domingo, 30 de agosto de 2020 2 comentários

Este lado do paraíso


Não o beijo,
mas o calor dos seus lábios em minha pele.
Não o físsil de suas pernas,
mas o compromisso de mais estros arraigados.
Não a cópula,
só o cio que vaga lasso pelo corpo.
Cintila na íris o flerte,
dança de subentendidos.
No duelo com o desejo,
saco antes da dúvida:
com a língua em riste,
mergulho minhas papilas
numa galeria de obscurantismo
e viscidez, provo do sabor da fruta
à véspera do próprio açúcar.

De tal modo amo,
que faço o próprio Eros
abrir com faca
o esplendor de outra manhã.

sábado, 15 de agosto de 2020 4 comentários

Flavescente


Caprichosamente,
o elenco da tarde
polvilha de mínimos sons
um trinado, um sopro,
um rumor ao longe

céus fartos de amarelo
quase pálido e embaçado
daqueles que só se veem
em obras gastas e por pouco
totalmente preteridas em baús

esmorecendo
vagarosamente
o fluxo dos minutos até
a teia de aranha
cessar de se agitar
e, tanto o inseto condenado
e eu nos darmos como aceito
que nada há mais o que fazer.

quinta-feira, 30 de julho de 2020 4 comentários

Respiração


A ciência me ensina que o ar que respiro
são partículas ínfimas do cosmos
e, que tanto aqui, como em toda parte,
é tudo da mesma feitura e arte.
 

Colijo o universo no meu fôlego.

Não bastasse, a cada aniversário,
sou quase completamente diverso:
composto, permutado e reescrito
em diferentes estilhaços do infinito.

Reparto o universo no meu fôlego.

       Se cada coisa passa por mim,
       portanto estou em todo quê:

       imagino meus devaneios infantis
       hoje compondo o asfalto da estrada,

       meus desalentos adolescentes
       transfigurados numa tela pintada,

       e aquela intenção andarilha
       finalmente chegando onde era esperada.


domingo, 19 de julho de 2020 0 comentários

À face da letra


Apenas metade
do que escrevo é
o que quero dizer.

(A outra é
impedir as pessoas
de ler o que esperam 
que eu queira dizer).

 
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