domingo, 16 de abril de 2017 2 comentários

Diverso


De vez em quando, 
precisamos de um milagre às avessas 
para desnudar a linguagem, 
fazê-la durar por um minuto
: tão somente 
a vasilha com o vinho – 
uma recusa sacramental em se multiplicar, 
reclamando 
através disso 
um único pedaço de pão, 
um único peixe.

terça-feira, 14 de março de 2017 4 comentários

Segredo de confissão



Suposto que não me sei depois,
ouso a importunidade
e me escorro pelos olhos.
Meu páreo não é este
(ser honesto sem ser cruel),
mas tenho comigo:
no escrúpulo desse sobressalto,
também seu olhar de pólvora,
para sempre igual e mesmo,
capitula à irremissível verdade:

tenho ossos demais numa alma apertada.


sábado, 4 de fevereiro de 2017 4 comentários

Areias movediças



Eis-me em estado de burocracia.
Os olhos autopsiam
os programas marcados na agenda.
Movo meu cansaço pela cama,
abro trincheiras nos lençóis.
Busco o meu tempo perdido,
a minha arqueologia,
no relógio sobre o criado-mudo
– que rege, quieto, horas que não existem,
mas que confabulam e devagar
avançam no vazio.

O silêncio quer ser a absoluta engenharia.

Assim,
vou me subtraindo sem pressa,
até deixar-me
existindo somente por entre os cílios.

 
terça-feira, 3 de janeiro de 2017 4 comentários

Tempus fugit



O mundo jamais será
um lago suíço
de águas tranquilas.
Pois 

a crise é
o estado humano por excelência,
a viagem é
o nosso porto,
passar é o nosso dever.


 
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