segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Solilóquio



Percebo as pequenas coisas: 
o zumbido de uma geladeira,
o atrito do tecido
de uma camisa antiga
contra a pele, o som
dos saltos de madeira
sobre o cimento arenoso,
o sentido
de uma conta telefônica
vencida.

Quando se
pára para
pensar, a maior
parte da vida
é senão
um acúmulo
de pequenas coisas,
como geladeiras
que zumbem ou telefones
cancelados.

De certa forma,
sou como
um velho amanuense,
espanando
as superfícies
da minha vida.
Perscrutando
o ordinário, em busca
de uma conexão
subjacente.


10 comentários:

Anne Barreto disse...

Enquanto lia esse texto, ouvi todos os sons contidos nele.

=D

Fabrício Franco disse...

A trilha sonora pessoal faz a diferença... :)

Su Palanti disse...

E o que seria a vida se não fosse por todos esses sons, tons e sensações tão familiares?
Bjusss

Fabrício Franco disse...

Su,

É que eu sempre tento achar significados ocultos na familiaridade... ;)

Beijo e obrigado pela visita!

Ariana Zahdi disse...

Na invisibilidade do corriqueiro, barulho de vai e vem de respiração. Estamos vivos. Mas isso não é tudo. Beijo grande, meu querido...

Fabrício Franco disse...

Ariana,

... O tudo não nos pertence, acho. Cabe-nos, tão somente, montar o quebra-cabeças do que nos é dado. Fazer sentido, isso sim, está ao alcance.

Beijo!

Raquel Sales disse...

Fabrício,

Por vezes pequenas coisas dilaceram a alma, outras alentam, como brisa em tarde de verão. No fim das contas (de telefone ou da vida), de pequenas coisas soerguem aconchegos, familiaridades, afinidades, lembranças, memórias, saudades, preferências... Nos construímos, sorvendo doses homeopáticas de coisas...

Até outras pequenas coisas...

Fabrício Franco disse...

Raquel,

Somos, então, como aquelas pedrinhas de mosaico, que só fazem sentido quando postas no todo? Ou será que é só assim que conseguimos nos aperceber do que é a (nossa) vida?

Anônimo disse...

Caríssimo amanuense/mestre/POETA!
Você registra os fatos mais simples, com tal maestria, que, na análise "do ordinário",conduz o leitor à "busca da conexão subjacente"!
Grande abraço,
Andrea Marcondes

Fabrício César Franco disse...

Andrea,

Não me arvoro a ser mestre, ainda. Falta-me muito e tanto! Mas o olhar, esse, você sabe, é atento desde sempre.

Grande abraço, com carinho!

 
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