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domingo, 17 de agosto de 2025 6 comentários

Fluvial


 )
Às margens do São Francisco, vinte e cinco anos depois
(

A surpresa, o engasgo do instante. 
Eu simplesmente não estava preparado 
para tanto azul, assim tão caudaloso, 
nem para a majestade de tanta água. 
Meus ribeirões sempre foram cheios de lodo, 
estanques e sóbrios, 
nauseabundos pelo esgotamento 
paulatino e axiomático. 
E agora, esse rio prestes nos olhos 
vem me percorrer com uma força zen 
tornada manifesta, um deleite 
de dilatar as pupilas. 
Agosto estua e tudo 
imprime enredos na torrente
: conluio de fluxos que me fizeram 
desaguar no desenfado destas margens.

segunda-feira, 3 de março de 2025 12 comentários

Das águas que sabem de março


Fui hipnotizado pelas ondas
de um olhar
implacavelmente azul.

E na força das águas,
                            aportei

onde os olhos sabem suas lágrimas:

             enseadas lentas,
                            praias desertas e cais
             abandonados
em noites de recuerdos ao luar.

Súbito,

ventou um silêncio de brisa
                            e sem demora

                   : águas passadas,
                            sem ressaca.


terça-feira, 31 de dezembro de 2024 10 comentários

Nagual


Gostaria de me raptar
não sei como
dessa aflição
de dezembro, desse
céu à régua,
ilhando tristes,
dessa euforia
desgovernada, desse
estrangulamento;
o rufar de tambores
num crescendo,
que só faz
contar
regressivamente
os dias para
o próximo
calendário.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2024 0 comentários

Restante



A cúpula do céu,
repartida em poças,
após a chuva.


segunda-feira, 11 de julho de 2022 0 comentários

Matinal

As cores rápidas
de uma criança brincando
na praça onde
estátuas, em seu bronzeado
de granito circunspecto
e olhar de mormaço,
fitam céus incertos,
de horizontes esticados.

Uma fatia de luz
intromete-se pela sala de estar
e desgasta as cadeiras,
enquanto o sol de ontem,
friccionado no lençol,
agora cobre a cama.

A manhã é canibal bulímica
e devora as horas lentas,
vomitando tempo perdido.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021 2 comentários

Peripécia



O corpo espanca o carro: 
súbito silêncio dos pneus.

Nos lábios da calçada,
a formiga afogada em vermelho
e a bola perdida.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020 0 comentários

Jardim pênsil


Na teia de aranha,
animação suspensa
: uma folha seca.

sábado, 15 de agosto de 2020 4 comentários

Flavescente


Caprichosamente,
o elenco da tarde
polvilha de mínimos sons
um trinado, um sopro,
um rumor ao longe

céus fartos de amarelo
quase pálido e embaçado
daqueles que só se veem
em obras gastas e por pouco
totalmente preteridas em baús

esmorecendo
vagarosamente
o fluxo dos minutos até
a teia de aranha
cessar de se agitar
e, tanto o inseto condenado
e eu nos darmos como aceito
que nada há mais o que fazer.

quarta-feira, 20 de março de 2019 2 comentários

Meio assim


Vez em quando nos hospedamos uns nos outros,
serendipidade transitória prometida em olhos                                                                                           [ alheios,
a urgência da busca numa terça-feira de março,
ano que só começa agora, mas com dias já tão feios,
agenda cheia – senhor! – tantos compromissos,
e notícias que só dizem de ziquiziras e tiroteios.

O que significa? O que permanece?
O acaso fugaz de olhares trocad
os, a crosta do afeto,
a palavra onde levantamos abrigo
e essa recusa atrevida de não ser só
objeto.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018 2 comentários

Pois então


Perdemos o trem, não o rebolado.
Apostamos no humor contra todos os males.

Dos clichês, fazemos um achado,
e driblamos o lugar-comum nos detalhes.

Amor e arte fermentam o pão de todo dia.
Pouca ou muita, a fé move cordilheiras de medos.

Prosa de vez em quando nos falta, nunca poesia.
A alegria até arrisca raízes nos cotidianos enredos.

O chão é duro, tudo exige paciência e atenção.
Nosso engenho engana a sorte e se traça na escrita.

No final do ano, a esperança nos visita na contramão
e nos impele: insista, refaça, repita.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018 4 comentários

Das tempestades de novembro


Quem pôs a vassoura atrás da porta do invisível? 
(


O céu é da cor de lápides.
O temporal parece se alçar das ruas
como maré nociva, toldando
as distâncias, quilômetros
que se estendem por diferentes cartas geográficas,
correndo por trilhos
numa velocidade cada vez mais
estridente, até findar
num lamento que a longitude engole.

Ficamos como coisas minúsculas
num Atlas infindo,
abscissas se estirando à eternidade,
o espaço, de tão longo,
transformado em tempo.

Brevíssima visita,
você foi embora num mudar de clima
e a chuva é toda na primeira pessoa do pluvial.


quinta-feira, 8 de março de 2018 8 comentários

Para um oito de março


Poemas há
que só podem ser escritos por mulheres.

Poemas de útero,
de úbere.

Poemas em curva,
labiados.

De uma sensualidade telúrica,

que traz no ventre
a possibilidade do verbo
fecundar outro corpo.


domingo, 4 de fevereiro de 2018 4 comentários

Quintessência


Amo a mera existência
da palavra fim.
Complexíssima ideia
em mínimo termo:
uma sílaba.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017 4 comentários

Tempus fugit



O mundo jamais será
um lago suíço
de águas tranquilas.
Pois 

a crise é
o estado humano por excelência,
a viagem é
o nosso porto,
passar é o nosso dever.


sábado, 22 de fevereiro de 2014 10 comentários

Ampulheta

)
Esperando Godot?
(

O tempo se desdobrando
feito um origami às avessas,
num esforço de se fazer
tabula rasa gotejando pelo colo
de uma clepsidra, enquanto
o coração lateja paralelo
às batidas do relógio, deixando
tudo o mais como que contaminado
por analgésicos, sob o extenuante
desânimo do sábado à tarde,
(desincomodado) com o sol
a queimar os móveis da sala de estar.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014 16 comentários

Prenda


No auge da tempestade,
saio para assistir
e, ao voltar,
trago no cálice das mãos
um granizo
do tamanho de uma bola de gude,
um gomo
caído das nuvens
fendidas por relâmpagos.

Fascinado,
eu me esqueço
da possibilidade de quebra
das vidraças, desconheço
as advertências de minha mãe
e seu rosário
a postos para oração,
o cobrir sobressaltado de espelhos 


                                                                (um caso antigo
                                                                entre minha avó
                                                                e trovoadas ancestrais).

Observo
meu bocado do firmamento
derreter – levo-o aos lábios,
provo dos ventos glaciais
e das noites polares.

Enquanto a chuva cai
mais suavemente
e o trovão ressoa
mais distante,
a tempestade se dissolve
doce
em minha língua.


domingo, 17 de novembro de 2013 12 comentários

Hecatombe


O corpo espanca o carro:
súbito silêncio dos pneus.

Nos lábios da calçada,
a formiga afogada em vermelho
e a bola perdida.


domingo, 20 de outubro de 2013 10 comentários

A náusea


Começou: meu corpo, consumpto e lasso,
aturdido no cânion dos lençóis,
vai se enrodilhando como caracóis,
sob o peso do meu cansaço.

Sem indício de andaime, sou lançado
nesse ilhéu que se tornou minha cama.
Cercado pelo sono por todos os lados,
vou me alastrando pelo panorama

de um extenuante langor de domingo,
sonhando com a semana, onde me extingo
num abrandamento torpe e servil
em labores de cunho mercantil,
que me reduzem a mero perfil –
cadastro, ficha, menos do que um pingo.


sábado, 20 de julho de 2013 12 comentários

A estrutura do dia




A tarde ensaia um sol,
enquanto
se despede de um distante
refrão de chuva.
Uma festa
de terra molhada me flui
pelos dedos.
Viajo pelos novos aromas
como ave migratória.

... Decifrando as cicatrizes
deixadas pela correnteza.

sábado, 23 de março de 2013 14 comentários

Lugar comum




A geometria de uma noite de sábado,
aos poucos, se completa.
Deixo entrar
um luar sem atenuantes
pela janela do quarto.
Empreendo uma viagem visual
pela cidade: as adagas esguias
dos edifícios me insulam
ainda mais.

Eu vegeto.

Estou mais só
do que eu mereço.

 
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