sábado, 23 de junho de 2012 14 comentários


Antes que nossas soluções na manga 
percam seu efeito; antes
que o afago desabe num capricho passageiro; 
antes que a circunstância 
desaconteça e nos arraste 
às nossas beiras e parapeitos; antes 
que a meia-voz se torne alarido
de trombetas em bemóis dramáticos
anunciando algo que não chega; antes
que um pretexto fortuito
desmantele e apague as palavras –
sejamos.

Dum vivimus, vivamus.

quarta-feira, 13 de junho de 2012 14 comentários

Simulacro


Esses que exigem 
            consideração 
pelas suas renúncias estavam 
fazendo 
            investimentos
: não era 
           desprendimento.

quinta-feira, 7 de junho de 2012 16 comentários

Estratagema


Quando um jato voa
baixo sobre nós,
na cristaleira todos
os vidros cantam.

Sentimentos são
igualmente assim:
um coral, não um solo;
misturados, nunca puros.

O sentimentalista pode
querer negar a tristeza
ou o enfado em sua felicidade,
ou a liberdade que ilumina
até mesmo a pior perda.

O moralista resistirá
à mais vaga conivência.

O sofisticado,
receando ser tachado de ingênuo,
bradará aos quatro ventos
sobre os resquícios da fatuidade
ou da volúpia em qualquer motivo,
como se eles fossem o todo.

Cada um está se vendendo
simplicidade; todos se enfraquecendo
em seu medo da fragilidade.


terça-feira, 29 de maio de 2012 18 comentários

Quiçá a crisálida de um outro encontro


Você sempre me encontra assim,
em noites eternas posto que impermanentes,
o único e absoluto tempo de viver.
Seu olhar é estradeiro, a saudade alada
e o coração, vagabundo.
Nem ouso perguntar
por onde tem andado,
você não diria.
Eu me desassossego,
queria ser ubíquo
em todos os seus atos
para não precisar
de tradução de seus gestos.
Sua versão é imperfeita,
menos vívida que legítima.
Há um abuso de entrelinhas,
frangalhos de memórias,
dejetos de enredos
que se extraviaram.
Suas frases,
atordoadas em lacunas,
contam do ruminante cotidiano.
Não sei se tomo
o valor nominal do que diz
como a real cotação das palavras.
Você me diz que está perdida.
Mas tantas vezes a gente se perdeu,
simplesmente porque tentamos
encontrar significado onde não havia.
Você insiste. Aponta para mim
como seu porto seguro,
mas diz que o mapa do retorno se consumiu,
a rosa dos rumos ensandecida.
Outros pretextos com que finjo concordar,
já que não me movo,
tenho estado aqui por eras.
Porém sei do seu apreço
pelo gosto de voltar
: sou todo familiaridade.

Fio de Teseu no labirinto.
Prendendo você justamente
por lhe dar toda a liberdade.


 
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