quarta-feira, 13 de setembro de 2017 2 comentários

Repensando o pesar


1.
Agradeçamos aos nossos enganos 
e os abençoemos por sua prosa terrivelmente vulnerável. 

2.
Nós deveríamos lhes oferecer nossa gratidão, 
admiração por nos dar nossas fissuras 
e nos cicatrizar com embaraço, 
no lampejo quente de uma confissão. 

Obrigado, transgressões, 
por nos fazer 
tão direitos 
em nossas imperfeições. 
Menos defeituosos, 
nós poderíamos ter nos desviado e, 
aptos demais, 
procurado outros caminhos. 

3.
Ainda que nosso engano perfeito 
tenha vindo diretamente para nós, 
para dentro de nossas vidas ordenadamente atravancadas, 
(que até poderiam ter estado 
fechadas, adormecidas, mas 
ao invés ficaram acordadas toda a noite, 
esquecendo da pílula, do livro bom, 
das oito horas necessárias), 
mantendo nosso coração atordoado 
e aturdindo – este engano é nosso!

4.
Quão infeliz a perfeição 
pareceria, ali na estante, 
sem sequer uma fenda, 
sem esta quebra crítica 
– esta queda – 
este súbito e emocionante desenho 
que acontece 
de ser 
nós.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017 2 comentários

Parentesco



Tal pai,
tal filho: 

estribilho?

sexta-feira, 7 de julho de 2017 2 comentários

Coroa de espinhos



Sei que esta felicidade é provisória.
Receio uma tormenta,
um pequeno apocalipse.
Os nervos retesados
como arcos de violino,
alarmes prontos a soar.
O pessimismo é um mal de família.
Não acreditamos em arrebatamento
que dure mais do que cinco minutos.
Sempre um preço caro demais a pagar,
um problema insignificante
que se revela catastrófico,
uma cláusula não lida
que nos constrange
a anos de preocupação.
Há um quê de pessimismo exacerbado,
confesso, mas obstinadamente comprovado 

vezes sem conta.

domingo, 18 de junho de 2017 4 comentários

Zero


A modorra se alastra
feito líquido num mata-borrão.
A vida entrando numa faixa de Moebius –
os segundos se repetem infindavelmente
num contexto intercambiável.
O tédio impele o pensamento para outros planos,
onde espreito universos distintos
nos gravames desta reunião.

Mas a voz monocórdia ainda ecoa
tal metal numa incude, vezes repetidas,
como se mais do que dizer,
quisera extasiar-se em seu próprio timbre.
Ligo meu isolamento acústico e abstraio.
Adoto o balançar aquiescente de cabeça,
os murmúrios da boca semifechada,
o olhar entibiado escondido atrás de uma falsa atenção.
Nunca minha caneta explorou tanto
os enleios da inspiração, os folguedos do nada.
No colóquio do meu desinteresse com a falta de assunto,
o desperdício da manhã:
tarda autoquíria da alma.


 
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