sábado, 3 de outubro de 2015 12 comentários

Vinte e quatro quadros por segundo


Ruínas de um dia. Todas as alternativas
 do apartamento já gastas de tanto uso:
...você que não telefona. E eu plantado
em esperas. Com uma angústia azedando 
nos olhos. Com um coração extraviado, 
Tordesilhas do outro lado da cidade. 
O motor, o pneu, o trânsito? Uma 
pluralidade de desculpas tripula sua 
ausência. Por que você não me liga?

sexta-feira, 4 de setembro de 2015 16 comentários

Ossos do ofício (ou o porquê de escrever)


Não há indicações de frases 
em lugar algum,
nenhuma senha, 

nenhuma passagem
a outros lugares onde 

a linguagem se faz
presente. Contudo 

sou simplesmente
uma pessoa 

matizada de palavras. 
Tudo há
de ser possível no escrito. 

E as palavras carecem
de ser despertas de seu sono de dicionários.



sábado, 1 de agosto de 2015 14 comentários

Da ordem do imprevisível


Trilha sonora ao fundo: 
                                      
                                      a cadência dissilábica do coração, 

um abuso de entrelinhas. 
                                      
                                      O monjolo dentro do peito, 

minha taquicardia, 
                                      
                                      não quer dizer nada? 

Aqui, 
                                      
                                      dentro do lado de fora, 

entregue à asfixia, 
                                      
                                      a relação é outro idioma.

quarta-feira, 1 de julho de 2015 12 comentários

Involução do espécime


Você,
que transforma a angústia
em saudável perspicácia e defende tudo
o que compreende em palavras:
       sua condenação virá pela língua,
       na erosão lenta mas indiscutível
       que dimana de cada decepção.

Você,
que consome informações
em crescente desgosto, sem ao menos
ter a percepção de como tempo devora
só os desamparados e se dá a si mesmo
seus próprios mandamentos –
[não sou  -fóbico ou -ista (insira aqui seu prefixo), mas...]:
       atente para o momento em que não fizer sentido
       a natureza das coisas crispadas em seu íntimo.

Não é preciso se apressar, nem jogar fora
a verdade mais persistente:
“amai-vos uns aos outros”,
“somos todos iguais perante a Lei”.
Só se lembre bem de como era a vida antes:
obscurantismo, ignorância, medo
da escuridão como devorador de gentes,
o trovão que era reprimenda dos deuses,
um panteão inteiro a idolatrar em sacrifício.

Diga-me então como você é capaz
de chegar a este ponto, para trancar
as portas da história e não se reconhecer
no seu povo – os outros! – e como
desaprendeu as lições.


 
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