quinta-feira, 17 de janeiro de 2013 14 comentários

Joias litorâneas


Nas praias vivem os arautos do tesouro
: meninos descalços, sem camisa, sem escola,
deuses da beira-mar.
No açoite das ondas nos rochedos,
a oblação do oceano
: estrelas-do-mar, caurins, conchas –
inteiras, infractas, resplandecentes.
 

A possibilidade polida               em turquesas marítimas,                                                           esmeraldas oceânicas,                                                           safiras pelágicas,                                                           variegadas gemas mágicas.

Transubstanciação, sortilégio antigo,

na solidão dos promontórios
eles fazem do que encontram
artesanato, colares e pulseiras.
Abrolham repentinos,
como se surgidos da própria viração.
No comércio convicto de seu engenho,
não regateiam talento, mas o preço,
durando apenas o enquanto
do negócio para, logo em seguida,
deixar apenas rastros difusos
a serem comidos pela próxima vaga faminta.


domingo, 13 de janeiro de 2013 14 comentários

45º à sombra do Equador


Houve uma vez um verão.
Há desta vez um verão.
Haverá outra vez um verão?


Pelo sim, pelo não,
quero sorver o calor
até a última gota.

(Um dos meus primeiros poemas, escrito ainda quando eu era  - bem! - adolescente. 
Sobreviveu às inúmeras tentativas de desprezá-lo de vez; agora, sem retorno).

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013 18 comentários

Lume


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012 12 comentários

Clandestino


Eis
que esse no álbum de retratos
nem parece
ser eu.
Não é
meu rosto, eu
que me vejo
todos os dias
no espelho pela manhã.
É um semelhante,
sósia,
parente.
É mais
flexível e mais elástico,
mais dúctil enfim,
do que eu.

Não é
minha fisionomia, insisto,
mas bem que poderia ser
um mapa de como cheguei aqui.

Quando mudei de uma
e comecei a habitar outra?
Será que mudei por inteiro
durante o sono
ou fui levado em baldeações,
pedaço por pedaço,
nas abrasões regulares do chuveiro solar
(respiro e o tempo abre suas torneiras)?

Não me reconheço
neste espalhamento de estradas
que não podem ser retomadas,
canais que se abriram
na tectônica geologia da pele.

Poderia ser brando e dizer
que virei flor de figo,
que floresci por dentro.
O resto é subterrâneo,
reminiscência que acorda a cada dezembro,
folia de criança
que se busca
num pique esconde de fotogramas,
encontrando
um homem diferente
em cada um deles,

naqueles semblantes.

 
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