segunda-feira, 8 de agosto de 2016 4 comentários

Narcolepsia


A exaustão toma conta.
Minhas articulações doem em revide, 
fracas demais para qualquer coisa. 
Sem indultos, sem alívio, 
anseio pelo sono, 
antecipo o torpor que virá. 
Ouço o travesseiro invocar meu nome – 
do outro lado do cômodo, ele sussurra, 
tonitruante em meus ouvidos. 
Olhos se fecham contrafeitos, 
já não vejo a tela através 
das lágrimas de bocejo. 


Estou perdendo velozmente esse duelo. 
                                   Não posso dormir!
                                   (Como se a escolha fosse minha). 


Minuto a minuto, 
a contenda prossegue 
até findar meu turno
: desabo na cama a tempo 
de descobrir que estou 
completamente desperto. 


Na peleja com a fadiga, 
a insônia acabou por vencer.
sábado, 2 de julho de 2016 8 comentários

Terra-a-terra


Fui riscado do seu mapa,
mas não desisti
da sua geografia.

quarta-feira, 8 de junho de 2016 12 comentários

Loa ao olho


Um ídolo que requer segredo, o olho 
não tem matiz discernível e confere 
ao espectro o que lhe falta

: as cores se refratam 
                e colidem 
                e formulam o visível. 

O olho é um zero 
difratando o tempo 
                e a água. 

É pelo que revela: 
uma condição de vantagem, 
um contrato 
                com o que se percebe. 

O olho é nada 
que já se viu.

domingo, 8 de maio de 2016 12 comentários

Nó górdio


1.
Qual a real medida desta manhã
que nunca me será dada de volta?
O que se faz aqui,
nesse débil agora,
que vai me fazer tirar leite das pedras?
Como ordenhar o vazio?

2.
Tempo é menos
uma medida de passagem
do que uma ressurreição falha.
Calendários e cronômetros não passam
de um tentame pífio
de se algemar o que se nos evade
e que, inversamente, nos prende
ao calabouço dos ponteiros,
à senzala das agendas,
à penitenciária das folhinhas.
Um nó só,
mas como é difícil desatar
: se livres, estamos extintos,
externos ao evento.
Resta-nos bem pouco a fazer.
Arte pela arte.
Vida pela vida.
E sempre, a morte.


 
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