terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Ouropel


Palavras em surdina, 
sem nenhuma intenção
de abandonar os espaços
em branco.

Arrasto comigo um texto
em busca de letras exatas
para ser urdido,
que me respire e me arrebate
no seu fôlego,
que me recorte
nos parágrafos do dia.

Este repertório de conversação:
verbo,
     lema,
         linguagem,
     cairel da língua,
palimpsestos
— nada me serve.

A logorréia da intranquilidade
avança sobre meus sigilos,
finca bandeiras,
desbrava. Chego atrasado
ao que quero falar.

Como uma árvore bonsai,
minha palavra é podada.
E silencia o escrito,
até dizer.

(Quando criança, eu repetia uma palavra
intermináveis vezes para mim mesmo,
até que seu sentido se perdesse com calma,
deixando exclusivamente a crosta de um som cavo.
Tente: muito é ótimo).


10 comentários:

Talita Prates disse...

"Quando criança, eu repetia uma palavra
intermináveis vezes para mim mesmo,
até que seu sentido se perdesse com calma,
deixando exclusivamente a crosta de um som cavo."

Eu também fazia isso quando criança.
Aliás, faço até hoje, ainda que em menor frequência.
Mas é muito interessante quando a palavra perde o sentido e só fica o som...
(Inclusive já fiz isso com o meu próprio nome e foi uma experiência um tanto quanto marcante...)

Legal saber que tem outras pessoas que fazem isso também...

Bjo, Fabrício!

Fabrício Franco disse...

Muito marcou-me profundamente, porque depois de alguns longos minutos repetindo-a, como mantra, a palavra simplesmente deixou de fazer sentido para mim. Eu não sabia mais o que ela significava - sequer sabia se falava 'múito' ou 'muinto'. Cosciência recobrada, descobri esse exercício maluco de torcer a palavra ao seu essencial, seu som, e achar nisso um momento alegórico de paz.

Obrigado pela visita, Talita. Beijo grande!

Carina B. disse...

Adoro jogar e ser jogada com as palavras.

Adorei o texto.
:)

Fabrício Franco disse...

Carina,

... Também me sinto assim: as palavras são meu melhor 'playground'.

Muito obrigado pela visita!

Anônimo disse...

E há palavras que “silenciam o escrito” porque de tão profundas só vão encontrar significado quando calam profundo na alma daquele que a lê.
Pois é...certas palavras precisam de silêncio para serem ouvidas...
shiiiiii...
(sussurros)Abraço graaandeee e tenha uma boa noite,
Rôsi

Fabrício Franco disse...

Rôsi,

Obrigado pela visita e pelo comentário. Espero que minhas palavras não calem, mas suscitem outras mais, em diversos tons, para que - assim - a poesia não se cale.

Abraço, com carinho!

Anônimo disse...

Caríssimo POETA,
Ao ler "OUROPEL", voltei a perceber suas certezas e hesitações, quando o foco de sua atenção é a própria poesia: forma encontrada por você para conversar com o mundo.
..................................
Permita-me registrar,aqui, um trecho de Drummond que pode ser "assumido" por você, que se entrega de mil formas, remexendo o "reino das palavras", trabalhando sempre na expectativa de que possa oferecer alguma explicação para os mistérios da vida:
"PALAVRA, PALAVRA,
(DIGO EXASPERADO),
SE ME DESAFIAS,
ACEITO O COMBATE!"
("O Lutador")
.................................
Admiro seu trabalho! LUTE, SEMPRE, COM E PELA PALAVRA!
..................................
Desculpe-me a logorréia!(sic!) Precisava lhe falar tudo isto.
Grande abraço,
Andrea Marcondes

Fabrício César Franco disse...

Andrea,

Eu precisava da logorreia. Fico muito contente em saber que meu trabalho é admirado por você. Contente e orgulhoso. Obrigado!

Abraço, com 'sodade'!

Tarciana Almeida disse...

Olá poeta,

ao ler seu poema, fico com a forte sensação da busca humana em dar sentido ao mundo por meio das palavras, e ao mesmo tempo uma forte sensação de ser esta uma busca interminável, pois que nunca se realiza por completo. O movimento da busca sim é o que faz sentido. Você, com sua poesia, nos ajuda nesse movimento. Por alguns instantes, no poema, parte do mundo adquire sentido e pode ser contemplada.

Parabéns poeta! E mais uma vez obrigada por compartilhar!
Beijo grande!
Tarciana.

Fabrício César Franco disse...

Tarci,

Quem agradece, tanto a visita como os comentários alentadores, sou eu.

Beijo, com carinho!

 
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