sexta-feira, 14 de março de 2014 14 comentários

Poética


As falácias do poema
sob o laço da palavra.

Os cimélios da palavra
sob a seda do poema.

As delícias do poema
sob o foro da palavra.

Os negócios da palavra
sob a luta do poema.

As penúrias do poema
sob o jugo da palavra.



sábado, 22 de fevereiro de 2014 10 comentários

Ampulheta

)
Esperando Godot?
(

O tempo se desdobrando
feito um origami às avessas,
num esforço de se fazer
tabula rasa gotejando pelo colo
de uma clepsidra, enquanto
o coração lateja paralelo
às batidas do relógio, deixando
tudo o mais como que contaminado
por analgésicos, sob o extenuante
desânimo do sábado à tarde,
(desincomodado) com o sol
a queimar os móveis da sala de estar.


domingo, 9 de fevereiro de 2014 14 comentários

Concerto inacabado


Para Polly:
sobretudo, amiga.

Nunca escutei uma música plena
em seu piano. Seus dedos nunca
completaram, sem erro, uma melodia.

O máximo que escutei,
quase inteira (sempre um quase), 

foi quando ainda
você morava longe
de mim, sozinha,
e eu me encantei
pelos seus talentos
tantos outros.

Você se mudou
para dentro aqui
e o piano também veio.

Mas ele nunca soou nada todo;
sempre os erros,
reputados à falta de prática.

Também nós dois,
agora, na hora da partida:

aquém de um dueto,
além de qualquer conserto.

Faltou-nos prática em conviver?


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014 12 comentários

Sal

                                                                                                O amor é um poço à nordeste,
                                                                                                e a sede é sem mapa.

Você abre a porta, e há
uma pausa desajeitada:
entre as batidas do coração
e a cadência do relógio,
a convergência de ímpetos e trajetos
nesse quarto, nesse dia, nessa vida.

No alvoroço quiescente
que antecede o som da sua voz,
seus olhos em mim,
um sorriso em todo corpo.

Naquele momento entre as palavras,
enquanto a antecipação flameja pelas veias,
é a soma disso tudo
que seca minha garganta.

 
 
;