quarta-feira, 3 de janeiro de 2024 0 comentários

Restante



A cúpula do céu,
repartida em poças,
após a chuva.


sexta-feira, 15 de dezembro de 2023 0 comentários

Totem


Sou o vento que respira
sobre a melancolia do mar;
sou o abutre nas rochas,
rendido aos evangelhos do equilíbrio;
sou um golfinho e mergulho
nas profundezas da minha alma;
sou um desenho numa árvore,
sem compromissos além
da minha própria forma;
sou uma gota de óleo na água,
condenada a permanecer inabsorvida;
sou o esplendor do silêncio,
que é mais do que a palavra;
sou a imitação da rosa,
pendida na angústia da felicidade
de um buquê de noiva;
sou a cimitarra do quarto crescente,
ceifando este fiapo de noite;
sou tudo o que eu nunca lhe disse
dentro dessas margens.

domingo, 5 de novembro de 2023 0 comentários

Mônada


Caminho em espirais
        rumo a lugar algum.
                Tenho meus compromissos

moldados na lentidão,
        sem os velhos embustes
                que me venham por ajuda.

Tenho essas reticências
        que se alastram.
                Eu aguardo.

Mas o que é essa vigília,
        se no final das contas
                o que almejo é o termo

do desvelo e precisamente
        no meio desse tempo
                é onde me espreita

o significado das coisas?


segunda-feira, 2 de outubro de 2023 0 comentários

Relicário


Água trazida como relíquia num cálice.
Bebi metade num gole contínuo
– não por avidez,
mas porque o dia estava quente.
Aqui,
todos os dias são quentes,
aliás. Então,
esbaforido, o telefone tocou
– quem, não me lembro.
Sustei o trago.
Coloquei o copo
para obscurecer-se no balcão
enquanto eu me comovia
com alguma incumbência
proposta pela minha impressionabilidade.

Estive fora o dia todo.

Quando voltei, lá estava –
esquecido, escorregadio,
num anel escuro de descuido
– evidência muda da minha sede remota,
agora à temperatura ambiente,
metade de puro nada.

Não foi tarefa pouca,
nesse momento,
alcançá-lo e sorver tudo.


 
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