A franqueza da lua cheia
não entusiasma nem o céu,
nem a mim.
Quão vazio é o som
da minha chave
girando na fechadura.
Minhas palavras tombam sobre si mesmas
a fim de alcançar você, aglomerando-se
na cancela da minha boca
em azáfama corriqueira, como corpos
comprimidos numa saída de incêndio,
soado o alarme.
Minha cabeça é uma pensão superlotada,
decrépita e condenada.
As palavras não chegarão a você;
as portas de saída estão trancadas pela autocrítica.
Vez em quando nos hospedamos uns nos outros,
serendipidade transitória prometida em olhos [ alheios,
a urgência da busca numa terça-feira de março,
ano que só começa agora, mas com dias já tão feios,
agenda cheia – senhor! – tantos compromissos,
e notícias que só dizem de ziquiziras e tiroteios.
O que significa? O que permanece?
O acaso fugaz de olhares trocados, a crosta do afeto,
a palavra onde levantamos abrigo
e essa recusa atrevida de não ser só
objeto.
No espelho,
as coisas que tu vês em mim as coisas que vejo em ti
dizem mais de ti dizem mais de mim
do que de mim. do que de ti.
Que imagem é vista?
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