segunda-feira, 20 de novembro de 2017 2 comentários

Desconforto



A esperança é crônica,
o medo é agudo
e a chance azeita o motor dialético da história.

Avançamos, a esmo,
tateando no escuro.
Avançar é uma infidelidade –
para com os outros, com o passado,
com as ideias que cada um faz de si.

Quem sabe se cada dia não devesse conter,
pelo menos uma infidelidade essencial?

Seria uma atitude otimista, esperançosa,
que garantiria a crença no futuro –
uma declaração pública de que as coisas podem ser melhores,
e não apenas diferentes.

Ao invés,
nutrimo-nos de expectativas malogradas,
malsinamos a crença, no sobressalto
de que é presa a alma inquieta.
Fomos treinados nos rudimentos da linguagem
da fé apenas como uma precaução,
não falamos o idioma, não vamos além
da reticência de uma interjeição.
Claudicamos outra vez no arrependimento,
sentimento duplamente estúpido
: por trabalhar com uma matéria-prima morta (o passado)
e por gerar um resultado danoso (autocomiseração e raiva).

Não há como enfiar o gênio de volta à lâmpada,
o dentifrício de volta ao tubo.

Mas qual o quê?
O homem é um animal que se justifica e,
na pacatez burguesa de uma tarde de domingo,
aceita a cangalha do carecimento,
a insuficiência das desculpas impotentes.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017 2 comentários

Acústico


Jazz do coração: 
esse meu embaraço 
que te deseja.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017 4 comentários

Repensando o pesar


1.
Agradeçamos aos nossos enganos 
e os abençoemos por sua prosa terrivelmente vulnerável. 

2.
Nós deveríamos lhes oferecer nossa gratidão, 
admiração por nos dar nossas fissuras 
e nos cicatrizar com embaraço, 
no lampejo quente de uma confissão. 

Obrigado, transgressões, 
por nos fazer 
tão direitos 
em nossas imperfeições. 
Menos defeituosos, 
nós poderíamos ter nos desviado e, 
aptos demais, 
procurado outros caminhos. 

3.
Ainda que nosso engano perfeito 
tenha vindo diretamente para nós, 
para dentro de nossas vidas ordenadamente atravancadas, 
(que até poderiam ter estado 
fechadas, adormecidas, mas 
ao invés ficaram acordadas toda a noite, 
esquecendo da pílula, do livro bom, 
das oito horas necessárias), 
mantendo nosso coração atordoado 
e aturdindo – este engano é nosso!

4.
Quão infeliz a perfeição 
pareceria, ali na estante, 
sem sequer uma fenda, 
sem esta quebra crítica 
– esta queda – 
este súbito e emocionante desenho 
que acontece 
de ser 
nós.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017 2 comentários

Parentesco



Tal pai,
tal filho: 

estribilho?

 
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