quarta-feira, 2 de novembro de 2016 4 comentários

&


Quem não vê bem uma palavra,
 não pode ver bem uma alma”.
 (Fernando Pessoa)

Eu acordo numa reentrância da noite, 
minha boca como uma gaveta vazia. 
São três da madrugada 
e a cama é um país estrangeiro, 
mesmo idioma, mas numa inflexão diferente, 
este solavanco para insônia 
um indício. 

Eu me decalco em passos 
casa afora, buscando 
não sei o quê. Sim, 
há sempre os que encontram 
e aqueles, como eu, que nem sabem onde puseram. 

Algo precisa vir ao escrito, 
tatuar a brevidade em coisa eterna, 
criar nexo. 

(Você nem sabe o quanto 
eu gaguejo por dentro). 

E assim procuro 
uma palavra que misture 
peripécia com insurreição, 
rasgo de se erguer o sétimo véu 
além das realidades 
tangíveis da vida diária. 

Nada extenso, só 
a contraparte estética da ocasião, 
algo que informe 
seja em que dialeto for. 

Saltimbanco, 
ele me aparece, 
dublê da eternidade, 
espaço de cronometragem impecável, 
solução aguardada com interesse: 
o & insiste 
nessa promiscuidade, 
nos lugares de encontros de estranhos, 
nenhum conhecimento prévio como condição. 

Um mero sinal 
para provar 
que nenhum encontro 
é inconsequente.

domingo, 9 de outubro de 2016 8 comentários

Sétimo céu


Salivo simplesmente: 
minha boca se contrai
num rictus de lâmina.
A fúria que asilo no peito
perverte, radical e fronteiriça,
minhas disciplinas atávicas.
É o rancor que dá seu voo de fênix.


Contudo, pensar em você cava
fundo em mim. Da memória
em estilhaços, resgato seu rosto,
que se emoldura em close
dentro dos meus olhos.
Na avareza dos desesperados,
tento reter nos poros
seu corpo sem coplas,
lindo e vazio como um ídolo.


Que você me perdoe, amor,
mas meu coração ainda é
e eu quero a paixão
com a estrutura de uma coisa eterna.


domingo, 18 de setembro de 2016 10 comentários

Girassol


Havia o escuro,
mas eu não sabia onde:
seu rosto era o sol.


segunda-feira, 8 de agosto de 2016 8 comentários

Narcolepsia


A exaustão toma conta.
Minhas articulações doem em revide, 
fracas demais para qualquer coisa. 
Sem indultos, sem alívio, 
anseio pelo sono, 
antecipo o torpor que virá. 
Ouço o travesseiro invocar meu nome – 
do outro lado do cômodo, ele sussurra, 
tonitruante em meus ouvidos. 
Olhos se fecham contrafeitos, 
já não vejo a tela através 
das lágrimas de bocejo. 


Estou perdendo velozmente esse duelo. 
                                   Não posso dormir!
                                   (Como se a escolha fosse minha). 


Minuto a minuto, 
a contenda prossegue 
até findar meu turno
: desabo na cama a tempo 
de descobrir que estou 
completamente desperto. 


Na peleja com a fadiga, 
a insônia acabou por vencer.
 
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