na fluência do tráfego,
bem na hora do rush.
Lancei meu sorriso aos pombos,
numa dessas tardes de domingo.
Dissolvi oração e silêncio
nos braços constelados de carências.
Crivei o olhar de canções tristes
e me alastrei sobre nostalgia.
Mas não se engane comigo,
rasgo o invólucro. Deslindo-me:
é só a minha punção de mártir
em busca de um outro
passatempo para o corpo.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Identidade,
Impermanência,
Inquietude
16
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Da estratégia da fênix
Escrito por
Fabrício César Franco
Guerrilha de informação,
reduzindo a comatosos
todos os fãs de telejornais.
O replay configura
um diverso balé:
o corpo que cai,
cem vezes
alvejado pela metralhadora,
é mil vezes
perscrutado pela câmera.
Guerra de slogans,
grafitos em chamas,
mensagens não percebidas.
A razão em linha de fuga.
O show da vida,
a vida em show.
Dissolvendo as antenas
parabólicas da certeza.
Invadindo a cabeça
complacente do rebanho.
Mas querer ter muita convicção
não leva a muita coisa:
a angústia sem soluções
é o leitmotiv da década.
(Meu primeiro poema "publicado", Revista do Corpo Discente da UFMG, há 37 anos).
Escrito por
Fabrício César Franco
quarta-feira, 1 de abril de 2026
Elucubração,
Impermanência,
Inquietude
10
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Itinerários de Sísifo
Conforme nos rendemos
às estrições desse tempo,
às agendas atulhadas
de coisas por fazer,
aos canhotos dos cheques
marcando
impiedosamente
os valores devidos
ao próximo mês,
tornamo-nos um
borrão indistinto
(desatino dos astrolábios)
na ginástica dadaísta das ruas,
onde somos tão só
a roda de um
invisível moinho de galés.
Escrito por
Fabrício César Franco
As palavras não se comportam,
desproporcionam a vontade de escrever,
atormentam a inspiração.
Nada mais natural que se desprendam de mim,
como casca de árvore, como suor,
como pele de áspide. No entanto,
coisa nenhuma se expressa, elas continuam aqui,
recolhidas nesse interstício,
presas no atrito da imprecisão.
E qual o motivo, meu Deus?
Afora as óbvias,
justificativas assim precisas não há.
A autocrítica intransigente,
certa desambição de se fazer lido,
a persistente sensação de que nem
se é tão imperioso colocar minha alma no papel.
Novo tentame. Fixo-me na música das esferas,
conto meu fôlego daqui ao Zen,
busco resignação nos confins da sofreguidão.
Como um regente vacilante, ergo minha batuta
contra a fúria dos constrangimentos da eloquência
: minha escrita torna-se o contraveneno
da mordida do embotamento,
truque de dedos,
bruxedo de vocábulos.
image: Embraced by words
Escrito por
Fabrício César Franco
Sua voz imerge em mim
no seu escafandro de som,
mergulhando
para além
de meus arrecifes
à tona,
das minhas marés revoltas.
Rumor
na arrebentação da onda,
sua voz
é preamar
vociferando
nos calcanhares da praia,
umedecendo de vagas fartas
o atol da orelha.
Sua voz é Jonas
e faz
dos meus ouvidos
sua baleia.
Escrito por
Fabrício César Franco
Sigo um certo rastro de vida
que não me leva a lugar algum.
Aceito relações feitas de acaso
e circunstâncias: onde
acontece estar meu corpo.
Na verdade,
vivo para buscar
a parte rebelde de mim,
que descansa no sem fôlego
de uma noite sozinha,
vazia,
amarga de insônia.
“O meu ofício é ter alma”.
Mas ainda me desconheço:
entre o que sou e eu
existe um hiato,
virgem como uma dançarina
sem coreografia.
Escrito por
Fabrício César Franco
O relacionamento não é
um abrigo ou mesmo um teto.
É antes disso, e mais áspero.
Artificial como fronteiras
cartográficas, o ermo
onde o outro não é remédio
para a solidão,
nem a privacidade é mais
garantia de sossego.
É onde tropeçamos no escuro,
noite após noite após noite,
esperando por uma clareza
de propósito.
Dolorosamente
ineficientes
ao lidar com nossos
mútuos assombros,
é difícil
acreditar que chegamos
até aqui:
imiscíveis.
Escrito por
Fabrício César Franco
)
Às margens do São Francisco, vinte e cinco anos depois
(
A surpresa, o engasgo do instante.
Eu simplesmente não estava preparado
para tanto azul, assim tão caudaloso,
nem para a majestade de tanta água.
Meus ribeirões sempre foram cheios de lodo,
estanques e sóbrios,
nauseabundos pelo esgotamento
paulatino e axiomático.
E agora, esse rio prestes nos olhos
vem me percorrer com uma força zen
tornada manifesta, um deleite
de dilatar as pupilas.
Agosto estua e tudo
imprime enredos na torrente
: conluio de fluxos que me fizeram
desaguar no desenfado destas margens.
Escrito por
Fabrício César Franco
O turvo e tão tangível
tentáculo de sua nicotina
correndo hostil contra minha narina,
os lençóis embrulhando sua cintura e seios,
seu cabelo em desalinho.
Você avançou sobre meus vinte e poucos anos
como se não houvesse nenhum outro lugar
para procurar o que você buscava.
Agora, na volta de todas as coisas,
bumerangue kismet,
você inscreve linhas momentâneas
na linguagem do meu desejo,
como se nunca houvesse partido.
Já sou outro,
você é quase uma incógnita.
Não há nada aqui que nos lembre quem fomos.
Estamos na contravenção dos fatos
: você, abandonada à sorte
de um relacionamento fracassado;
eu, consolidando posições em outro peito.
Eu, que selei promessa
na infância contra o cigarro;
e você se esfumando em tabaco.
Você querendo reviver
um tempo que não tivemos;
eu, tão somente retendo
o tátil do momento que não
pude ter dez anos antes.
Nesse rufo de tambores,
o impronunciado é a desforra
contra o que não vivemos
e nossos corpos nus,
um plagiato de paixão.
Foi só sexo.
E, contudo, foi mais.
Eu que já fui um
cavaleiro em busca do Graal
agora sou apenas
uma casca de armadura,
com um simulacro de incumbência
a me ditar os dias.
Você me deu a alforria
que eu não precisava.
Eu lhe dei um prazer transitório.
Essa história já deveria
ter sido contada em outras épocas,
ainda no tempo em que somente
minha língua havia em sua vulva.
A saliva secou há muito.
Ficou só a lia,
cicatriz amarga como fel.
Escrito por
Fabrício César Franco
Palavras em surdina,
sem nenhuma intenção
de abandonar os espaços
em branco.
Arrasto comigo um texto
em busca de letras exatas
para ser urdido,
que me respire e me arrebate
no seu fôlego,
que me recorte
nos parágrafos do dia.
Este repertório de conversação:
verbo,
lema,
linguagem,
cairel da língua,
palimpsestos
— nada me serve.
A logorréia da intranquilidade
avança sobre meus sigilos,
finca bandeiras,
desbrava. Chego atrasado
ao que quero falar.
Como uma árvore bonsai,
minha palavra é podada.
E silencia o escrito,
até dizer.
(Quando criança, eu repetia uma palavra
intermináveis vezes para mim mesmo,
até que seu sentido se perdesse com calma,
deixando exclusivamente a crosta de um som cavo.
Tente: muito é ótimo).
Escrito por
Fabrício César Franco
domingo, 6 de abril de 2025
Elucubração,
Logomaquia,
Melancolia,
Quimera
12
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De um amor sem piedade
O amor está morto.
E quem escreve poemas,
nesse tempo de
átimos e átomos,
está disparando no vazio.
Mas
o verbo amar,
cruel,
acossa-nos
por onde quer que vamos.
Escrito por
Fabrício César Franco
Fui hipnotizado pelas ondas
de um olhar
implacavelmente azul.
E na força das águas,
aportei
onde os olhos sabem suas lágrimas:
enseadas lentas,
praias desertas e cais
abandonados
em noites de recuerdos ao luar.
Súbito,
ventou um silêncio de brisa
e sem demora
: águas passadas,
sem ressaca.
Escrito por
Fabrício César Franco
domingo, 2 de fevereiro de 2025
Cacofonia,
Inquietude,
Ultraje
12
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Atendimento telefônico
Aperte 1 para a impaciência com o menosprezo
dos atendentes de todos os serviços telefônicos,
sua falta de preparo ao lidar com pessoas,
sua ineficiência cava, ensinada e repetida,
como se isso fosse um trato profissional requerido.
Aperte 2, 3, para a renúncia do seu tempo,
que se esvanece em sinfonias inanes de saxofone,
música de elevador, transformando tudo num ruído
oco, sem sentido, até você perder o propósito:
para quem estou ligando mesmo?
Aperte 4, 5, 6 para insatisfação garantida,
de ficar perdido diante de tantas opções de discagem,
como defronte a um menu indigesto,
cuja comida nunca mata a sua fome,
cujo sabor só promete a náusea vindoura.
Aperte 7, 8, 9 para a vontade de esganar
o atendente, o supervisor, o chefe de operações,
todos assentados no sarcasmo, podendo fazer algo,
mas – ainda assim – presos no conluio de postergar
e até mal usar o idioma, num gerundismo canhestro:
“amanhã estaremos mandando o técnico à sua casa”.
Escrito por
Fabrício César Franco
Pelo inferno e o céu de todo dia,
eu conservo somente um desejo:
transformar o tédio em poesia.
Que seja do que em mim silencia,
ou do que sinto, mas que não vejo –
o essencial é que haja a lexia.
(Se, tal como uma sala vazia,
a página frustrar-me o que almejo,
que, ao menos, não se faça a atonia).
Escrito por
Fabrício César Franco
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