domingo, 22 de setembro de 2019 2 comentários

Oblívio


A tristeza vai nos sendo 
talhada no seio da noite:
um sentimento fluido e denso 
que se alastra, minuto a minuto.

A escuridão, de encontro 
às vidraças embaçadas, é 
pontuada pelos esqueletos suspensos
das constelações de Virgem, Leão e Gêmeos.


A Lua transborda de saturação
na miríada de poças que meneiam
sem pressa pelo asfalto molhado.

Nos delgados obeliscos de vidro e aço, 
brotando do solo como uma enfermidade de pele 
rumo ao céu escuro, as poucas luzes acesas parecem 
escarnecer do mundo tantos andares abaixo.
As igrejas, com seus santos esculpidos
(como se a sustentar nos ombros
o peso da falta de fé dos transeuntes),
não oferecem refúgio aos seus parcos fiéis.

A luminosidade achacadiça 
de um neon semiapagado 
planta-me sombras pelo corpo, 
como vestes exageradas. 

E nisso sou mais um
pelas artérias desse coração combalido
a que chamam de metrópole.



) Poema escrito há 32 anos, 
ainda em meus tempos de faculdade de Comunicação Social, 
eu recém-chegado à capital mineira. (

domingo, 18 de agosto de 2019 2 comentários

Análogas



)
Para Indi,
admirável em qualquer idade
(

A menina agrilhoada
na mulher despontada:
eis a luta travada.
A menina é arteira, sagaz,
dribla a mulher sem deixar-se tocar.
Mas a mulher é astuta,
troça da menina,
deixa pensar que se engana.
A menina apronta. A mulher se revela.
Peleja em vão, luta desconexa, sem fáceis triunfos.
Mulher, menina, ambas a mesma...
Subversivas? Desejantes!



segunda-feira, 22 de julho de 2019 2 comentários

Cerco



Pervicacíssimo,
seu perfume
ao derredor.
Confinamento,
que é só fuga
por todos

os lados.


quarta-feira, 26 de junho de 2019 0 comentários

Turno da noite


A noite acontece
como se cada cigarra
destilasse de si
quase um céu
ao cantar. A noite
é um tanto além
deste quarto crescente,
olho semicerrado
contra um frágil negrume,
índigo escorregando
para o desabrido fulgor
das luzes da cidade.
Ubíquo paparazzo
– súbita razão da lente atenta,
espreitando delícias e agruras –
a noite retrata cada gesto
e gesta uma dissímil pantomima
que transige à lassidão
: rumamos todos
para a mesma subversão
de contornos definidos,
a argamassa fundamental
do sono unânime.
Ou nem tanto.
Uns raros profanamos
a noite duelando
com nossos demônios intestinos,
enquanto Eco e Pessoa se riem do intuito
: a lua mínima
ardendo na face do papel
é inclemente e não aceita qualquer um.
À risca ígnea da garra de outro amanhecer,
o que remanesce é a garantia
de mais lide sobre o texto,
outra noite desperta.

 
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