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domingo, 2 de fevereiro de 2025 12 comentários

Atendimento telefônico


Aperte 1 para a impaciência com o menosprezo
dos atendentes de todos os serviços telefônicos,
sua falta de preparo ao lidar com pessoas,
sua ineficiência cava, ensinada e repetida,
como se isso fosse um trato profissional requerido.


Aperte 2, 3, para a renúncia do seu tempo, 
que se esvanece em sinfonias inanes de saxofone,
música de elevador, transformando tudo num ruído
oco, sem sentido, até você perder o propósito:
para quem estou ligando mesmo?


Aperte 4, 5, 6 para insatisfação garantida,
de ficar perdido diante de tantas opções de discagem,
como defronte a um menu indigesto,
cuja comida nunca mata a sua fome,
cujo sabor só promete a náusea vindoura.


Aperte 7, 8, 9 para a vontade de esganar
o atendente, o supervisor, o chefe de operações,
todos assentados no sarcasmo, podendo fazer algo,
mas – ainda assim – presos no conluio de postergar
e até mal usar o idioma, num gerundismo canhestro:


“amanhã estaremos mandando o técnico à sua casa”.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022 1 comentários

Glossário da consternação



O silêncio amarfanhado
é a eloquência
sem palavras
após a discussão.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020 0 comentários

A ditadura das aspas


)
De um texto de Duda Rangel
(

A vizinhança disse;
a testemunha relatou;
a crítica destacou;
a perícia afirmou;
o conselho anunciou;
a autoridade prometeu;
o governo garantiu;
o ministério salientou;
a oposição argumentou;
a meteorologia previu;
a Igreja promulgou;
a propaganda divulgou;
a assessoria desmentiu;
a equipe justificou;
o elenco confidenciou;
a imprensa ressaltou;
a investigação concluiu:

nós nos tornamos reféns
das palavras de outrem
para declarar nosso intento.


segunda-feira, 18 de junho de 2018 2 comentários

Causa mortis


Telefone ocupado,
linha cruzada,
voz silenciada,
caixa postal lotada,
quota extrapolada,
carta extraviada,
endereço errado,
telegrama atrasado,
jornal não veiculado,
mensagem desviada,
garrafa naufragada,
tambor calado,
livro inacabado,
disco arranhado,
energia cortada,
ferrolho trancado,
ônibus lotado,
voo cancelado,
trem descarrilhado,
pneu esvaziado,
estrada bloqueada,
atalho obstado,
mapa rasgado,
bússola quebrada,
validade expirada,
erro não calculado,
confiança ludibriada,
alma espatifada,
amor terminado,
caso encerrado.
 
domingo, 18 de junho de 2017 4 comentários

Zero


A modorra se alastra
feito líquido num mata-borrão.
A vida entrando numa faixa de Moebius –
os segundos se repetem infindavelmente
num contexto intercambiável.
O tédio impele o pensamento para outros planos,
onde espreito universos distintos
nos gravames desta reunião.

Mas a voz monocórdia ainda ecoa
tal metal numa incude, vezes repetidas,
como se mais do que dizer,
quisera extasiar-se em seu próprio timbre.
Ligo meu isolamento acústico e abstraio.
Adoto o balançar aquiescente de cabeça,
os murmúrios da boca semifechada,
o olhar entibiado escondido atrás de uma falsa atenção.
Nunca minha caneta explorou tanto
os enleios da inspiração, os folguedos do nada.
No colóquio do meu desinteresse com a falta de assunto,
o desperdício da manhã:
tarda autoquíria da alma.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014 12 comentários

Desacerto


Declaro para os devidos fins
que estou num daqueles dias
quando o bom do diálogo
é obrigar o outro a calar a boca.
Portanto, fique quieto,
escute com os olhos;
saiba o que os gestos contam.
Não colora o silêncio com gracejos –
algumas coisas são melhores vazias.
Viciaram a roleta e querem
que apostemos o futuro –
o maior prêmio é um orgasmo
e um holerite no final do mês.
Tudo é cilada, não se engane.
Eu tenho comigo essa fragrância da recusa,
esse ódio aos limites, às mentiras deferentes,
à impostura diária, ao tato.
Naquele nível de consciência irrelevante,
senatorial, onde as questões
que o desejo já respondeu são
debatidas e tabuladas até mais tarde,
escolhi o longo caminho do exemplo
ao atalho do conselho.
Seja por inteligência ou por cansaço,
parei de tentar encaixar o redondo no oval.
No entanto, é vão
: toda descoberta se deteriora numa certeza,
e toda ideia numa ideologia.
Já me vendem ali na esquina,
numa barraca de camelô,
o rebelde em pechincha,
dois por R$ 1,99.


sábado, 9 de fevereiro de 2013 10 comentários

Diagnose

)
O pensamento em você é de uma saudade oca.
(

A familiaridade gera indiferença,
uma perda que ninguém pode
recuperar. Apesar de deitarmos

nus e juntos sob o mesmo
cobertor, eu acordarei sozinho.
Somos essas duas extremidades

que não se encaixam exatamente.
Eu poderia me explicar, mas então
você entenderia minha explicação,

não o que eu disse.
Estrangeiros no convívio,
aquilo que sempre cremos saber
 

é um erro de tradução
e ninguém quer dizer
o que realmente foi dito:

insatisfeitos, remotos um
do outro, tendo nada
o que mais dizer.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013 12 comentários

Instantâneos nesse mundo lambe-lambe

1.
Ruas congestionadas
de veículos exasperados e enfurecidos.
Um mundo de estrépito constante,
onde o eco do barulho do tráfego
ricocheteia nos prédios,
num urro cacofônico e ininterrupto,
numa incessante retroalimentação de ruídos.
Estática dos deuses.

2.
No darwinismo urbano da hora do rush,
eu me lanço num mundo cheio de quinas,
o coração em desalinho.
Transeuntes vagamente relevantes,
na sua indiferença vítrea de pessoas ocupadas,
passam por mim, sequer me notam.
Impenetráveis – nenhuma senha,
nenhuma palavra-chave.

Eu:
estou de visita e continuo sendo
uma sensação inconclusa.
Evitando essa fina desistência da vida,
eutanásia precocíssima,
subsisto em minutos instantes de satori,
no lado de dentro de um sorriso.


sexta-feira, 7 de setembro de 2012 10 comentários

Testemunha ocular


O sol a pino e seus desastres:
uma manada de manifestantes
fere o asfalto do centro da cidade.
Um candidato a alguma coisa
arregimenta parvos acólitos
em torno de promessas faltas.
Os ônibus, os carros
impacientam-se nas buzinas.
Chove papel picado.

E eu me atraso para o trabalho.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012 28 comentários

Festim


Antes que se faça cinza a quarta-feira;
que o batuque se recolha ao silêncio,
transitório e quaresmal;
que o colorido das fantasias se tolde
no fosco ecumênico de todo dia,
quiçá essa inquietação acabe e me dê
a sensação de haurir o que é preciso:
a semana, o mês, o ano prossegue estritamente,
e o cansaço já me veste 
em seus trajes frouxos.

Forasteiro desde sempre a todo esse folguedo,
vezes sem conta eu me (im)pus a máscara foliona:
mas o molejo é faltante, a malemolência falha,
e logo se percebe que tenho mais raízes que pés.
A gandaia se me faz pelos olhos de espectador,
o espocar imponderado dos tambores
surgindo como um susto à solta no peito,
meu admirar-me acriançado diante da veemência
corpórea dos passistas que se doam à polirritmia.
E Momo, esse se ri de minhas arlequinadas.


 
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