O tempo tem câimbras.
A noite se acomoda
como um corpo num banho,
exalando nuvens e luzes de carro
- tossindo pássaros.
A escuridão, como um abraço,
senta-se comigo e preenche o quarto
com esse estranho cio de silêncios,
onde as coisas são perdidas:
tardes de feriado,
o som de um velho vinil,
fotos desbotadas,
amigos de infância.
A lembrança se esfiapa em todas as direções,
como se eu estivesse guardando o mar
em alguidares de areia.
Tudo é líquido
e sem margens.
E o que a memória traz é um destilado:
construto de espelho e sombra,
um antilume íntimo
eclipsando esse momento sem nome.
Sou causa deste efeito,
tropegamente humano.
À hora em que não há socorro,
quem não consegue arcar
com o quotidiano ríspido
há que se asilar
no passado impregnado na pele.
Nossas despedidas cotidianas somente foram ensaios para a cena final : esse adeus numa manhã quarada de maio. Em tinta, a tez do luto sobre o papel. Sou todo ao convulso. Procuro razões. Não há mais como identificar a cor sem embalsamar o camaleão. O dia estaciona e a realidade desce em mim feito avalanche. Já não somos. Fomos.
Sol que vaza por persianas, um calor senegalesco. É inútil dissimular essa melancolia que invade a tarde. Crusoé das ilhas de concreto, tenho a trégua dos livros, as dobras de sombras nas paredes, o tempo que isso leva.
Pela janela com gradis, meu jardim alheio: um buquê de ixoras aflitas, um crisântemo aborrecido, lantejoulas de teias de aranha e a melancolia que se arrasta.
Tempo em pausa, um respiro, algemando o pensamento num embornal de cores.
e gestos anêmicos pontuando a reclusão: as quinas dos móveis rigorosamente perfiladas, a bagunça dos sentimentos em confusão. Movo-me em lapsos, sem pressa nem propósito, cozinhando em fogo lento a adiada refeição. Mas eis que a vontade moribunda à revelia dessa condição, quer abrir as janelas (como se o ar fosse puro) e a porta (sem tanta inquietação), pois existir assim é muito pouco: vida minguada em constante contração.
Indeciso, titubeante, atrapalhado. O contrapeso das dúvidas povoa meus dias. No banho, tento caber no magro diâmetro da água, mas sobra corpo, ando sobrando demais.
Nessa vida de parêntese sem par, encerro o que continua inaudito — num mundo em conta-gotas, cheio de cismas e alarmes, tudo é transitório, amorfo e impreciso.
Entrementes, no quebranto das notícias, o extermínio galopante, implacável. A fatura cruel de eleições sinistras no recenseamento do luto inviável. Sem adeus nas covas a granel, a ferida fica aberta, inexplicável. A morte virou estatística, um desmazelo indesculpável. Perdemos vidas, não cifras, e não há planilha que nos seja razoável.
O entusiasmo é uma silhueta momentânea: a dança faminta das notícias logo me paralisa. A esperança envenenada pela instabilidade [das coisas depressa se torna fel, desamparo, ojeriza.
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