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domingo, 18 de junho de 2023 0 comentários

Destino


Perco-me
mais e mais,
assaz desatinado
para ter noção alguma
de qual é o norte
dessa bússola,
indo parar quase
exatamente
onde eu queria
estar.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022 0 comentários

Formosa


Ninguém mais se lembra do nome da ilha;
se tanto, usam para falar da sobrinha, ou da filha.
Para mim, tem um quê de plenitude da ideia,
teor e forma em cima de mesma boleia
– trazida à baila sem raiva ou agressão,
o argumento para além da mera opinião.

Pois ter ideia, mesmo aquela que desabe,
no país onde a raiva é contra quem sabe
é de uma audácia sem tamanho: intrepidez.
Dia a dia, contra a truculência da estupidez,
tão-só estudar, refletir e negar a impostura
é buscar a liberdade frente à ditadura.

A ideia precisa, repito, vai além da crença
e a verdade – bela! – só é possível quando se pensa,
mesmo e sobretudo quando a situação é tensa.

domingo, 15 de maio de 2022 4 comentários

Andamento


O tempo é o mesmo
em todos os relógios.
Na revolução das esferas,
as horas arrastam ponteiros
: a ciranda atroz da impermanência,
em direção ao depois,
esse imensurável depósito
de entulhos adiados.

terça-feira, 2 de novembro de 2021 0 comentários

Euforia asfáltica

 


A estrada se estende,
quilômetro após quilômetro,
chegando a lugar algum.

domingo, 10 de outubro de 2021 1 comentários

Passadiço

 

O poema é alvenaria
: implausível ereção
de castelos, engenharia
reversa, o desfazer
da forma para engendrar
sentidos – uma leitura.

O poema é percurso
: jornada por sendas incógnitas,
paisagem movediça, extravio
de rumos, inventário de quimeras
degredadas e anistiadas –
rasura e reescrita
no mesmo apoucado espaço.

Construção e caminho,
o poema é passagem.

domingo, 12 de setembro de 2021 1 comentários

Afora



Respeito, antes de tudo:
gentileza em meio à raiva,
polidez, ainda que irritado
– pois a paixão é mesmo
esse fogo e o amor fica pouco
mais além, entremeado
de paciência e esforço.

Para lá das quimeras
de se estar sempre
certo ou errado,
há um campo
(como já disse Rumi)
e é só aí
que a relação floresce.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020 0 comentários

Caminhantes


) 
A partir de um poema de E.M. de Melo e Castro 
( 

Apenas um passo
e é então possível
medir a extensão
do andar de um homem.

Ainda que esse tamanho
não seja preciso ou reiterado
mas, quem dá um passo, anda
e é andando que se chega.

Onde chegamos
muito nos define,
bem como as distâncias
construídas com nossos caminhares.

Pois estas são nossas
medidas, assim determinadas
pelas nossas pegadas, que ficam.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020 4 comentários

O silêncio das sereias


O horizonte sujeito
à perspectiva,

o longe que está
talvez logo ali.

E no cais do porto,
um barco

à espera da mudança
das marés.

quinta-feira, 30 de julho de 2020 4 comentários

Respiração


A ciência me ensina que o ar que respiro
são partículas ínfimas do cosmos
e, que tanto aqui, como em toda parte,
é tudo da mesma feitura e arte.
 

Colijo o universo no meu fôlego.

Não bastasse, a cada aniversário,
sou quase completamente diverso:
composto, permutado e reescrito
em diferentes estilhaços do infinito.

Reparto o universo no meu fôlego.

       Se cada coisa passa por mim,
       portanto estou em todo quê:

       imagino meus devaneios infantis
       hoje compondo o asfalto da estrada,

       meus desalentos adolescentes
       transfigurados numa tela pintada,

       e aquela intenção andarilha
       finalmente chegando onde era esperada.


sábado, 9 de maio de 2020 0 comentários

Ramerrão


)
do Diário do Confinamento
(


Quatro paredes em todos os cômodos
enclausuram-me na usança de todo dia.

Nem por isso pareço compreender melhor
o que eu vivo ou o que se passa:
continuamente cirandado
por preconceitos fósseis,
arrogâncias puídas
e aquela grandiloquência espalhafatosa
(a verborragia alucinada!).

Até que,
exausto do esforço de me insurgir
contra a bruta indiferença do momento,
capitulo frente a escolha que me é dada:
ou lavo a louça que ficou de ontem,
ou passo a roupa que já secou.

terça-feira, 5 de maio de 2020 0 comentários

Narrativas


)
do Diário do Confinamento
(

Nesse tremeluzir de viver restrito pela rotina,
ocupamo-nos com a busca de certezas que não há.

Confundimos acaso com escolhas,
nossos rótulos e moldes com as coisas em si,
os registros de nossa lembrança com história.

Assim, não é bem o que nos acontece —
mas o que sobrevive
aos consecutivos naufrágios
de nossas vontades, cogitações e memória.

sexta-feira, 1 de maio de 2020 0 comentários

Percepção


)
do Diário do Confinamento
(

Fato primário e brutal:
mesmo quando nada está, algo acontece.
Quietude também é progresso,
ainda que ardentes devotos da produtividade,
baralhemos ocupação com eficácia
e movimento com avanço.

Coisas tantas
que achamos
que entendemos,
                          até que
                          sustamos.

terça-feira, 21 de abril de 2020 2 comentários

Posologia


)
do Diário do Confinamento
(

Tentamos ser tudo de uma só vez:
nossos nomes e sobrenomes,
nossa solidão e nossa coletividade,
nossa ambição afoita e nossa esperança cega,
nossos amores
não correspondidos
e parcialmente aceitos.

Nossas vidas perpendiculares
configuradas em paralelo,
não nos gráficos austeros da biografia oficial,
mas em diagramas de múltiplos lados
e pontos de vista.

Vidas que se tramam com outras
e dessa tapeçaria surgem pequenas verdades:
contra a convenção e o coletivismo irracional,
cada um sabe a dose que lhe envenena ou cura
e a solidão que lhe é companhia ou agrura.

domingo, 18 de agosto de 2019 2 comentários

Análogas



)
Para Indi,
admirável em qualquer idade
(

A menina agrilhoada
na mulher despontada:
eis a luta travada.
A menina é arteira, sagaz,
dribla a mulher sem deixar-se tocar.
Mas a mulher é astuta,
troça da menina,
deixa pensar que se engana.
A menina apronta. A mulher se revela.
Peleja em vão, luta desconexa, sem fáceis triunfos.
Mulher, menina, ambas a mesma...
Subversivas? Desejantes!



quarta-feira, 26 de dezembro de 2018 2 comentários

Pois então


Perdemos o trem, não o rebolado.
Apostamos no humor contra todos os males.

Dos clichês, fazemos um achado,
e driblamos o lugar-comum nos detalhes.

Amor e arte fermentam o pão de todo dia.
Pouca ou muita, a fé move cordilheiras de medos.

Prosa de vez em quando nos falta, nunca poesia.
A alegria até arrisca raízes nos cotidianos enredos.

O chão é duro, tudo exige paciência e atenção.
Nosso engenho engana a sorte e se traça na escrita.

No final do ano, a esperança nos visita na contramão
e nos impele: insista, refaça, repita.

quarta-feira, 9 de julho de 2014 12 comentários

Ocorrência


A tristeza crônica de um fim de tarde.
Nuvens criando rugas no céu lilás,
o ar frouxamente obstruído por teias.
Atravesso a hora final do crepúsculo
com a tácita consciência da grave presença do mundo,
com a compacta serenidade de uma árvore. 

Satisfeito comigo, como um hibisco.

quarta-feira, 16 de abril de 2014 12 comentários

Litogravura


Coreto de concretagem ciclópica,
bancos em dispersão isotrópica.
Sombra, quase que microscópica.
Localidade nem tão misantrópica -
contumacíssimo verde ainda medra
dentre a praça impressa na pedra.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013 14 comentários

Carne e osso



Exercício esquizofrênico:
entregue à busca dos limites
desta vida onde me instalo.
Pois sou de uma contenção
ferocíssima,
o dia todo dentro.
Pois careço
da alforria do ser;
ser
um cariz novo
que exista
exatamente.
Um cerne expurgado
de tudo o que lesa,
de todo o medo
que medra
entre os dias.

E enfim,
encontrar a mim mesmo:
homem superlativo, 

a contento.

domingo, 10 de novembro de 2013 16 comentários

Momentâneo


Divido o que vivo,
esta vida doidivanas:

de manhã, dádiva
(vivendo cada respiração)

de tarde, dívida
(no contínuo lidar com a vida)

de noite, dúvida
(a vida? Foi-se...)


quarta-feira, 10 de julho de 2013 14 comentários

Ulisses



Estou sempre em regresso,
na recíproca da gravidade
no chão que se ergue
para o pouso do pé.
Cada movimento
é uma odisseia de volta,
dentro da qual sou
conduzido por vetores rivais,
arrasto e repulsa,
em errância por veredas
contraditórias dentro de mim.

Há esse desassossego sem âncora
: se me estaciono,
deixo um poder de passos no imóvel,
pois em hipótese alguma
devo abandonar a andança
por falta de caminho.

Se você me perceber
na quietude de um instante,
saiba que o que vê é uma fotografia,
eu nunca sou sereno assim,
meu deslocamento é constante
e essa é a verdade,
a verdade dos perímetros cambiantes.

Ou talvez não
a verdade inteira, apenas
a distância que se ajusta a mim
: na ambulação de todas as lonjuras
está a minha jornada de retorno para casa.


 
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