Você, que transforma a angústia em saudável perspicácia e defende tudo o que compreende em palavras: sua condenação virá pela língua, na erosão lenta, mas indiscutível que dimana de cada decepção.
Você, que consome informações em crescente desgosto, sem ao menos ter a percepção de como tempo devora só os desamparados e se dá a si mesmo seus próprios mandamentos – [não sou -fóbico ou -ista
(insira aqui seu prefixo), mas...]: atente para o momento em que não fizer sentido a natureza das coisas crispadas em seu íntimo.
Não é preciso se apressar, nem jogar fora a verdade mais persistente: “amai-vos uns aos outros”, “somos todos iguais perante a Lei”. Só se lembre bem de como era a vida antes: obscurantismo, ignorância, medo da escuridão como devorador de gentes, o trovão que era reprimenda dos deuses, um panteão inteiro a idolatrar em sacrifício.
Diga-me então como você é capaz de chegar a este ponto, para trancar as portas da história e não se reconhecer no seu povo – os outros! – e como desaprendeu as lições.
Lembranças se propagam como fungos e penetram fundo nos ossos da saudade: o menino em mim recorda de quando era simples separar o bem da maldade – a maioria seguia com suas vidas, sem fermentar tanta perversidade.
Contudo, talvez não fosse mesmo assim. Talvez fosse tão somente ingenuidade. Provavelmente a antipatia era ampla e se disfarçasse a hostilidade.
Só sei que está sendo difícil
esperar o melhor dos outros: muitos berram sua raiva da alteridade e se fecham em ficções egoístas, descomprometidos com o que é de verdade.
A gente vai aceitando as coisas, todo dia, até que se concretizam em couro de provérbio: de estória ou fanfarrice à razão absoluta. Sedimento repetidas vezes assentado, lia, e ainda assim, ecoamos convictos: contra a praxe não há disputa. Ofendemo-nos com as verdades da minoria que fustiga o instável alicerce de nossas fés e prosseguimos nessa pirraça resoluta. Até que chega o momento, todavia, quando a vida (a morte?) pulveriza tudo e só nos resta continuar na labuta.
O entusiasmo é uma silhueta momentânea: a dança faminta das notícias logo me paralisa. A esperança envenenada pela instabilidade [das coisas depressa se torna fel, desamparo, ojeriza.
O vizinho sabe nada além do que se sucede em conflito. Disposto e armado da retórica mais vil, quer catequizar todos no grito. Estratégia de marketing ou gafe, repete chavões reacionários, antes vomitados por seu mito. Chauvinista e fanfarrão, cospe imposturas preconceituosas quase tendo um faniquito.
O vizinho vocifera disparates como se, para respirar, isso fosse requisito. Abrutalhado em sua mediocridade, renega tudo o que não entende: ciência, para ele, é delito. Apóstolo do obscurantismo, brada que sua opinião vale tanto quanto todo livro escrito. Cúmplice de impiedades, vilipendia sua companheira, (esse seu esporte favorito).
O vizinho, talvez, também, seja alguém que more aí perto, em seu distrito.
Afinal, quem hoje não conhece alguém assim descrito?
Você, que transforma a angústia em saudável perspicácia e defende tudo o que compreende em palavras: sua condenação virá pela língua, na erosão lenta mas indiscutível que dimana de cada decepção.
Você, que consome informações em crescente desgosto, sem ao menos ter a percepção de como tempo devora só os desamparados e se dá a si mesmo seus próprios mandamentos – [não sou -fóbico ou -ista (insira aqui seu prefixo), mas...]: atente para o momento em que não fizer sentido a natureza das coisas crispadas em seu íntimo.
Não é preciso se apressar, nem jogar fora a verdade mais persistente: “amai-vos uns aos outros”, “somos todos iguais perante a Lei”. Só se lembre bem de como era a vida antes: obscurantismo, ignorância, medo da escuridão como devorador de gentes, o trovão que era reprimenda dos deuses, um panteão inteiro a idolatrar em sacrifício.
Diga-me então como você é capaz de chegar a este ponto, para trancar as portas da história e não se reconhecer no seu povo – os outros! – e como desaprendeu as lições.
Declaro para os devidos fins que estou num daqueles dias quando o bom do diálogo é obrigar o outro a calar a boca. Portanto, fique quieto, escute com os olhos; saiba o que os gestos contam. Não colora o silêncio com gracejos – algumas coisas são melhores vazias. Viciaram a roleta e querem que apostemos o futuro – o maior prêmio é um orgasmo e um holerite no final do mês. Tudo é cilada, não se engane. Eu tenho comigo essa fragrância da recusa, esse ódio aos limites, às mentiras deferentes, à impostura diária, ao tato. Naquele nível de consciência irrelevante, senatorial, onde as questões que o desejo já respondeu são debatidas e tabuladas até mais tarde, escolhi o longo caminho do exemplo ao atalho do conselho. Seja por inteligência ou por cansaço, parei de tentar encaixar o redondo no oval. No entanto, é vão : toda descoberta se deteriora numa certeza, e toda ideia numa ideologia. Já me vendem ali na esquina, numa barraca de camelô, o rebelde em pechincha, dois por R$ 1,99.
“Eu tenho medo do ótimo e do superlativo.
Quando começa a ficar muito bom,
eu ou desconfio ou dou um passo para trás.”
(Clarice Lispector)
A matemática casual dos afetos : o pretenso cálculo, o passo em falso. E de repente, a ternura toma posse sem aviso, no momento preciso em que sói acontecer.
Talvez eu não estivera pronto, na covardia que sempre me envolvera, pusilânime homem de palha. Porventura eu desistira por ser demasiadamente irresoluto, desprezível em minha timidez.
O inusitado de nosso encontro fora por demais insólito e eu, ímbele e perplexo, nunca soube como me portar na conflagração do amor.
Desertei do sentimento, não sem antes bater-me com suas missivas, que reli um sem número de vezes antes de ser tomado por esse desejo incendiário, fagulha que incinerou todas as linhas e envelopes.
Nunca lhe respondi, frases se acumularam na posta restante, sem saber que não se guardam palavras. Quando poupadas, decompõem-se na própria usura e hoje pergunto: como posso desqueimar suas cartas?
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