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quarta-feira, 21 de dezembro de 2022 0 comentários

Refrão


Vai dar no que der,
seja lá o que for
o que tem que ser:
nunca é indolor.

No fim das contas,
a gente já sabe:
aguentar as pontas
é o que nos cabe.

quarta-feira, 13 de maio de 2020 0 comentários

Fronteiras


)
do Diário do Confinamento
(

Cativo, na perene vontade de espaço,
estou em degredo em terras próprias:
perímetros que me cercam e não trespasso.

A ocasião me ensimesma em limites:
       ao norte, minha agastada sensatez;
       ao sul, esse medo crescente;
       a leste, o encargo econômico;
       a oeste, a torpeza geral e indiferente.

Balizas que me abrangem num duro abraço 
soberano de um domínio que me entedia
esse confim cada vez mais escasso.

sexta-feira, 8 de maio de 2020 0 comentários

Involução do espécime


)
do Diário do Confinamento
(

Você, 
que transforma a angústia
em saudável perspicácia e defende tudo
o que compreende em palavras:
   sua condenação virá pela língua,
   na erosão lenta, mas indiscutível
   que dimana de cada decepção.

Você,
que consome informações
em crescente desgosto, sem ao menos
ter a percepção de como tempo devora
só os desamparados e se dá a si mesmo
seus próprios mandamentos –
[não sou -fóbico ou -ista 
(insira aqui seu prefixo), mas...]:
   atente para o momento em que não fizer sentido
   a natureza das coisas crispadas em seu íntimo.

Não é preciso se apressar, nem jogar fora
a verdade mais persistente:
“amai-vos uns aos outros”,
“somos todos iguais perante a Lei”.
Só se lembre bem de como era a vida antes:
obscurantismo, ignorância, medo
da escuridão como devorador de gentes,
o trovão que era reprimenda dos deuses,
um panteão inteiro a idolatrar em sacrifício.

Diga-me então como você é capaz
de chegar a este ponto, para trancar
as portas da história e não se reconhecer
no seu povo – os outros! – e como desaprendeu as lições.

quarta-feira, 6 de maio de 2020 2 comentários

Simplório?

)
do Diário do Confinamento
(

Lembranças se propagam como fungos
e penetram fundo nos ossos da saudade:
o menino em mim recorda de quando
era simples separar o bem da maldade –
a maioria seguia com suas vidas,
sem fermentar tanta perversidade.

Contudo, talvez não fosse mesmo assim.
Talvez fosse tão somente ingenuidade.
Provavelmente a antipatia era ampla
e se disfarçasse a hostilidade.

Só sei que está sendo difícil 
esperar o melhor dos outros:
muitos berram sua raiva da alteridade
e se fecham em ficções egoístas,
descomprometidos com o que é de verdade.

quinta-feira, 30 de abril de 2020 0 comentários

Cangalha


)
do Diário do Confinamento
(

A gente vai aceitando as coisas, todo dia,
até que se concretizam em couro de provérbio:
de estória ou fanfarrice à razão absoluta.
Sedimento repetidas vezes assentado, lia,
e ainda assim, ecoamos convictos:
contra a praxe não há disputa.
Ofendemo-nos com as verdades da minoria
que fustiga o instável alicerce de nossas fés
e prosseguimos nessa pirraça resoluta.
Até que chega o momento, todavia,
quando a vida (a morte?) pulveriza tudo
e só nos resta continuar na labuta.

segunda-feira, 27 de abril de 2020 0 comentários

Intoxicação


)
do Diário do Confinamento
(

O entusiasmo é uma silhueta momentânea:
a dança faminta das notícias logo me paralisa.
A esperança envenenada pela instabilidade 

                                                                             [das coisas
depressa se torna fel, desamparo, ojeriza.


sexta-feira, 24 de abril de 2020 0 comentários

O vizinho


)
do Diário do Confinamento
(

O vizinho sabe
nada além
do que se sucede em conflito.
Disposto e armado
da retórica mais vil,
quer catequizar todos no grito.
Estratégia de marketing ou gafe,
repete chavões reacionários,
antes vomitados por seu mito.
Chauvinista e fanfarrão,
cospe imposturas preconceituosas
quase tendo um faniquito.

O vizinho vocifera disparates
como se, para respirar,
isso fosse requisito.
Abrutalhado em sua mediocridade,
renega tudo o que não entende:
ciência, para ele, é delito.
Apóstolo do obscurantismo,
brada que sua opinião vale tanto
quanto todo livro escrito.
Cúmplice de impiedades,
vilipendia sua companheira,
(esse seu esporte favorito).

O vizinho, talvez, também,
seja alguém que more aí perto,
em seu distrito.

Afinal,
quem hoje não conhece
alguém assim descrito?

segunda-feira, 18 de junho de 2018 2 comentários

Causa mortis


Telefone ocupado,
linha cruzada,
voz silenciada,
caixa postal lotada,
quota extrapolada,
carta extraviada,
endereço errado,
telegrama atrasado,
jornal não veiculado,
mensagem desviada,
garrafa naufragada,
tambor calado,
livro inacabado,
disco arranhado,
energia cortada,
ferrolho trancado,
ônibus lotado,
voo cancelado,
trem descarrilhado,
pneu esvaziado,
estrada bloqueada,
atalho obstado,
mapa rasgado,
bússola quebrada,
validade expirada,
erro não calculado,
confiança ludibriada,
alma espatifada,
amor terminado,
caso encerrado.
 
quarta-feira, 1 de julho de 2015 12 comentários

Involução do espécime


Você,
que transforma a angústia
em saudável perspicácia e defende tudo
o que compreende em palavras:
       sua condenação virá pela língua,
       na erosão lenta mas indiscutível
       que dimana de cada decepção.

Você,
que consome informações
em crescente desgosto, sem ao menos
ter a percepção de como tempo devora
só os desamparados e se dá a si mesmo
seus próprios mandamentos –
[não sou  -fóbico ou -ista (insira aqui seu prefixo), mas...]:
       atente para o momento em que não fizer sentido
       a natureza das coisas crispadas em seu íntimo.

Não é preciso se apressar, nem jogar fora
a verdade mais persistente:
“amai-vos uns aos outros”,
“somos todos iguais perante a Lei”.
Só se lembre bem de como era a vida antes:
obscurantismo, ignorância, medo
da escuridão como devorador de gentes,
o trovão que era reprimenda dos deuses,
um panteão inteiro a idolatrar em sacrifício.

Diga-me então como você é capaz
de chegar a este ponto, para trancar
as portas da história e não se reconhecer
no seu povo – os outros! – e como
desaprendeu as lições.


sexta-feira, 3 de abril de 2015 16 comentários

Dos encargos


São
impostos,
tributos,
compulsórios,
taxas,
emolumentos,
tarifas,
dízimos,
contribuições,
percentagens,
comissões,
alíquotas,
juros,
multas,
pedágios,
fretes,
portes,
coletas.

E um só salário.
Mínimo.
 
sexta-feira, 24 de outubro de 2014 12 comentários

Desacerto


Declaro para os devidos fins
que estou num daqueles dias
quando o bom do diálogo
é obrigar o outro a calar a boca.
Portanto, fique quieto,
escute com os olhos;
saiba o que os gestos contam.
Não colora o silêncio com gracejos –
algumas coisas são melhores vazias.
Viciaram a roleta e querem
que apostemos o futuro –
o maior prêmio é um orgasmo
e um holerite no final do mês.
Tudo é cilada, não se engane.
Eu tenho comigo essa fragrância da recusa,
esse ódio aos limites, às mentiras deferentes,
à impostura diária, ao tato.
Naquele nível de consciência irrelevante,
senatorial, onde as questões
que o desejo já respondeu são
debatidas e tabuladas até mais tarde,
escolhi o longo caminho do exemplo
ao atalho do conselho.
Seja por inteligência ou por cansaço,
parei de tentar encaixar o redondo no oval.
No entanto, é vão
: toda descoberta se deteriora numa certeza,
e toda ideia numa ideologia.
Já me vendem ali na esquina,
numa barraca de camelô,
o rebelde em pechincha,
dois por R$ 1,99.


domingo, 30 de março de 2014 18 comentários

Expediente


“Eu tenho medo do ótimo e do superlativo.
Quando começa a ficar muito bom,
eu ou desconfio ou dou um passo para trás.”
(Clarice Lispector)

A matemática casual dos afetos
: o pretenso cálculo, o passo em falso.
E de repente, a ternura toma posse
sem aviso, no momento preciso
em que sói acontecer.

Talvez eu não estivera pronto,
na covardia que sempre me envolvera,
pusilânime homem de palha.
Porventura eu desistira
por ser demasiadamente irresoluto,
desprezível em minha timidez.

O inusitado de nosso encontro
fora por demais insólito e eu,
ímbele e perplexo, nunca soube
como me portar na conflagração do amor.

Desertei do sentimento, não sem antes
bater-me com suas missivas, que reli
um sem número de vezes antes de
ser tomado por esse desejo incendiário,
fagulha que incinerou todas as linhas e envelopes.

Nunca lhe respondi,
frases se acumularam na posta restante,
sem saber que não se guardam palavras.
Quando poupadas, decompõem-se
na própria usura e hoje pergunto:
como posso desqueimar suas cartas?

 
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