Aperte 1 para a impaciência com o menosprezo dos atendentes de todos os serviços telefônicos, sua falta de preparo ao lidar com pessoas, sua ineficiência cava, ensinada e repetida, como se isso fosse um trato profissional requerido.
Aperte 2, 3, para a renúncia do seu tempo, que se esvanece em sinfonias inanes de saxofone, música de elevador, transformando tudo num ruído oco, sem sentido, até você perder o propósito: para quem estou ligando mesmo?
Aperte 4, 5, 6 para insatisfação garantida, de ficar perdido diante de tantas opções de discagem, como defronte a um menu indigesto, cuja comida nunca mata a sua fome, cujo sabor só promete a náusea vindoura.
Aperte 7, 8, 9 para a vontade de esganar o atendente, o supervisor, o chefe de operações, todos assentados no sarcasmo, podendo fazer algo, mas – ainda assim – presos no conluio de postergar e até mal usar o idioma, num gerundismo canhestro:
Gostaria de me raptar não sei como dessa aflição de dezembro, desse céu à régua, ilhando tristes, dessa euforia desgovernada, desse estrangulamento; o rufar de tambores num crescendo, que só faz contar regressivamente os dias para o próximo calendário.