Ulisses



Estou sempre em regresso,
na recíproca da gravidade
no chão que se ergue
para o pouso do pé.
Cada movimento
é uma odisseia de volta,
dentro da qual sou
conduzido por vetores rivais,
arrasto e repulsa,
em errância por veredas
contraditórias dentro de mim.

Há esse desassossego sem âncora
: se me estaciono,
deixo um poder de passos no imóvel,
pois em hipótese alguma
devo abandonar a andança
por falta de caminho.

Se você me perceber
na quietude de um instante,
saiba que o que vê é uma fotografia,
eu nunca sou sereno assim,
meu deslocamento é constante
e essa é a verdade,
a verdade dos perímetros cambiantes.

Ou talvez não
a verdade inteira, apenas
a distância que se ajusta a mim
: na ambulação de todas as lonjuras
está a minha jornada de retorno para casa.


domingo, 2 de junho de 2013 16 comentários

Lição

)
Para Umberto Eco
(

É                    mais                             prudente                   e
por                cautela                        mais                            sábio
não               falar                                                                   de mim
:                     ou                                 me                                louvo
o                    que                               é                                   vaidade
:                     ou                                 me                               desonro
o                    que                               é                                   estupidez
melhor        que                               os                                 outros
                      descubram                meus                           defeitos
que a            inveja                                                               possa
corroer         sem                            que eu                         sofra
muito                                                                                      dano

sábado, 4 de fevereiro de 2012 22 comentários

Da litocronia


As pedras escorregadiças, 
lustradas por anos de conflito. 
Aguerridas, iludem o tempo 
enfrentando-o de frente, 
minério contra o vento, 
contra a chuva, 
expondo todos os achaques 
e tormentas que esfolam 
cada aresta com um toque 
não muito distinto do de um Michelangelo. 

Ainda assim, o ar 
é teimoso em sua insistência: 
quer assinalar as pedras 
com a rubrica do envelhecimento, 
como um encarcerado 
que decompõe a idade que lhe resta 
em linhas e traços. Quando o sol 
começa sua descida lenta, 
ornando o ar de ouro e cinabre, 
as pedras recortam a paisagem, 
severas e estoicas, sem saber 
que somos nós 
os interinos no crepúsculo.

 
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