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quarta-feira, 1 de abril de 2026 10 comentários

Itinerários de Sísifo


Conforme nos rendemos 
às estrições desse tempo,

às agendas atulhadas
de coisas por fazer,
aos canhotos dos cheques
marcando
impiedosamente

os valores devidos
ao próximo mês,

tornamo-nos um
borrão indistinto

(desatino dos astrolábios)

na ginástica dadaísta das ruas,
onde somos tão só
a roda de um

invisível moinho de galés.


segunda-feira, 12 de maio de 2025 10 comentários

Ouropel


Palavras em surdina, 
sem nenhuma intenção
de abandonar os espaços
em branco.

Arrasto comigo um texto
em busca de letras exatas
para ser urdido,
que me respire e me arrebate
no seu fôlego,
que me recorte
nos parágrafos do dia.

Este repertório de conversação:
verbo,
     lema,
         linguagem,
     cairel da língua,
palimpsestos
— nada me serve.

A logorréia da intranquilidade
avança sobre meus sigilos,
finca bandeiras,
desbrava. Chego atrasado
ao que quero falar.

Como uma árvore bonsai,
minha palavra é podada.
E silencia o escrito,
até dizer.

(Quando criança, eu repetia uma palavra
intermináveis vezes para mim mesmo,
até que seu sentido se perdesse com calma,
deixando exclusivamente a crosta de um som cavo.
Tente: muito é ótimo).


domingo, 6 de abril de 2025 12 comentários

De um amor sem piedade


O amor está morto. 
E quem escreve poemas,
nesse tempo de
átimos e átomos,
está disparando no vazio.

Mas
o verbo amar,
cruel,
acossa-nos
por onde quer que vamos.


domingo, 6 de outubro de 2024 10 comentários

Bagatelas


O tempo tem câimbras.
A noite se acomoda
como um corpo num banho,
exalando nuvens e luzes de carro
- tossindo pássaros.

A escuridão, como um abraço,
senta-se comigo e preenche o quarto
com esse estranho cio de silêncios,
onde as coisas são perdidas:
tardes de feriado,
o som de um velho vinil,
fotos desbotadas,
amigos de infância.

A lembrança se esfiapa em todas as direções,
como se eu estivesse guardando o mar
em alguidares de areia.

Tudo é líquido
e sem margens.

E o que a memória traz é um destilado:
construto de espelho e sombra,
um antilume íntimo
eclipsando esse momento sem nome.

Sou causa deste efeito,
tropegamente humano.

À hora em que não há socorro,
quem não consegue arcar
com o quotidiano ríspido
há que se asilar
no passado impregnado na pele.



sexta-feira, 5 de julho de 2024 10 comentários

Alçapão


Todo mundo 
tem um
                                   
                                                        fundo
                                                        falso.

quinta-feira, 2 de maio de 2024 10 comentários

Receituário


)
Um poema
sob influências.
(

Desconfie do imperativo,
viva no indicativo,
pense no subjuntivo,
sonhe no infinitivo.


domingo, 3 de março de 2024 8 comentários

Teofania


No escuro, o menino perguntava 
          (o que é o mundo?)
apenas para escutar sua tia afirmar
          (uma casa dentro de uma casa)
ou simplesmente para sua mãe responder
          (uma ala inacabada do céu).


Como alguém poderia adivinhar,
naquela casa, e nas outras que se seguiriam,
que a questão encontraria
seu começo de resposta
crescendo dentro daquele que perguntou,
aquela criança insone,
o predileto da noite?
Mais tarde, já adulto
deitado na assonia,
ele se pergunta outra vez,
meramente para ouvir
o silêncio assaltá-lo


          (essa noite se arqueando sobre sua admiração,
          o fado próximo que se achega na alcançadura)


e se lembrar que durante
essa parca intermitência,
esse imenso adeus
que se prolonga,
cada um deve fazer
do seu peito um sacrário,
antes que uma visita
tão estrangeira e esquiva
como Deus se avizinhe.


domingo, 5 de novembro de 2023 0 comentários

Mônada


Caminho em espirais
        rumo a lugar algum.
                Tenho meus compromissos

moldados na lentidão,
        sem os velhos embustes
                que me venham por ajuda.

Tenho essas reticências
        que se alastram.
                Eu aguardo.

Mas o que é essa vigília,
        se no final das contas
                o que almejo é o termo

do desvelo e precisamente
        no meio desse tempo
                é onde me espreita

o significado das coisas?


segunda-feira, 2 de outubro de 2023 0 comentários

Relicário


Água trazida como relíquia num cálice.
Bebi metade num gole contínuo
– não por avidez,
mas porque o dia estava quente.
Aqui,
todos os dias são quentes,
aliás. Então,
esbaforido, o telefone tocou
– quem, não me lembro.
Sustei o trago.
Coloquei o copo
para obscurecer-se no balcão
enquanto eu me comovia
com alguma incumbência
proposta pela minha impressionabilidade.

Estive fora o dia todo.

Quando voltei, lá estava –
esquecido, escorregadio,
num anel escuro de descuido
– evidência muda da minha sede remota,
agora à temperatura ambiente,
metade de puro nada.

Não foi tarefa pouca,
nesse momento,
alcançá-lo e sorver tudo.


segunda-feira, 6 de março de 2023 0 comentários

'Ars domestica'


Sol que vaza por persianas,
um calor senegalesco.
É inútil
dissimular essa melancolia
que invade a tarde.
Crusoé das ilhas de concreto,
tenho a trégua dos livros,
as dobras de sombras nas paredes,
o tempo que isso leva.

Citando Pound,
“a beleza é lenta”.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022 0 comentários

Refrão


Vai dar no que der,
seja lá o que for
o que tem que ser:
nunca é indolor.

No fim das contas,
a gente já sabe:
aguentar as pontas
é o que nos cabe.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022 0 comentários

Formosa


Ninguém mais se lembra do nome da ilha;
se tanto, usam para falar da sobrinha, ou da filha.
Para mim, tem um quê de plenitude da ideia,
teor e forma em cima de mesma boleia
– trazida à baila sem raiva ou agressão,
o argumento para além da mera opinião.

Pois ter ideia, mesmo aquela que desabe,
no país onde a raiva é contra quem sabe
é de uma audácia sem tamanho: intrepidez.
Dia a dia, contra a truculência da estupidez,
tão-só estudar, refletir e negar a impostura
é buscar a liberdade frente à ditadura.

A ideia precisa, repito, vai além da crença
e a verdade – bela! – só é possível quando se pensa,
mesmo e sobretudo quando a situação é tensa.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022 0 comentários

Guindastes


        Falamo-nos em terceira voz
        a equivalente sentença,
como que chegando à mesma margem
        por outro fado e querença.

        Buscamo-nos colmatar a lacuna
        inventada pela diferença,
cor da pele e procedência desiguais,
        com uma fala que convença.

        Alçamo-nos palavras preferidas,
        montando uma acepção mais extensa
ao mover vocábulos em construção delicada,
        esse fazer sentido, que nos pertença.

domingo, 15 de maio de 2022 4 comentários

Andamento


O tempo é o mesmo
em todos os relógios.
Na revolução das esferas,
as horas arrastam ponteiros
: a ciranda atroz da impermanência,
em direção ao depois,
esse imensurável depósito
de entulhos adiados.

sábado, 16 de abril de 2022 0 comentários

Pretextos

 

Eu escrevo porque tenho que.

Porque minha língua é
uma ferramenta muito esquiva
para a elegância da linguagem e eu
me sinto mais confortável falando
com as duas mãos, através da dança
pianística de meus dedos.

Escrevo porque o mundo é
criado por meio da linguagem
e quero um papel a desempenhar
em tecer o futuro.

Escrevo porque quero chegar até
meus leitores, onde quer que estejam,
e a única maneira que podemos
conhecer uns aos outros
é por meio de palavras.

Escrevo para me descobrir,
porque eu ficaria
louco de outra forma ou
porque eu já o seja.

Escrevo porque eu preciso
dar sentido à terrível complexidade do universo.
Porque eu sou feliz. Porque me dói.
Eu escrevo porque não há outra saída.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022 0 comentários

Obra prima



Graciosa e escultural
mente preparada.

Astúcia da beleza,
superlativa e única.

Prodígio extra
ordinário feito.


terça-feira, 2 de novembro de 2021 0 comentários

Euforia asfáltica

 


A estrada se estende,
quilômetro após quilômetro,
chegando a lugar algum.

domingo, 10 de outubro de 2021 1 comentários

Passadiço

 

O poema é alvenaria
: implausível ereção
de castelos, engenharia
reversa, o desfazer
da forma para engendrar
sentidos – uma leitura.

O poema é percurso
: jornada por sendas incógnitas,
paisagem movediça, extravio
de rumos, inventário de quimeras
degredadas e anistiadas –
rasura e reescrita
no mesmo apoucado espaço.

Construção e caminho,
o poema é passagem.

domingo, 12 de setembro de 2021 1 comentários

Afora



Respeito, antes de tudo:
gentileza em meio à raiva,
polidez, ainda que irritado
– pois a paixão é mesmo
esse fogo e o amor fica pouco
mais além, entremeado
de paciência e esforço.

Para lá das quimeras
de se estar sempre
certo ou errado,
há um campo
(como já disse Rumi)
e é só aí
que a relação floresce.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021 2 comentários

De mais uma definição de poesia


Certos textos que lemos
nos carregam em sua sintaxe,
clareando cada palavra,
fazendo o sentido se esgueirar
entre e ao longo da leitura,
não obstruindo
mas nos deixando
só a emoção do entendimento
como sequer houvesse
algo a ser lido
ali:

isso 
é poesia!

 
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