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domingo, 29 de março de 2026 12 comentários

Prestidigitação


As palavras não se comportam, 
desproporcionam a vontade de escrever,
atormentam a inspiração.
Nada mais natural que se desprendam de mim,
como casca de árvore, como suor,
como pele de áspide. No entanto,
coisa nenhuma se expressa, elas continuam aqui,
recolhidas nesse interstício,
presas no atrito da imprecisão.
E qual o motivo, meu Deus?
Afora as óbvias,
justificativas assim precisas não há.
A autocrítica intransigente,
certa desambição de se fazer lido,
a persistente sensação de que nem
se é tão imperioso colocar minha alma no papel.
Novo tentame. Fixo-me na música das esferas,
conto meu fôlego daqui ao Zen,
busco resignação nos confins da sofreguidão.
Como um regente vacilante, ergo minha batuta
contra a fúria dos constrangimentos da eloquência
: minha escrita torna-se o contraveneno
da mordida do embotamento,
truque de dedos,
bruxedo de vocábulos.



segunda-feira, 17 de novembro de 2025 10 comentários

Da solidão esferográfica


A noite caiu
violentamente
                                                sobre os ponteiros
                                                de minha sanidade.

A insônia
                                                                                                         me vigia,
                                                com aquela
perseverança
                                                que só
                                                ela. Eis que
                                                                                                             estou aqui
                                                provocando
                                                precisamente
a palavra
                                                que não
                                                vem.


domingo, 6 de julho de 2025 10 comentários

Avatar


O papel faz a súmula
do meu segredo
de vida: não
passo de uma
cópia não
autenticada
de mim mesmo.


segunda-feira, 12 de maio de 2025 10 comentários

Ouropel


Palavras em surdina, 
sem nenhuma intenção
de abandonar os espaços
em branco.

Arrasto comigo um texto
em busca de letras exatas
para ser urdido,
que me respire e me arrebate
no seu fôlego,
que me recorte
nos parágrafos do dia.

Este repertório de conversação:
verbo,
     lema,
         linguagem,
     cairel da língua,
palimpsestos
— nada me serve.

A logorréia da intranquilidade
avança sobre meus sigilos,
finca bandeiras,
desbrava. Chego atrasado
ao que quero falar.

Como uma árvore bonsai,
minha palavra é podada.
E silencia o escrito,
até dizer.

(Quando criança, eu repetia uma palavra
intermináveis vezes para mim mesmo,
até que seu sentido se perdesse com calma,
deixando exclusivamente a crosta de um som cavo.
Tente: muito é ótimo).


quarta-feira, 1 de janeiro de 2025 10 comentários

Escopo


Pelo inferno e o céu de todo dia,
eu conservo somente um desejo:
transformar o tédio em poesia.

Que seja do que em mim silencia,
ou do que sinto, mas que não vejo –
o essencial é que haja a lexia.

(Se, tal como uma sala vazia,
a página frustrar-me o que almejo,
que, ao menos, não se faça a atonia).


domingo, 10 de novembro de 2024 14 comentários

Xis da questão


Não é porque não
estou sendo
lido que eu não
deva ser escrito.


sábado, 7 de setembro de 2024 10 comentários

Ricochete


Há dias que são assim: 
essa rejeição às soluções fáceis,
essa aflição por qualquer mancia.
Busco uma outra certeza, um modo
de dizer, um lapso.

(Espio sob as dobras do discurso).

Queria poder habitar a folha
                                  sem tantas rasuras
e não mais bater o coração
contra essa parede de palavras.

O mundo me importa tão só enquanto
                                  se engasta em escrita,
                                  pois o que não sei
                                  fazer desconto
                                  no que escrevo

e escrevo como se em algum lugar,
entre o inalcançável e o invisível,
eu soubesse haver uma resposta fácil,
aquela que rejeitei logo de início.


terça-feira, 6 de fevereiro de 2024 8 comentários

Algo ágrafo


Minha vontade estende 
seus olhos longos para a folha.

A introspecção da paisagem:
fazendo massa crítica para escrever.

Olímpica em sua indiferença,
a musa fica lívida:

e me dá um branco.


quinta-feira, 11 de maio de 2023 0 comentários

Palimpsesto


)
Ou todo homem nasce original e morre plágio.
(

Sou refém de minhas referências,
do que li ao longo da vida –

das bulas de remédio
aos compêndios da alta ciência,
folhetos,
folhetins,
antologias.

Estratos de palavras
acumulam-se
e vão se sedimentando em mim,

a ponto de se mesticizar
tão de todo
que é infactível
demarcar os confins

entre a coletânea e o ineditismo.
Como separar
as frases que plantei
daquelas que colhi
em florilégio alheio,
se crescem no mesmo
buquê de vocábulos?

Existo nessa folhagem,
entre o abrir e fechar de páginas,
redigindo capítulos
de um livro vivo,
essa casca tênue que sou,
reescrita
todos os dias.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023 0 comentários

Na comissura entre o texto e o leitor


Não é o curso irrefreável da natureza,
sequer uma epifania ou a contrafação
de um diamante. É, se tanto, uma busca
de resposta, aflição epidérmica que só
é abrandada ao rebojo do que escrevo.
Pois tudo o que se diz tende (e propende)
ao poema, e à tona de um momento
qualquer existe o alento da poesia.

Palavras são biodegradáveis e o texto é
fugaz no espaço a que se reduz nesse ruído
de fundo, grande supermercado cognitivo.
Eu escrevo na tentativa de gerar uma flor
no bocejo de quem me lê: atenção raptada
e mantida refém pelo tempo de um enquanto.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022 0 comentários

Formosa


Ninguém mais se lembra do nome da ilha;
se tanto, usam para falar da sobrinha, ou da filha.
Para mim, tem um quê de plenitude da ideia,
teor e forma em cima de mesma boleia
– trazida à baila sem raiva ou agressão,
o argumento para além da mera opinião.

Pois ter ideia, mesmo aquela que desabe,
no país onde a raiva é contra quem sabe
é de uma audácia sem tamanho: intrepidez.
Dia a dia, contra a truculência da estupidez,
tão-só estudar, refletir e negar a impostura
é buscar a liberdade frente à ditadura.

A ideia precisa, repito, vai além da crença
e a verdade – bela! – só é possível quando se pensa,
mesmo e sobretudo quando a situação é tensa.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022 0 comentários

Guindastes


        Falamo-nos em terceira voz
        a equivalente sentença,
como que chegando à mesma margem
        por outro fado e querença.

        Buscamo-nos colmatar a lacuna
        inventada pela diferença,
cor da pele e procedência desiguais,
        com uma fala que convença.

        Alçamo-nos palavras preferidas,
        montando uma acepção mais extensa
ao mover vocábulos em construção delicada,
        esse fazer sentido, que nos pertença.

sábado, 16 de abril de 2022 0 comentários

Pretextos

 

Eu escrevo porque tenho que.

Porque minha língua é
uma ferramenta muito esquiva
para a elegância da linguagem e eu
me sinto mais confortável falando
com as duas mãos, através da dança
pianística de meus dedos.

Escrevo porque o mundo é
criado por meio da linguagem
e quero um papel a desempenhar
em tecer o futuro.

Escrevo porque quero chegar até
meus leitores, onde quer que estejam,
e a única maneira que podemos
conhecer uns aos outros
é por meio de palavras.

Escrevo para me descobrir,
porque eu ficaria
louco de outra forma ou
porque eu já o seja.

Escrevo porque eu preciso
dar sentido à terrível complexidade do universo.
Porque eu sou feliz. Porque me dói.
Eu escrevo porque não há outra saída.

domingo, 10 de outubro de 2021 1 comentários

Passadiço

 

O poema é alvenaria
: implausível ereção
de castelos, engenharia
reversa, o desfazer
da forma para engendrar
sentidos – uma leitura.

O poema é percurso
: jornada por sendas incógnitas,
paisagem movediça, extravio
de rumos, inventário de quimeras
degredadas e anistiadas –
rasura e reescrita
no mesmo apoucado espaço.

Construção e caminho,
o poema é passagem.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021 2 comentários

De mais uma definição de poesia


Certos textos que lemos
nos carregam em sua sintaxe,
clareando cada palavra,
fazendo o sentido se esgueirar
entre e ao longo da leitura,
não obstruindo
mas nos deixando
só a emoção do entendimento
como sequer houvesse
algo a ser lido
ali:

isso 
é poesia!

quinta-feira, 15 de julho de 2021 2 comentários

Uns



Uns são
Benjamim.

Uns vão,
trampolim.

Uns tão...
manequim.

Uns não, 
outrossim.

sábado, 9 de janeiro de 2021 4 comentários

Excesso de bagagem


Eles reclamam de seus nomes do meio,
carga descomedida, 
ônus na alfabetização,
má notícia no chamamento de mãe.

Daí amputam um naco da alcunha,
inventam uma identidade diversa,
neófita, forasteira na assinatura.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020 0 comentários

Sobre mim

 
Cada outro,
nunca assim,
onde dentro.

Tempo ainda,
nada antes,
tudo sempre.

Corpo todo,
noite e dia,
tanta palavra!

domingo, 19 de julho de 2020 0 comentários

À face da letra


Apenas metade
do que escrevo é
o que quero dizer.

(A outra é
impedir as pessoas
de ler o que esperam 
que eu queira dizer).

sábado, 2 de maio de 2020 0 comentários

Litania


)
do Diário do Confinamento
(

Como tratar trivialidades num poema:
clarear os fatos abrindo as janelas
e deixando o silêncio
engordar os cômodos da casa.
Escrever — quase uma solução —
pois a palavra tem sido o lugar
onde levanto abrigo.
Adentro,
esse grande escuro pertencente a todos,
minha trajetória mínima se distende
e se confina dentro dessas margens.

 
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