A noite acontece
como se cada cigarra
destilasse de si
quase um céu
ao cantar. A noite
é um tanto além
deste quarto crescente,
olho semicerrado
contra um frágil negrume,
índigo escorregando
para o desabrido fulgor
das luzes da cidade.
Ubíquo paparazzo
– súbita razão da lente atenta,
espreitando delícias e agruras –
a noite retrata cada gesto
e gesta uma dissímil pantomima
que transige à lassidão
: rumamos todos
para a mesma subversão
de contornos definidos,
a argamassa fundamental
do sono unânime.
Ou nem tanto.
Uns raros profanamos
a noite duelando
com nossos demônios intestinos,
enquanto Eco e Pessoa se riem do intuito
: a lua mínima
ardendo na face do papel
é inclemente e não aceita qualquer um.
À risca ígnea da garra de outro amanhecer,
o que remanesce é a garantia
de mais lide sobre o texto,
outra noite desperta.
A franqueza da lua cheia
não entusiasma nem o céu,
nem a mim.
Quão vazio é o som
da minha chave
girando na fechadura.
Minhas palavras tombam sobre si mesmas
a fim de alcançar você, aglomerando-se
na cancela da minha boca
em azáfama corriqueira, como corpos
comprimidos numa saída de incêndio,
soado o alarme.
Minha cabeça é uma pensão superlotada,
decrépita e condenada.
As palavras não chegarão a você;
as portas de saída estão trancadas pela autocrítica.
Vez em quando nos hospedamos uns nos outros,
serendipidade transitória prometida em olhos [ alheios,
a urgência da busca numa terça-feira de março,
ano que só começa agora, mas com dias já tão feios,
agenda cheia – senhor! – tantos compromissos,
e notícias que só dizem de ziquiziras e tiroteios.
O que significa? O que permanece?
O acaso fugaz de olhares trocados, a crosta do afeto,
a palavra onde levantamos abrigo
e essa recusa atrevida de não ser só
objeto.
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