sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Desacerto


Declaro para os devidos fins
que estou num daqueles dias
quando o bom do diálogo
é obrigar o outro a calar a boca.
Portanto, fique quieto,
escute com os olhos;
saiba o que os gestos contam.
Não colora o silêncio com gracejos –
algumas coisas são melhores vazias.
Viciaram a roleta e querem
que apostemos o futuro –
o maior prêmio é um orgasmo
e um holerite no final do mês.
Tudo é cilada, não se engane.
Eu tenho comigo essa fragrância da recusa,
esse ódio aos limites, às mentiras deferentes,
à impostura diária, ao tato.
Naquele nível de consciência irrelevante,
senatorial, onde as questões
que o desejo já respondeu são
debatidas e tabuladas até mais tarde,
escolhi o longo caminho do exemplo
ao atalho do conselho.
Seja por inteligência ou por cansaço,
parei de tentar encaixar o redondo no oval.
No entanto, é vão
: toda descoberta se deteriora numa certeza,
e toda ideia numa ideologia.
Já me vendem ali na esquina,
numa barraca de camelô,
o rebelde em pechincha,
dois por R$ 1,99.


12 comentários:

Anônimo disse...

Caríssimo POETA,
Oportuníssimo o seu texto! Às vésperas da ELEIÇÃO PRESIDENCIAL ( segundo turno), sinto-me "impregnada" de falácias de campanha (sic!).
Reitero partes de seu poema:
"...E QUEREM QUE APOSTEMOS O FUTURO."
"EU TENHO COMIGO ESSA FRAGRÂNCIA DA RECUSA(...) ÀS MENTIRAS DEFERENTES..."
.....................................
Abraço, com admiração,
Andrea Marcondes

Fabrício César Franco disse...

Andrea,

Muitíssimo obrigado pela leitura. Acho que, mesmo muito indiretamente, como num poema, precisamos nos posicionar, politicamente. Apatia só serve para quem já está guindado ao poder, subjugando-nos.

Abraço, com carinho!

Raquel Sales disse...

Poeta,

Como de costume, texto excelente. Expressa bem os últimos dias... Carregados de certezas (ou fanatismo???) a ponto de azedar convivências.
Espero, sinceramente, que prevaleçam bom senso e tolerância.

Fabrício César Franco disse...

Raquel,

Obrigado pela visita. Sempre bom ter sua leitura. O poema foi meu desabafo ainda da última eleição para presidente, há quatro anos. Veja só, não mudamos em nada. Acho que até pioramos (o que esperar da próxima, então?).

Um abraço!

Rafaela G. Figueiredo disse...

É, é um desacerto sem lugar para caber. Acho q entendo, tão caro poeta.
Uma caixa de Pandora, em uma sociedade do espetáculo, e uma alma a lutar contra a pequenez...
Versos com força, Franco. Apesar de.

Abração

Fabrício César Franco disse...

Rafaela,

Sim, apesar de. Estamos. O somos não nos cabe mais. Transitórios e defectivos, seguimos, a passos trôpegos. Não sem vontade. A vontade existe. Só não sabe de que.

Abraço, com carinho.

Bruna Alencar disse...

Encontro-me assim ultimamente, os sons que anseio ouvir são aqueles provenientes do templo do silêncio. Cada vez mais raros...

Fabrício César Franco disse...

Bruna,

Muito obrigado pela visita e leitura. Que você possa encontrar seu templo do silêncio o quanto antes.

Beijo!

Anônimo disse...

"Escolhi o longo caminho do exemplo ao atalho do conselho". Taí uma frase que diz muito sobre você, poeta.
Mais uma vez, sua escrita foi certeira e extremamente pertinente.

Beijão,
Indie

Fabrício César Franco disse...

Oi, Indie!

Obrigado por deixar sua marca, aqui. Não sei se a frase, que diz sobre mim, é algo bom. É preferível eu tomar o atalho, então? Continuo no périplo?

Beijo, com carinho!

Tarciana Almeida disse...

Às vezes, mas somente às vezes, o redondo encaixa no oval... Resta saber se vale a pena continuar tentando...

Gostei muito do texto!!
Beijo!

Fabrício César Franco disse...

Tarci,

Ultimamente, as formas geométricas - mesmo as semelhantes - não estão se encaixando, que dirá as díspares.

Beijo!

 
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