na fluência do tráfego,
bem na hora do rush.
Lancei meu sorriso aos pombos,
numa dessas tardes de domingo.
Dissolvi oração e silêncio
nos braços constelados de carências.
Crivei o olhar de canções tristes
e me alastrei sobre nostalgia.
Mas não se engane comigo,
rasgo o invólucro. Deslindo-me:
é só a minha punção de mártir
em busca de um outro
passatempo para o corpo.
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segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Identidade,
Impermanência,
Inquietude
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Da estratégia da fênix
Escrito por
Fabrício César Franco
Sigo um certo rastro de vida
que não me leva a lugar algum.
Aceito relações feitas de acaso
e circunstâncias: onde
acontece estar meu corpo.
Na verdade,
vivo para buscar
a parte rebelde de mim,
que descansa no sem fôlego
de uma noite sozinha,
vazia,
amarga de insônia.
“O meu ofício é ter alma”.
Mas ainda me desconheço:
entre o que sou e eu
existe um hiato,
virgem como uma dançarina
sem coreografia.
Escrito por
Fabrício César Franco
sobre a melancolia do mar;
sou o abutre nas rochas,
rendido aos evangelhos do equilíbrio;
sou um golfinho e mergulho
nas profundezas da minha alma;
sou um desenho numa árvore,
sem compromissos além
da minha própria forma;
sou uma gota de óleo na água,
condenada a permanecer inabsorvida;
sou o esplendor do silêncio,
que é mais do que a palavra;
sou a imitação da rosa,
pendida na angústia da felicidade
de um buquê de noiva;
sou a cimitarra do quarto crescente,
ceifando este fiapo de noite;
sou tudo o que eu nunca lhe disse
dentro dessas margens.
Escrito por
Fabrício César Franco
domingo, 18 de junho de 2023
Equilíbrio,
Identidade,
Impermanência,
Itinerário
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Destino
Perco-me
mais e mais,
assaz desatinado
para ter noção alguma
de qual é o norte
dessa bússola,
indo parar quase
exatamente
onde eu queria
estar.
Escrito por
Fabrício César Franco
)
Ou todo homem nasce original e morre plágio.
(
do que li ao longo da vida –
das bulas de remédio
aos compêndios da alta ciência,
folhetos,
folhetins,
antologias.
Estratos de palavras
acumulam-se
e vão se sedimentando em mim,
a ponto de se mesticizar
tão de todo
que é infactível
demarcar os confins
entre a coletânea e o ineditismo.
Como separar
as frases que plantei
daquelas que colhi
em florilégio alheio,
se crescem no mesmo
buquê de vocábulos?
Existo nessa folhagem,
entre o abrir e fechar de páginas,
redigindo capítulos
de um livro vivo,
essa casca tênue que sou,
reescrita
todos os dias.
Escrito por
Fabrício César Franco
Estou no precáriode estar sem rumo,
onde a passagem sabe
das sendas que os meus pés
não mais abordam.
Eldorado,
Hespéria,
Pasárgada,
Cólquida,
Xangrilá,
reinos miríficos e mundos arcanos
já receberam a visita
de minha mala sem sossego.
A promessa de chegar
afasta o cansaço
das minhas solas gastas
e faz afluir o perto.
A distância é uma fronteira
em dissolução e assoma
como o regresso
prevalecendo-se dos passos.
Atrás de mim
seguem as pegadas
a caminhar pelas reminiscências
de meus roteiros,
a relatar não mais
que minhas trilhas imaginárias,
o fascínio de meus trajetos,
a tenção de meus andamentos,
meu sestro de andarilho.
Escrito por
Fabrício César Franco
sábado, 9 de janeiro de 2021
Elucubração,
Escritura,
Identidade,
Impostura
4
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Excesso de bagagem
carga descomedida,
ônus na alfabetização,
má notícia no chamamento de mãe.
Daí amputam um naco da alcunha,
inventam uma identidade diversa,
neófita, forasteira na assinatura.
má notícia no chamamento de mãe.
Daí amputam um naco da alcunha,
inventam uma identidade diversa,
neófita, forasteira na assinatura.
Escrito por
Fabrício César Franco
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
Elucubração,
Equilíbrio,
Identidade,
Impermanência,
Itinerário
0
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Caminhantes
)
A partir de um poema de E.M. de Melo e Castro
(
e é então possível
medir a extensão
do andar de um homem.
Ainda que esse tamanho
não seja preciso ou reiterado
mas, quem dá um passo, anda
e é andando que se chega.
Onde chegamos
muito nos define,
bem como as distâncias
construídas com nossos caminhares.
Pois estas são nossas
medidas, assim determinadas
pelas nossas pegadas, que ficam.
Escrito por
Fabrício César Franco
Desde que comecei a escrever
(e provavelmente muito antes disso)
as palavras “lá fora” parecem carregar
mensagens distantes, como se um estranho
poder emanasse delas quando eu as digo
sem pressa ou as escrevo, cedendo ênfase
igual às duas palavras curtas.
Ao longo dos anos,
fui aprendendo de onde vem esta carga,
de que paisagem deriva seu clarão sobrenatural.
Em memória, eu retorno
à minha cidade natal e vejo,
da janela de casa de minha avó,
minha mãe partindo para o trabalho,
aquele gosto estranho de mundo
amplo se estendendo
sem fim para além
das minhas possibilidades de despedida.
Escrito por
Fabrício César Franco
Suposto que não me sei depois,
ouso a importunidade
e me escorro pelos olhos.
Meu páreo não é este
(ser honesto sem ser cruel),
mas tenho comigo:
no escrúpulo desse sobressalto,
também seu olhar de pólvora,
para sempre igual e mesmo,
capitula à irremissível verdade:
tenho ossos demais numa alma apertada.
Escrito por
Fabrício César Franco
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
Identidade,
Impermanência,
Singularidade
14
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Segunda pele
O tempo se dobrou
e não dei importância
ao primeiro vinco.
Acreditava que o passar
de meus dedos
pudessem suavizá-lo de vez.
As rugas, hoje,
fazem parte do sorriso.
Escrito por
Fabrício César Franco
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