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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025 12 comentários

Maquiagem


Vozerio.
Frenesi.
Efervescência.
A música não se basta.

Balizas de uma festa.

Colo em meu rosto um sorriso
para entrar no tom.


domingo, 5 de outubro de 2025 14 comentários

Exercício da vertigem


Há tristeza no signo do crepúsculo 
- a emprestar o tema.

O amor, sei que é
por um triz,
passadiço e árduo.

Mas com o que
e onde me escusar
do que não é amor,
simplesmente?


domingo, 14 de setembro de 2025 14 comentários

Imisção


O relacionamento não é
um abrigo ou mesmo um teto.

É antes disso, e mais áspero.

Artificial como fronteiras
cartográficas, o ermo
onde o outro não é remédio
para a solidão,

nem a privacidade é mais
garantia de sossego.

É onde tropeçamos no escuro,
noite após noite após noite,
esperando por uma clareza
de propósito.

Dolorosamente
ineficientes
ao lidar com nossos
mútuos assombros,
é difícil
acreditar que chegamos
até aqui:
imiscíveis.


domingo, 6 de abril de 2025 12 comentários

De um amor sem piedade


O amor está morto. 
E quem escreve poemas,
nesse tempo de
átimos e átomos,
está disparando no vazio.

Mas
o verbo amar,
cruel,
acossa-nos
por onde quer que vamos.


domingo, 6 de outubro de 2024 10 comentários

Bagatelas


O tempo tem câimbras.
A noite se acomoda
como um corpo num banho,
exalando nuvens e luzes de carro
- tossindo pássaros.

A escuridão, como um abraço,
senta-se comigo e preenche o quarto
com esse estranho cio de silêncios,
onde as coisas são perdidas:
tardes de feriado,
o som de um velho vinil,
fotos desbotadas,
amigos de infância.

A lembrança se esfiapa em todas as direções,
como se eu estivesse guardando o mar
em alguidares de areia.

Tudo é líquido
e sem margens.

E o que a memória traz é um destilado:
construto de espelho e sombra,
um antilume íntimo
eclipsando esse momento sem nome.

Sou causa deste efeito,
tropegamente humano.

À hora em que não há socorro,
quem não consegue arcar
com o quotidiano ríspido
há que se asilar
no passado impregnado na pele.



terça-feira, 11 de abril de 2023 0 comentários

Nuanças


Nossas despedidas cotidianas
somente foram ensaios para a cena final
: esse adeus numa manhã quarada de maio.
Em tinta, a tez do luto sobre o papel.
Sou todo ao convulso. Procuro razões.
Não há mais como
identificar a cor sem
embalsamar o camaleão.
O dia estaciona e a realidade
desce em mim feito avalanche.
Já não somos. Fomos.


segunda-feira, 6 de março de 2023 0 comentários

'Ars domestica'


Sol que vaza por persianas,
um calor senegalesco.
É inútil
dissimular essa melancolia
que invade a tarde.
Crusoé das ilhas de concreto,
tenho a trégua dos livros,
as dobras de sombras nas paredes,
o tempo que isso leva.

Citando Pound,
“a beleza é lenta”.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022 1 comentários

Glossário da consternação



O silêncio amarfanhado
é a eloquência
sem palavras
após a discussão.

terça-feira, 2 de novembro de 2021 0 comentários

Euforia asfáltica

 


A estrada se estende,
quilômetro após quilômetro,
chegando a lugar algum.

sexta-feira, 23 de abril de 2021 2 comentários

Antiquário da dor


Junto toda espécie de detritos,
resíduos abandonados,
em meu acervo de resquícios.

Conservo estilhaços de aflição,
angústia em cacarecos,
uma coletânea de suplícios.

Guardo quimeras despedaçadas,
lascas de amargura,
tombos diante de precipícios.

Colijo toda forma de naufrágio,
fragmentos de logros e embustes,
o cadafalso de cotidianos malefícios.

Preservo o luto dos ludíbrios,
a lástima amarga dos enganos,
o pesar de todos os vícios.

Coleciono a escória da consternação,
dos amores mutilados
e a brutal inutilidade de seus sacrifícios.

domingo, 7 de março de 2021 2 comentários

Resquício


Restou de nós
um rancor contido,
assuntos evitados,
mágoas recidivas.

Restou dos nós
a tristeza espaçosa
do laço desfeito.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021 2 comentários

Peripécia



O corpo espanca o carro: 
súbito silêncio dos pneus.

Nos lábios da calçada,
a formiga afogada em vermelho
e a bola perdida.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020 2 comentários

Catalepsia?


Dizem que a vida é o que nos acontece 
quando não dão certo
os nossos planos.

Cá, comigo,
eu me pergunto:
e quando já não os há?

Morte, decerto,
não. Inda
dói.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020 4 comentários

O silêncio das sereias


O horizonte sujeito
à perspectiva,

o longe que está
talvez logo ali.

E no cais do porto,
um barco

à espera da mudança
das marés.

domingo, 10 de maio de 2020 0 comentários

Disjunto


)
do Diário do Confinamento
(

Pela janela com gradis,
meu jardim alheio:
um buquê de ixoras aflitas,
um crisântemo aborrecido,
lantejoulas de teias de aranha
e a melancolia que se arrasta.

Tempo em pausa, um respiro,
algemando o pensamento
num embornal de cores.

quinta-feira, 7 de maio de 2020 0 comentários

Aperto


)
do Diário do Confinamento
(

São dias de parede branca 
e gestos anêmicos pontuando a reclusão:
as quinas dos móveis rigorosamente perfiladas,
a bagunça dos sentimentos em confusão.
Movo-me em lapsos, sem pressa nem propósito,
cozinhando em fogo lento a adiada refeição.
Mas eis que a vontade moribunda
à revelia dessa condição,
quer abrir as janelas (como se o ar fosse puro)
e a porta (sem tanta inquietação),
pois existir assim é muito pouco:
vida minguada em constante contração.

domingo, 3 de maio de 2020 0 comentários

Informe


)
do Diário do Confinamento
(

Indeciso, titubeante, atrapalhado.
O contrapeso das dúvidas povoa meus dias.
No banho, tento caber
no magro diâmetro da água,
mas sobra corpo, ando
sobrando demais.

Nessa vida de parêntese sem par,
encerro o que continua inaudito —
num mundo em conta-gotas,
cheio de cismas e alarmes,
tudo é transitório, amorfo e impreciso.

quarta-feira, 29 de abril de 2020 0 comentários

Números


)
do Diário do Confinamento
(

Entrementes, no quebranto das notícias,
o extermínio galopante, implacável.
A fatura cruel de eleições sinistras
no recenseamento do luto inviável.
Sem adeus nas covas a granel,
a ferida fica aberta, inexplicável.
A morte virou estatística,
um desmazelo indesculpável.
Perdemos vidas, não cifras,
e não há planilha que nos seja razoável.

terça-feira, 28 de abril de 2020 0 comentários

Óbito alheio


)
do Diário do Confinamento
(

Sua explicação
esclarece,
mas o medo não
esvanece.

Não que acrescente
meu comentário
ao estritamente
necessário:
nunca sabemos quantos se vão
naquele que perece.

segunda-feira, 27 de abril de 2020 0 comentários

Intoxicação


)
do Diário do Confinamento
(

O entusiasmo é uma silhueta momentânea:
a dança faminta das notícias logo me paralisa.
A esperança envenenada pela instabilidade 

                                                                             [das coisas
depressa se torna fel, desamparo, ojeriza.


 
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