Pelo inferno e o céu de todo dia,
eu conservo somente um desejo:
transformar o tédio em poesia.
Que seja do que em mim silencia,
ou do que sinto, mas que não vejo –
o essencial é que haja a lexia.
(Se, tal como uma sala vazia,
a página frustrar-me o que almejo,
que, ao menos, não se faça a atonia).
Gostaria de me raptar
não sei como
dessa aflição
de dezembro, desse
céu à régua,
ilhando tristes,
dessa euforia
desgovernada, desse
estrangulamento;
o rufar de tambores
num crescendo,
que só faz
contar
regressivamente
os dias para
o próximo
calendário.
Não é porque não
estou sendo
lido que eu não
deva ser escrito.
O tempo tem câimbras.
A noite se acomoda
como um corpo num banho,
exalando nuvens e luzes de carro
- tossindo pássaros.
A escuridão, como um abraço,
senta-se comigo e preenche o quarto
com esse estranho cio de silêncios,
onde as coisas são perdidas:
tardes de feriado,
o som de um velho vinil,
fotos desbotadas,
amigos de infância.
A lembrança se esfiapa em todas as direções,
como se eu estivesse guardando o mar
em alguidares de areia.
Tudo é líquido
e sem margens.
E o que a memória traz é um destilado:
construto de espelho e sombra,
um antilume íntimo
eclipsando esse momento sem nome.
Sou causa deste efeito,
tropegamente humano.
À hora em que não há socorro,
quem não consegue arcar
com o quotidiano ríspido
há que se asilar
no passado impregnado na pele.
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