domingo, 29 de março de 2026 12 comentários

Prestidigitação


As palavras não se comportam, 
desproporcionam a vontade de escrever,
atormentam a inspiração.
Nada mais natural que se desprendam de mim,
como casca de árvore, como suor,
como pele de áspide. No entanto,
coisa nenhuma se expressa, elas continuam aqui,
recolhidas nesse interstício,
presas no atrito da imprecisão.
E qual o motivo, meu Deus?
Afora as óbvias,
justificativas assim precisas não há.
A autocrítica intransigente,
certa desambição de se fazer lido,
a persistente sensação de que nem
se é tão imperioso colocar minha alma no papel.
Novo tentame. Fixo-me na música das esferas,
conto meu fôlego daqui ao Zen,
busco resignação nos confins da sofreguidão.
Como um regente vacilante, ergo minha batuta
contra a fúria dos constrangimentos da eloquência
: minha escrita torna-se o contraveneno
da mordida do embotamento,
truque de dedos,
bruxedo de vocábulos.



 
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