quarta-feira, 4 de abril de 2012

Xiita


Persisto na intransigência da expressão.
Escrevo a secas
meu desideratum:
aquilatar a frase
na lavratura da pedra,
galgá-la
nas cordas da tribulação,
domá-la
na beleza da precisa oportunidade,
e por fim
aguilhoá-la
na leitura alheia.

Se não me orgulho,
ao menos que não haja remorso
pois,
depois que sai,
não se pode recolhê-la
: é flecha lançada.

Na palavra deposito meu efêmero,
perpétua singradura de sentidos,
e traço as fronteiras de meu estado,
nômade e em constante exílio.

26 comentários:

Talita Prates disse...

tua palavra-flecha me alcançou, poeta,
e eu sou grata por isso.

abraço!

Fabrício Franco disse...

Poetisa,

Essa vida de arqueiro verbal tem, então, seus dias de sorte: cativei sua atenção! Quem agradece, portanto, sou eu, pela leitura generosa.

Beijo (à espera de mais escritos seus)!

Magda Albuquerque disse...

O poder que as palavras tem de carregar com elas toda a representação de um ser... Incrivelmente humano, poético!

Fabrício Franco disse...

Magda,

Nas palavras me decalco e edifico esta frágil estrutura que me cabe ser eu.

Obrigado pela visita!

Raquel Sales disse...

Fabrício,

Diante de tamanha destreza ao lapidar palavras, restam-me apenas duas: admiração, elogio. Não me atrevo a mais nada.

Que a lavra seja profícua.

Fabrício Franco disse...

Raquel,

A destreza se dá pela compressão e explico: de tanto fermentar seus sentidos em mim, as palavras vão se cristalizando, como contratura do carvão em diamante, a pedra em pérola. E tal como cálculos no rim, elas doem e pedem para sair, restando-me tão somente o trabalho de ourivesaria, lapidando aqui e ali, aparando arestas, até que seja.

Doença, ofício, sina: escrever é o que faço.

Abraço!

Rafaela Gomes Figueiredo disse...

não duvides, não, de que teu [pa]lavrar se inscreve para além dos teus monólitos - em mim, ao menos. em nós, ah, é notável!

beijo

Fabrício Franco disse...

Rafaela,

Se consegui, por um momento, aguilhoar sua atenção com minha lavratura, então consegui meu intento. É essa a eternidade que almeja todos os que escrevem (poetas ou não).

Beijo!

Will Carvalho disse...

Sempre que um poeta vai falar de sua escrita ele é intenso, né?!(como se não fosse em todo o resto) Dá pra sentir algo de luta, de busca, de procura, até de sofrimento. Lembro agora do Michel Melamed dizendo: "Eu escrevo. É minha função e objetivo, há muitos anos. A tábua de salvação para aplacar o desespero" e do Paulo Leminski "Escrevo. E pronto. Escrevo porque preciso, preciso porque estou tonto. Ninguém tem nada com isso. Escrevo porque amanhece, e as estrelas lá no céu lembram letras no papel, quando o poema me anoitece. A aranha tece teias. O peixe beija e morde o que vê. Eu escrevo apenas. Tem que ter um por quê?"

Fabrício Franco disse...

Will,

Sua análise, sobre a escrita do poema, é mais do que precisa. E citar Melamed e Leminski só tornou tudo mais factual, forte, incisivo. Ainda que não se precise de um porquê, procuramos por ele (como se isso nos salvasse ou redimisse do gesto de escrever). Obrigado, meu caro, pela visita e comentário!

Abraço!

Anônimo disse...

A luta com e pela palavra! ("xiismo" linguístico? /sic!)
..............................
De sua parte, POETA: profunda reflexão sobre a vida - o tema poético por excelência! E sobre a expressão dessa vida - por meio da constatação consciente do poema - quer na escolha e no arranjo das palavras, quer na própria disposição gráfica que o texto adquire.
De minha parte, sua leitora: emoção despertada pelo prazer estético que a palavra provoca!
Experimento , encantada, o aguilhão de seu poema!
Perdoe-me a crise verborrágica. Seus trabalhos me levam a esta manifestação. Prometo ser breve, da próxima vez.
Meu abraço,
Andrea Marcondes

Fabrício Franco disse...

Caríssima Andrea,

Não há (nem nunca houve) limites para os comentários. Escreva, sempre, o que lhe aprouver. Fico grato (muito!) em saber que suscitei tamanha vontade de me escrever. Já disse aqui e repito: esse é o espaço para o colóquio com quem me lê e quanto mais caudaloso ele é, mais me apraz. É para isso que escrevo, alcançar o outro. De alguma forma, falarmos o mesmo idioma, uníssonos na palavra.

Grande abraço, longo e carinhoso.

Van disse...

Oi Fabrício,

como arqueiro, nem Robin Hood alcançava tantos alvos quanto você.

Como poeta, capturas bem o momento. Poesia é a captura de um instante, nem mais nem menos.

Como lavrador, conhece mais que ninguém as terras áridas e sabe mais que todos como faze-las florescer.

Como domador, deixas entrever que a doma foi penosa, há suor seu misturado ao suor do animal domado.

Tenho a impressão que você deveria se orgulhar sim e muito, eu me orgulho de você, poeta, de participar deste processo de continuidade da criação que a leitura me possibilita.

Grande Fabrício, beijo!

Fabrício Franco disse...

Van,

Fico muito agradecido por suas palavras generosas. Escrevo não em busca de elogios; tão simplesmente para ser lido (e quiçá suscitar alguma reflexão). De arqueiro a domador (a palavra é fera, vive a nos espreitar, faminta de significados), quem escreve (você, também!) passa pelas mutações que o poema exige. O orgulho há quando quem nos lê consegue nos acompanhar nesse processo. Obrigado, de verdade, por isso.

Beijo, caríssima Van!

carla disse...

Fabricio! Sempre bom passar por aqui e ler tuas palavras e sabes porquê? porque a tua escrita é muito diferente da minha e é assim que se aprende mais e mais com a diferença que existe entre todos!


Passo para te desejar um bom fim de semana e uma Santa ´Páscoa!

beijo,Carla Granja

http://paixoeseencantos.blogs.sapo.pt

Anônimo disse...

Oi, Fab!

Fico sempre feliz quando posso ler você! Gosto muito da escolha do título, sempre tão certa! Filhas da tua alma agridoce, cada poesia tua traz o código genético de cada coração que aguilhoastes por teus caminhos.

Se o esqueleto é o mesmo, a carne sempre é diferente. No caso, aqui, sempre de primeira qualidade, digna de paladares aguçados.

Eu quis, como sempre, dizer uma coisa e disse algo completamente diferente. Viajar é minha fuga!

Obrigada pela beleza de sempre. Orgulhe-se! Você pode.

Beijo e carinho,

Patrícia.

Fabrício Franco disse...

Carla,

Também sou favorável à apreciação das diferenças de estilo, pois nisso aprendemos mais e até abrimos nossos horizontes, descobrindo que, na alteridade, existe o mais interessante da vida.

Beijo e obrigado pela visita!

Fabrício Franco disse...

Patrícia,

Por isso que gosto tanto dos seus comentários: o inusitado me encanta. E suas fugas são sempre muito divertidas de acompanhar, por aqui. Apesar de oriundas do outro lado do mundo, acabam por chegar num ponto comum, aqui. Muito obrigado pelos elogios (às vezes, acho até meio imerecidos), eles me estimulam a continuar.

Beijo, com carinho!

Su Palanti disse...

E nas palavras encontramos o conforto dos tempos e a agonia do imediatismo. Singrando o mar das ideias, nossa visão se expande, se contorce, se comove... Palavras escritas, letras doces...

Estou de volta,meu querido... Bem, recuperada (quase totalmente, exceto por uma dor nas pernas que será tratada com fisioterapia)e cheia de vontade de criar... rs

Bjusss

Nanda Melo disse...

Gosto tanto dos seus comentários nas minhas sertralinhas, que vim agradecer publicamente. No meio de letras bem desenhadas, sinto um carinho sincero. Deve ser bom conviver de perto com você.

Obrigada sempre.... por me compreender, mesmo não sabendo o que se passa em mim....

Um bjo.

Fabrício Franco disse...

Nanda,

Não há o que agradecer, no tocante às minhas visitas às suas sertralinhas. Gosto bastante de ler você, mais ainda de saber você mais vívida e animada.

O carinho é, sim, sincero.

Beijo!

Fabrício Franco disse...

Suzana,

Que bom saber dessas boas novas! É reconfortante perceber sua presença por aqui.

Beijo e melhoras constantes!

Angélica Lins disse...

Cativantemente humano e poético.
Inefável eu diria.

Sinto-me sempre honrada quando visita meu Vórtice.

Fabrício Franco disse...

Angélica,

A honra em tê-la por aqui é muito minha. Obrigado!

Fernanda Fraga disse...

Fabrício,
Que grandiosa divagação digamos assim.

Abraços querido.

Fabrício Franco disse...

Olá, Fernanda!

Vezes há que sinto-me propenso a isso, esse desvirar-me do avesso, esse buscar nas entranhas aquilo que me incomoda (ainda que docemente).

Abraço e volte sempre que quiser!

 
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