quarta-feira, 13 de julho de 2011

Composição da cidade


À janela,
como James Stewart no filme do Hitchcock.
Deixo meus olhos disponíveis
e inauguro a temporada de observação
“comme il faut”.

A cidade é explícita
e não se faz de rogada,
revela-se toda.

A poluição que a veste
é uma forma dela se dizer,
uma apresentação.

Questão de personalidade,
de inerência. Porém,
e talvez por isso,
o verde prospera violentamente,
seduzindo a vista,
gulosa por sombra.
O amplexo dos bulevares
enche os pulmões de preguiça:
longos, lânguidos,
realçam o asfalto,
insinuando mistérios.

O que virá além da próxima curva?

O melhor que se faz aqui
é entregar-se às próprias pernas
e errar anônimo pelas ruas,
sem outra preocupação
que o repouso do espírito.
Isso proporciona a liberdade de movimento
que geralmente o trânsito subtrai ao passeante,
degradando-o a simples pedestre.
Passear é um ato gratuito -
sem desinteresse, não há contemplação.
E contemplar é o que se faz de melhor:
são muitos os rostos,
vindos de todas as partes,
Babel de origens.

Essa foi minha morada.
Cava e transfinita,
a cidade, à verve do texto,
se me impõe num ninho,
sob as imagens da retina.

(Volto à Ipatinga, 25 anos depois...
Cidade outra, 
ainda que a memória a guarde, 
mesma.)

10 comentários:

Van disse...

Ipatinga,
cidade do vale, cidade do aço.

Quem é de lá traz na origem, a vida que brota no vale e a força que faz resistir como o aço.

Beijos Fabrício!

Vanessa Souza Moraes disse...

A memória costuma adornar.

Fabrício Franco disse...

Vanessa,

Sei disso. Mas tive a oportunidade, reiterada, de comparar o lembrado e o real. O que há não é melhor nem pior do que me lembro. Apenas aterrorizantemente diferente.

Fabrício Franco disse...

Van,

Você tem razão nas suas palavras. Contudo (sempre há um contudo), eu venho de alhures, quase lá. A cidade me adotou menino. Não sou tão inoxidável quanto o aço proveniente do vale; se tanto, resiliente quanto o minério, ainda bruto.

Beijo!

Impulsiva disse...

Dois elementos aí sempre me seduzem em uma leitura, o primeiro é valorar o ato de observar o que está em volta, coisas simples, pessoas, rostos, olhares, paisagens, mesmo que não sejam as mais belas, para pelo menos tentar entendê-las, e isso quase todos nós deixamos de fazer na correria da vida.
O segundo é essa viagem de volta, a magia do reencontro com as lembranças que ficam congeladas na mente e no coração, mas agora com novo olhar, novas experiências. Adoro o cheiro de nostalgia, e mesmo não se tratando de lembranças minhas, adorei viajar com as tuas percepções...

Um abraço,
Kenia Araújo.

Fabrício Franco disse...

Kenia,

Fico feliz em saber que pude conduzi-la nessa pequena viagem. Obrigado pela sua visita e pelo seu comentário.

Abraço!

Raquel Sales disse...

Poeta,

Minha naturalidade é outra, mas vivo aqui faz tanto tempo que sou ipatinguense (por pior que isso possa ser).
É uma cidade estranha (talvez mais que as outras). Como você bem escreveu, aqui o cinza e o verde se devoram mutuamente de forma ímpar. Quase ninguém é daqui: as famílias (assim como as nossas) vieram de uma roça por perto (só muda o rumo da roça rsrsrsrs). Aqui o “pouso de água limpa” está castigado e secando (pobre Piracicaba!!!!). As pessoas se acham melhores que outras, apesar de serem quase todas assalariadas e empobrecidas pela crise. Até o nome da principal avenida resulta de um equívoco (foi batizada 1 dia antes rsrsrsr). Mas no meio desse aparente caos, construiu-se uma identidade que se mostra no congado do Ipaneminha, na banana frita do Parque Ipanema, nas quermesses das igrejas, nos botecos da vida, no hábito de ir ali, no vizinho, dar abraço no aniversário fazer um churrasquinho. Enfim, que se mostra no fato de haver tantos ipatinguenses (legítimos ou não) espalhados por esse mundão de meu Deus, mas que sempre se descobrem enraizados nesse chão.
Desvendá-la exige, realmente, andar por ai (mesmo que de carro rsrsrs)... Do Cariru ao Morro do São Francisco... Do Ipaneminha à Tribuna... Do Bom Jardim ao Bom Retiro... E perder o fôlego quando os ipês explodem, anunciando a primavera. E ver o sol (ou a lua) nascer sobre o Parque do Rio Doce (de preferência no Bela Vista que você bem conhece).
Enfim poeta: no peito dessa cidade de aço, bate um coração mineiro, que recebe visita na cozinha cheia de quitutes (mesmo que comprados na padaria da esquina). Não é uma cidade melhor, nem pior que outra. É apenas única.
Bj grande

P.s.: Espero que seus leitores não se sintam entediados, diante do meu bairrismo.

Fabrício César Franco disse...

Raquel,

Obrigado pelo comentário. Há lugares mencionados que eu desconheço, prova de que sou menos ipatinguense que você. De todo modo, nossas imagens da cidade se completam e me fazem concordar com você: "não é uma cidade melhor, nem pior, que outras. Única".

Beijo!

Raquel Sales disse...

Poeta,

Quase todos os lugares mencionados são do seu tempo. Alguns mudaram de nome. Mas nós, que morávamos do lado disciplinado da cidade-fábrica, não tínhamos humildade suficiente para descobri-los e perceber a sua riqueza. Do lado de lá, a cidade espontânea ferve.

Bj de novo

Fabrício César Franco disse...

Raquel,

Não é que me faltasse humildade. Faltava-me mobilidade. A Sayonara não nos deixava perambular livremente, e, também, a cidade oferecia pouco aos adolescentes, àquela época, senão nos seus círculos próximos de amizade, que, no meu caso, ficavam todos no chamado "lado de cá".

Outro beijo!

 
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