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quarta-feira, 12 de janeiro de 2022 0 comentários

Obra prima



Graciosa e escultural
mente preparada.

Astúcia da beleza,
superlativa e única.

Prodígio extra
ordinário feito.


domingo, 12 de setembro de 2021 1 comentários

Afora



Respeito, antes de tudo:
gentileza em meio à raiva,
polidez, ainda que irritado
– pois a paixão é mesmo
esse fogo e o amor fica pouco
mais além, entremeado
de paciência e esforço.

Para lá das quimeras
de se estar sempre
certo ou errado,
há um campo
(como já disse Rumi)
e é só aí
que a relação floresce.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020 0 comentários

Amor posto


Você me beija
e em mim se instala,
sem cerimônia.

domingo, 30 de agosto de 2020 2 comentários

Este lado do paraíso


Não o beijo,
mas o calor dos seus lábios em minha pele.
Não o físsil de suas pernas,
mas o compromisso de mais estros arraigados.
Não a cópula,
só o cio que vaga lasso pelo corpo.
Cintila na íris o flerte,
dança de subentendidos.
No duelo com o desejo,
saco antes da dúvida:
com a língua em riste,
mergulho minhas papilas
numa galeria de obscurantismo
e viscidez, provo do sabor da fruta
à véspera do próprio açúcar.

De tal modo amo,
que faço o próprio Eros
abrir com faca
o esplendor de outra manhã.

quinta-feira, 30 de julho de 2020 4 comentários

Respiração


A ciência me ensina que o ar que respiro
são partículas ínfimas do cosmos
e, que tanto aqui, como em toda parte,
é tudo da mesma feitura e arte.
 

Colijo o universo no meu fôlego.

Não bastasse, a cada aniversário,
sou quase completamente diverso:
composto, permutado e reescrito
em diferentes estilhaços do infinito.

Reparto o universo no meu fôlego.

       Se cada coisa passa por mim,
       portanto estou em todo quê:

       imagino meus devaneios infantis
       hoje compondo o asfalto da estrada,

       meus desalentos adolescentes
       transfigurados numa tela pintada,

       e aquela intenção andarilha
       finalmente chegando onde era esperada.


segunda-feira, 22 de julho de 2019 2 comentários

Cerco



Pervicacíssimo,
seu perfume
ao derredor.
Confinamento,
que é só fuga
por todos

os lados.


sábado, 22 de setembro de 2018 2 comentários

Diamantina


Você não é nada simples.
A não ser que aceitemos
que labirintos são construções simples.


Um diamante multifacetado é simples?
Só aos olhos de um não entendedor.

Para um ourives,
é um milagre da geometria.

Para um físico,
é o carbono transmutado em brilho e luz.

Mas, para mim,
um menino que se pasma
com o que não entende
representa o brilho enclausurado
numa dureza externa.

domingo, 16 de abril de 2017 4 comentários

Diverso


De vez em quando, 
precisamos de um milagre às avessas 
para desnudar a linguagem, 
fazê-la durar por um minuto
: tão somente 
a vasilha com o vinho – 
uma recusa sacramental em se multiplicar, 
reclamando 
através disso 
um único pedaço de pão, 
um único peixe.

domingo, 3 de janeiro de 2016 12 comentários

Janela


A manhã,
que se forma já por dentro
consumida, sói
num solo de retinas
: dói nos olhos.


domingo, 9 de novembro de 2014 12 comentários

Farol


Estendo-me pela praia até o mar,
meus raios abruptos sobre as ondas
enrugadas como papel molhado.
Empoleirado em meu pedestal de granito,
eu rutilo contra o desarranjo das estrelas,
esquadrinho marés conduzidas
pelas excentricidades da lua,
escavo brumas
que se sedimentam para dormir
sobre o arrulho das águas.
Enquanto a areia e o oceano serenam,
eu sou um sol rápido
: varro o horizonte num bater de pálpebras,
adentro janelas casualmente encortinadas,
resvalando nisso e naquilo,
meu lume suavizado
pelos desgastes e usos frequentes,
amortizado em formas e talhes.
Eu me estiro em luz,
mas nunca longe o bastante
: eu não toco seu sono.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014 16 comentários

Prenda


No auge da tempestade,
saio para assistir
e, ao voltar,
trago no cálice das mãos
um granizo
do tamanho de uma bola de gude,
um gomo
caído das nuvens
fendidas por relâmpagos.

Fascinado,
eu me esqueço
da possibilidade de quebra
das vidraças, desconheço
as advertências de minha mãe
e seu rosário
a postos para oração,
o cobrir sobressaltado de espelhos 


                                                                (um caso antigo
                                                                entre minha avó
                                                                e trovoadas ancestrais).

Observo
meu bocado do firmamento
derreter – levo-o aos lábios,
provo dos ventos glaciais
e das noites polares.

Enquanto a chuva cai
mais suavemente
e o trovão ressoa
mais distante,
a tempestade se dissolve
doce
em minha língua.


quarta-feira, 4 de setembro de 2013 20 comentários

Grácil


Eu me pasmo à sua beleza
que só flecha e curare,
relâmpago que se abre
ante meus olhos
como Escritura,
soco no diafragma
que lateja
pelo corpo todo
e dói dias a fio.

Meu olhar excursiona
por sua pele e consigna
os detalhes
deste inefável deslumbramento
grácil
tornado carne e sangue.

O encanto é mais
do que posso suportar
e me pego
boquiaberto
(ante a exata noção)

: monumentos

já foram construídos
por menos.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013 14 comentários

Joias litorâneas


Nas praias vivem os arautos do tesouro
: meninos descalços, sem camisa, sem escola,
deuses da beira-mar.
No açoite das ondas nos rochedos,
a oblação do oceano
: estrelas-do-mar, caurins, conchas –
inteiras, infractas, resplandecentes.
 

A possibilidade polida               em turquesas marítimas,                                                           esmeraldas oceânicas,                                                           safiras pelágicas,                                                           variegadas gemas mágicas.

Transubstanciação, sortilégio antigo,

na solidão dos promontórios
eles fazem do que encontram
artesanato, colares e pulseiras.
Abrolham repentinos,
como se surgidos da própria viração.
No comércio convicto de seu engenho,
não regateiam talento, mas o preço,
durando apenas o enquanto
do negócio para, logo em seguida,
deixar apenas rastros difusos
a serem comidos pela próxima vaga faminta.


quinta-feira, 19 de julho de 2012 16 comentários

Nirvana de celofane


)
Nemo saltat sobrius.
Homens sóbrios não dançam.
(

O que eu queria, é claro,
era o ímpeto e o alcance do épico,
música pomposa, o sentido da vida
mesmo que perfumada
pela vastidão da morte.

Queria tudo isso
em três minutos e meio,
na abrangência de um poente.

Deixei-me ficar,
num favor de aragem,
no vermelho da tarde que se recolhia
no céu e me embriaguei
aquém das letras,
além deste idioma
feito de todos os poemas
que já li sobre o crepúsculo.

O que foi escrito
é insuficiente, precário e falto:
a feição do entardecer era
de páginas vazias em antecipação,
o branco incólume.

Sei que a linguagem é uma ameaça
que se abriga no que foi
empenhado nos textos
e que uma névoa de palavras, provocadas
pelos inconstantes ventos do sentido,
nunca fará jus ao que vi.

Mas que era bonito, isso era.

quarta-feira, 4 de julho de 2012 14 comentários

Liturgia


Um fulgor prematuro hesita lá fora,
na noite que esvazia suas estrelas
num borrão de alvorada.
A fina pele de vidro
deixa entrar um gris inegável
às 5 da manhã, que vem
à queima-roupa contra
o guardado escuro em que durmo.
Ganha uma escrivaninha, uma cadeira,
o quarto como que um
excêntrico experimento de desordem,
alvorecendo em pequenas somas
: uma casa, uma data,
um cortinado de clarão do dia.
Talvez seja isso a comunhão legítima,
essa vida que nos permite
a cada manhã
nova hóstia de sol.
quarta-feira, 13 de abril de 2011 16 comentários

Guloseima


 )
Para a minha amantíssima Ivany de Araújo Bonfim,
Dona Ervanildes,
vulgo “A Damascena”,
Tia maior
(

Dizer que ela é quituteira
é menosprezar o todo
de sua ciência. É claro
que ela negará essa informação,
como quem desdenha da própria receita,
contando que errou a mão.
Mas basta provar de seu gnocchi bolognese,
sua broa de fubá com erva-doce,
sua torta de amendoim
eternamente presente nos aniversários de meu irmão,
meu bacalhau com batatas
que fora marinado no leite
para perder o sal desde a véspera –
acepipes mil que se multiplicam
em cores e formas
na cozinha sempre atarefadamente alegre –
para se depreender a seriedade de haver paladar.

Ela vai dizer que são orexias de sobrinho,
a fome da saudade exagerando o sabor.
Não.
Pois mais do que a comida objetiva,
o doce e o salgado que desliza
em delícia pela língua,
é a receita da iguaria sempre
diferente que ela faz surgir
de seu desmesurado carinho
que me faz faminto por seus petiscos.


 
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