sexta-feira, 7 de julho de 2017 0 comentários

Coroa de espinhos



Sei que esta felicidade é provisória.
Receio uma tormenta,
um pequeno apocalipse.
Os nervos retesados
como arcos de violino,
alarmes prontos a soar.
O pessimismo é um mal de família.
Não acreditamos em arrebatamento
que dure mais do que cinco minutos.
Sempre um preço caro demais a pagar,
um problema insignificante
que se revela catastrófico,
uma cláusula não lida
que nos constrange
a anos de preocupação.
Há um quê de pessimismo exacerbado,
confesso, mas obstinadamente comprovado 

vezes sem conta.

domingo, 18 de junho de 2017 4 comentários

Zero


A modorra se alastra
feito líquido num mata-borrão.
A vida entrando numa faixa de Moebius –
os segundos se repetem infindavelmente
num contexto intercambiável.
O tédio impele o pensamento para outros planos,
onde espreito universos distintos
nos gravames desta reunião.

Mas a voz monocórdia ainda ecoa
tal metal numa incude, vezes repetidas,
como se mais do que dizer,
quisera extasiar-se em seu próprio timbre.
Ligo meu isolamento acústico e abstraio.
Adoto o balançar aquiescente de cabeça,
os murmúrios da boca semifechada,
o olhar entibiado escondido atrás de uma falsa atenção.
Nunca minha caneta explorou tanto
os enleios da inspiração, os folguedos do nada.
No colóquio do meu desinteresse com a falta de assunto,
o desperdício da manhã:
tarda autoquíria da alma.


quarta-feira, 17 de maio de 2017 4 comentários

Epifania

                                                          
)
Uma meia-noite de outono junto às janelas
(
 
A vida dentro
dos fones de ouvido
: o som
moldando-se
às profundezas
dos meus labirintos,
as pernas fluindo
pelo quarto,
o mover-me
para lugar
nenhum –
paisagem sem dúvida
alguma.

 
domingo, 16 de abril de 2017 4 comentários

Diverso


De vez em quando, 
precisamos de um milagre às avessas 
para desnudar a linguagem, 
fazê-la durar por um minuto
: tão somente 
a vasilha com o vinho – 
uma recusa sacramental em se multiplicar, 
reclamando 
através disso 
um único pedaço de pão, 
um único peixe.

terça-feira, 14 de março de 2017 4 comentários

Segredo de confissão



Suposto que não me sei depois,
ouso a importunidade
e me escorro pelos olhos.
Meu páreo não é este
(ser honesto sem ser cruel),
mas tenho comigo:
no escrúpulo desse sobressalto,
também seu olhar de pólvora,
para sempre igual e mesmo,
capitula à irremissível verdade:

tenho ossos demais numa alma apertada.


sábado, 4 de fevereiro de 2017 4 comentários

Areias movediças



Eis-me em estado de burocracia.
Os olhos autopsiam
os programas marcados na agenda.
Movo meu cansaço pela cama,
abro trincheiras nos lençóis.
Busco o meu tempo perdido,
a minha arqueologia,
no relógio sobre o criado-mudo
– que rege, quieto, horas que não existem,
mas que confabulam e devagar
avançam no vazio.

O silêncio quer ser a absoluta engenharia.

Assim,
vou me subtraindo sem pressa,
até deixar-me
existindo somente por entre os cílios.

 
 
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