quarta-feira, 3 de janeiro de 2018 4 comentários

Calado (quando doem as palavras)


Minha voz dorme “em timidez,
envolta na faringite que veio
de visita no início da semana”.
O silêncio adentra minha vida
com truculência, se faz compulsão,
nada há que eu possa fazer.
Refém da afonia,
meu vocabulário restrito,
engulo o não-dito
como quem rouba uma fruta e,
como criança dando às coisas outro nome,
refaço o mundo em letras mudas.

Natural sentir-me triste,
dia nublado.

Não se guardam palavras.
Quando poupadas, decompõem-se
na própria avareza. E doem
de o cabelo cair,
de o olho arder,
de querer vomitar.

Dói de respirar,
suspiro de nimbo
para fazer chover.
Inevitável
: alma alagada.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017 2 comentários

Segunda pele


O tempo se dobrou
e não dei importância
ao primeiro vinco.

Acreditava que o passar
de meus dedos
pudessem suavizá-lo de vez.

As rugas, hoje,
fazem parte do sorriso.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017 2 comentários

Desconforto



A esperança é crônica,
o medo é agudo
e a chance azeita o motor dialético da história.

Avançamos, a esmo,
tateando no escuro.
Avançar é uma infidelidade –
para com os outros, com o passado,
com as ideias que cada um faz de si.

Quem sabe se cada dia não devesse conter,
pelo menos uma infidelidade essencial?

Seria uma atitude otimista, esperançosa,
que garantiria a crença no futuro –
uma declaração pública de que as coisas podem ser melhores,
e não apenas diferentes.

Ao invés,
nutrimo-nos de expectativas malogradas,
malsinamos a crença, no sobressalto
de que é presa a alma inquieta.
Fomos treinados nos rudimentos da linguagem
da fé apenas como uma precaução,
não falamos o idioma, não vamos além
da reticência de uma interjeição.
Claudicamos outra vez no arrependimento,
sentimento duplamente estúpido
: por trabalhar com uma matéria-prima morta (o passado)
e por gerar um resultado danoso (autocomiseração e raiva).

Não há como enfiar o gênio de volta à lâmpada,
o dentifrício de volta ao tubo.

Mas qual o quê?
O homem é um animal que se justifica e,
na pacatez burguesa de uma tarde de domingo,
aceita a cangalha do carecimento,
a insuficiência das desculpas impotentes.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017 2 comentários

Acústico


Jazz do coração: 
esse meu embaraço 
que te deseja.

 
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