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segunda-feira, 3 de agosto de 2026 16 comentários

Da estratégia da fênix


Disparei o coração
na fluência do tráfego,
bem na hora do rush.
Lancei meu sorriso aos pombos,
numa dessas tardes de domingo.
Dissolvi oração e silêncio
nos braços constelados de carências.
Crivei o olhar de canções tristes
e me alastrei sobre nostalgia.

Mas não se engane comigo,
rasgo o invólucro. Deslindo-me:
é só a minha punção de mártir
em busca de um outro
passatempo para o corpo.


terça-feira, 5 de maio de 2026 12 comentários

Em surdina


Estou que não me sei. 
Desiludido dos sistemas 
e das superstições, fecho-me 
em copas. Esforço inútil: 
nenhuma fuga é possível. 
A vida é, 
inexoravelmente. 
Nela adolesço 
o estreito-pouco do meu corpo, 
querendo sempre mais 
- como Cecília – 
do que vem 
nos milagres.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026 18 comentários

Sudário


Sigo um certo rastro de vida
que não me leva a lugar algum.
Aceito relações feitas de acaso
e circunstâncias: onde
acontece estar meu corpo.

Na verdade,
vivo para buscar
a parte rebelde de mim,
que descansa no sem fôlego
de uma noite sozinha,
vazia,
amarga de insônia.
“O meu ofício é ter alma”.

Mas ainda me desconheço:
entre o que sou e eu
existe um hiato,
virgem como uma dançarina
sem coreografia.


domingo, 6 de julho de 2025 10 comentários

Avatar


O papel faz a súmula
do meu segredo
de vida: não
passo de uma
cópia não
autenticada
de mim mesmo.


sexta-feira, 7 de junho de 2024 10 comentários

Bolero


Eu sou depois, 
                       quase quando.
Ela é demais,
                       onde pleno.

                       Estou ainda,
versículo vinte.
                       Ela permanece,
século vinte e um.


sexta-feira, 15 de dezembro de 2023 0 comentários

Totem


Sou o vento que respira
sobre a melancolia do mar;
sou o abutre nas rochas,
rendido aos evangelhos do equilíbrio;
sou um golfinho e mergulho
nas profundezas da minha alma;
sou um desenho numa árvore,
sem compromissos além
da minha própria forma;
sou uma gota de óleo na água,
condenada a permanecer inabsorvida;
sou o esplendor do silêncio,
que é mais do que a palavra;
sou a imitação da rosa,
pendida na angústia da felicidade
de um buquê de noiva;
sou a cimitarra do quarto crescente,
ceifando este fiapo de noite;
sou tudo o que eu nunca lhe disse
dentro dessas margens.

terça-feira, 1 de agosto de 2023 0 comentários

Bula



Cumpro a sina,
sem dor
nem amargura:
plausível tudo.

terça-feira, 4 de julho de 2023 0 comentários

A lição do labirinto


Não me fio
na linha que percorro
: me busco e me perco
sem mapa mundi,
nas longitudes de mim.

Minhas trilhas,
traçadas em passos,
são histórias
dos meus descaminhos.

domingo, 18 de junho de 2023 0 comentários

Destino


Perco-me
mais e mais,
assaz desatinado
para ter noção alguma
de qual é o norte
dessa bússola,
indo parar quase
exatamente
onde eu queria
estar.

quinta-feira, 11 de maio de 2023 0 comentários

Palimpsesto


)
Ou todo homem nasce original e morre plágio.
(

Sou refém de minhas referências,
do que li ao longo da vida –

das bulas de remédio
aos compêndios da alta ciência,
folhetos,
folhetins,
antologias.

Estratos de palavras
acumulam-se
e vão se sedimentando em mim,

a ponto de se mesticizar
tão de todo
que é infactível
demarcar os confins

entre a coletânea e o ineditismo.
Como separar
as frases que plantei
daquelas que colhi
em florilégio alheio,
se crescem no mesmo
buquê de vocábulos?

Existo nessa folhagem,
entre o abrir e fechar de páginas,
redigindo capítulos
de um livro vivo,
essa casca tênue que sou,
reescrita
todos os dias.

domingo, 23 de outubro de 2022 0 comentários

Peregrino


Estou no precáriode estar sem rumo,
onde a passagem sabe
das sendas que os meus pés
não mais abordam.


Eldorado,
Hespéria,
Pasárgada,
Cólquida,
Xangrilá,
reinos miríficos e mundos arcanos
já receberam a visita
de minha mala sem sossego.

A promessa de chegar
afasta o cansaço
das minhas solas gastas
e faz afluir o perto.

A distância é uma fronteira
em dissolução e assoma
como o regresso
prevalecendo-se dos passos.

Atrás de mim
seguem as pegadas
a caminhar pelas reminiscências
de meus roteiros,
a relatar não mais
que minhas trilhas imaginárias,
o fascínio de meus trajetos,
a tenção de meus andamentos,
meu sestro de andarilho.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021 2 comentários

Prontuário



Não tenho manual, receita ou fórmula,
não tenho senso nem siso.
Eu não me equaciono,
nem sou preciso.

sábado, 9 de janeiro de 2021 4 comentários

Excesso de bagagem


Eles reclamam de seus nomes do meio,
carga descomedida, 
ônus na alfabetização,
má notícia no chamamento de mãe.

Daí amputam um naco da alcunha,
inventam uma identidade diversa,
neófita, forasteira na assinatura.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020 0 comentários

Caminhantes


A partir de um poema de E.M. de Melo e Castro 

Apenas um passo
e é então possível
medir a extensão
do andar de um homem.

Ainda que esse tamanho
não seja preciso ou reiterado
mas, quem dá um passo, anda
e é andando que se chega.

Onde chegamos
muito nos define,
bem como as distâncias
construídas com nossos caminhares.

Pois estas são nossas
medidas, assim determinadas
pelas nossas pegadas, que ficam.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020 0 comentários

Sobre mim

 
Cada outro,
nunca assim,
onde dentro.

Tempo ainda,
nada antes,
tudo sempre.

Corpo todo,
noite e dia,
tanta palavra!

terça-feira, 10 de abril de 2018 8 comentários

Lá fora


Desde que comecei a escrever
(e provavelmente muito antes disso)
as palavras “lá fora” parecem carregar
mensagens distantes, como se um estranho
poder emanasse delas quando eu as digo
sem pressa ou as escrevo, cedendo ênfase
igual às duas palavras curtas.

Ao longo dos anos,
fui aprendendo de onde vem esta carga,
de que paisagem deriva seu clarão sobrenatural.

Em memória, eu retorno
à minha cidade natal e vejo,
da janela de casa de minha avó,
minha mãe partindo para o trabalho,
aquele gosto estranho de mundo
amplo se estendendo
sem fim para além
das minhas possibilidades de despedida.


quarta-feira, 17 de maio de 2017 4 comentários

Epifania

                                                          
)
Uma meia-noite de outono junto às janelas
(
 
A vida dentro
dos fones de ouvido
: o som
moldando-se
às profundezas
dos meus labirintos,
as pernas fluindo
pelo quarto,
o mover-me
para lugar
nenhum –
paisagem sem dúvida
alguma.

 
terça-feira, 14 de março de 2017 4 comentários

Segredo de confissão



Suposto que não me sei depois,
ouso a importunidade
e me escorro pelos olhos.
Meu páreo não é este
(ser honesto sem ser cruel),
mas tenho comigo:
no escrúpulo desse sobressalto,
também seu olhar de pólvora,
para sempre igual e mesmo,
capitula à irremissível verdade:

tenho ossos demais numa alma apertada.


sábado, 17 de dezembro de 2016 2 comentários

Xátria


Nasci guerreiro 
de conquistas acanhadas:
meramente
um homem.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015 14 comentários

Segunda pele


O tempo se dobrou
e não dei importância
ao primeiro vinco.

Acreditava que o passar
de meus dedos
pudessem suavizá-lo de vez.

As rugas, hoje,
fazem parte do sorriso.


 
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