na fluência do tráfego,
bem na hora do rush.
Lancei meu sorriso aos pombos,
numa dessas tardes de domingo.
Dissolvi oração e silêncio
nos braços constelados de carências.
Crivei o olhar de canções tristes
e me alastrei sobre nostalgia.
Mas não se engane comigo,
rasgo o invólucro. Deslindo-me:
é só a minha punção de mártir
em busca de um outro
passatempo para o corpo.
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segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Identidade,
Impermanência,
Inquietude
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Da estratégia da fênix
Escrito por
Fabrício César Franco
quarta-feira, 1 de abril de 2026
Elucubração,
Impermanência,
Inquietude
10
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Itinerários de Sísifo
Conforme nos rendemos
às estrições desse tempo,
às agendas atulhadas
de coisas por fazer,
aos canhotos dos cheques
marcando
impiedosamente
os valores devidos
ao próximo mês,
tornamo-nos um
borrão indistinto
(desatino dos astrolábios)
na ginástica dadaísta das ruas,
onde somos tão só
a roda de um
invisível moinho de galés.
Escrito por
Fabrício César Franco
domingo, 2 de fevereiro de 2025
Cacofonia,
Inquietude,
Ultraje
12
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Atendimento telefônico
Aperte 1 para a impaciência com o menosprezo
dos atendentes de todos os serviços telefônicos,
sua falta de preparo ao lidar com pessoas,
sua ineficiência cava, ensinada e repetida,
como se isso fosse um trato profissional requerido.
Aperte 2, 3, para a renúncia do seu tempo,
que se esvanece em sinfonias inanes de saxofone,
música de elevador, transformando tudo num ruído
oco, sem sentido, até você perder o propósito:
para quem estou ligando mesmo?
Aperte 4, 5, 6 para insatisfação garantida,
de ficar perdido diante de tantas opções de discagem,
como defronte a um menu indigesto,
cuja comida nunca mata a sua fome,
cujo sabor só promete a náusea vindoura.
Aperte 7, 8, 9 para a vontade de esganar
o atendente, o supervisor, o chefe de operações,
todos assentados no sarcasmo, podendo fazer algo,
mas – ainda assim – presos no conluio de postergar
e até mal usar o idioma, num gerundismo canhestro:
“amanhã estaremos mandando o técnico à sua casa”.
Escrito por
Fabrício César Franco
No escuro, o menino perguntava
(o que é o mundo?)
apenas para escutar sua tia afirmar
(uma casa dentro de uma casa)
ou simplesmente para sua mãe responder
(uma ala inacabada do céu).
Como alguém poderia adivinhar,
naquela casa, e nas outras que se seguiriam,
que a questão encontraria
seu começo de resposta
crescendo dentro daquele que perguntou,
aquela criança insone,
o predileto da noite?
Mais tarde, já adulto
deitado na assonia,
ele se pergunta outra vez,
meramente para ouvir
o silêncio assaltá-lo
(essa noite se arqueando sobre sua admiração,
o fado próximo que se achega na alcançadura)
e se lembrar que durante
essa parca intermitência,
esse imenso adeus
que se prolonga,
cada um deve fazer
do seu peito um sacrário,
antes que uma visita
tão estrangeira e esquiva
como Deus se avizinhe.
Escrito por
Fabrício César Franco
Caminho em espirais
rumo a lugar algum.
Tenho meus compromissos
moldados na lentidão,
sem os velhos embustes
que me venham por ajuda.
Tenho essas reticências
que se alastram.
Eu aguardo.
Mas o que é essa vigília,
se no final das contas
o que almejo é o termo
do desvelo e precisamente
no meio desse tempo
é onde me espreita
o significado das coisas?
Escrito por
Fabrício César Franco
Nossas despedidas cotidianas
somente foram ensaios para a cena final
: esse adeus numa manhã quarada de maio.
Em tinta, a tez do luto sobre o papel.
Sou todo ao convulso. Procuro razões.
Não há mais como
identificar a cor sem
embalsamar o camaleão.
O dia estaciona e a realidade
desce em mim feito avalanche.
Já não somos. Fomos.
Escrito por
Fabrício César Franco
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021
Efeméride,
Impermanência,
Inquietude,
Melancolia
2
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Peripécia
súbito silêncio dos pneus.
Nos lábios da calçada,
a formiga afogada em vermelho
e a bola perdida.
Nos lábios da calçada,
a formiga afogada em vermelho
e a bola perdida.
Escrito por
Fabrício César Franco
segunda-feira, 28 de dezembro de 2020
Elucubração,
Impermanência,
Inquietude,
Melancolia
2
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Catalepsia?
Dizem que a vida é o que nos acontece
quando não dão certo
os nossos planos.
Cá, comigo,
eu me pergunto:
e quando já não os há?
Morte, decerto,
não. Inda
dói.
os nossos planos.
Cá, comigo,
eu me pergunto:
e quando já não os há?
Morte, decerto,
não. Inda
dói.
Escrito por
Fabrício César Franco
)
do Diário do Confinamento
(
estou em degredo em terras próprias:
perímetros que me cercam e não trespasso.
A ocasião me ensimesma em limites:
ao norte, minha agastada
sensatez;
ao sul, esse medo
crescente;
a leste, o encargo
econômico;
a oeste, a torpeza
geral e indiferente.
Balizas que me abrangem num duro abraço
– soberano de um domínio que me entedia –
esse confim cada vez mais escasso.
Escrito por
Fabrício César Franco
)
do Diário do Confinamento
(
Tarefa mais que penosa:
decodificar os silêncios
que a vida usa para dizer.
Eu me reviro na escuridão
— a percepção sem restrições de forma —
mas a indeterminação permanece.
A estreiteza no peito intraduzível,
esse pânico persecutório inescapável:
— até quando?
Escrito por
Fabrício César Franco
)
do Diário do Confinamento
(
Um pouco Mondrian:
a vida dentro de limites.
Na escassez deste espaço,
a irritação come minhas beiradas
até quase me fazer só meio:
coração fora do eixo
bate no desconforto do peito apertado,
predizendo uma tempestade no horizonte,
como se guardando lugar
para uma aflição ainda mais infinda.
Escrito por
Fabrício César Franco

)
do Diário do Confinamento
(
São dias de parede branca
e gestos anêmicos pontuando a reclusão: as quinas dos móveis rigorosamente perfiladas,
a bagunça dos sentimentos em confusão.
Movo-me em lapsos, sem pressa nem propósito,
cozinhando em fogo lento a adiada refeição.
Mas eis que a vontade moribunda
à revelia dessa condição,
quer abrir as janelas (como se o ar fosse puro)
e a porta (sem tanta inquietação),
pois existir assim é muito pouco:
vida minguada em constante contração.
Escrito por
Fabrício César Franco

)
do Diário do Confinamento
(
ocupamo-nos com a busca de certezas que não há.
Confundimos acaso com escolhas,
nossos rótulos e moldes com as coisas em si,
os registros de nossa lembrança com história.
Assim, não é bem o que nos acontece —
mas o que sobrevive
aos consecutivos naufrágios
de nossas vontades, cogitações e memória.
Escrito por
Fabrício César Franco

)
do Diário do Confinamento
(
Já tive janelas melhores, em lugares piores.
Também já nem tive janelas, tão-só
olhando para dentro: oclusos arredores.
Mas o que é janela é senão um modo de olhar?
O resto são pormenores.
Da minha janela não dá para ver muito.
Continuamente pouca coisa, quase nada.
Os mesmos rituais de todo dia,
a vida pelo crivo do familiar desvendada.
Única mudança: perceber
nossa esperança mais e mais precarizada.
Escrito por
Fabrício César Franco
)
do Diário do Confinamento
(
Indeciso, titubeante, atrapalhado.
O contrapeso das dúvidas povoa meus dias.
No banho, tento caber
no magro diâmetro da água,
mas sobra corpo, ando
sobrando demais.
Nessa vida de parêntese sem par,
encerro o que continua inaudito —
num mundo em conta-gotas,
cheio de cismas e alarmes,
tudo é transitório, amorfo e impreciso.
Escrito por
Fabrício César Franco
)
do Diário do Confinamento
(
Como tratar trivialidades num poema:
clarear os fatos abrindo as janelas
e deixando o silêncio
engordar os cômodos da casa.
Escrever — quase uma solução —
pois a palavra tem sido o lugar
onde levanto abrigo.
Adentro,
esse grande escuro pertencente a todos,
minha trajetória mínima se distende
e se confina dentro dessas margens.
Escrito por
Fabrício César Franco
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Elucubração,
Impermanência,
Inquietude,
Itinerário,
Prelúdio
0
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Percepção
)
do Diário do Confinamento
(
Fato primário e brutal:
mesmo quando nada está, algo acontece.
Quietude também é progresso,
ainda que ardentes devotos da produtividade,
baralhemos ocupação com eficácia
e movimento com avanço.
Coisas tantas
que achamos
que entendemos,
até
que
sustamos.
Escrito por
Fabrício César Franco
)
do Diário do Confinamento
(
Entrementes, no quebranto das notícias,
o extermínio galopante, implacável.
A fatura cruel de eleições sinistras
no recenseamento do luto inviável.
Sem adeus nas covas a granel,
a ferida fica aberta, inexplicável.
A morte virou estatística,
um desmazelo indesculpável.
Perdemos vidas, não cifras,
e não há planilha que nos seja razoável.
Escrito por
Fabrício César Franco
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