terça-feira, 2 de julho de 2013

Bancando Dali


Vou desenhar você em uma voluta árabe,
um sinete de dervixe,
minudências descomedidas se alastrando
da paleta para a flor da tela,
faminta por sua emergência
em forma e cor. Dos traços
rápidos para a delicadeza
filigranada do que se compõe,
definida pelo contorno
que minhas mãos captam,
clandestinos detalhes no mistério
de seu rosto acodem às cerdas do pincel
: uma beleza feito brasa
que queima seu tecido delicioso
no dentro do quadro.

Eu giro trôpego na órbita de seus olhos
                                             (transgrido as leis da gravidade)
e faço suas sobrancelhas
crescerem em arcos nítidos,
entradas para espelhos castanhos,
dispersos em oceanos de lágrimas.

Você assiste de esguelha
todo laivo e borrão que tracejo,
testemunha da configuração
de meu alento, a boca em V,
num veredito iminente,
a julgar minha febre de cores
na pressa de pegar o essencial de sua imagem.

Todavia, você,
ilustrada, sabe.
Não é você                       ali, 

                                             é o coração.

10 comentários:

Raquel Sales disse...

Fabrício,

Assim como Dali, o sentimento é surreal por natureza. Pinta aquilo que vê... Mas o traquina não vê com o cérebro e sim com a alma... A obra e a inspiração sempre lhe serão perfeitos e valerão milhões... E como isto é bom!!! Nos tira da mesmice...

Em tempo: belo texto...

Bj

Fabrício César Franco disse...

Raquel,

Assim é a percepção da gente, não é? Sempre traquinas, brinca com o que vemos e ouvimos, constrói uma realidade paralela. Meu texto é a tentativa - vã? - de refletir um pouco sobre isso...

Beijo e obrigado pela visita!

Anônimo disse...

Caríssimo POETA:
Sobre o texto, você disse ser "TENTATIVA de traduzir a imagem com palavras". Constato: a tentativa resultou em SUCESSO!
...................................
Ao lê-lo, me reportei ao que foi dito pelo Pequeno Príncipe (de Exupéry); e que, tenho certeza de que você leu, quando menino:
"Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos".
( "On ne voit bien qu´avec le coeur. L´essentiel est invisible pour les yeux").
Grande abraço,
Andrea Marcondes

Fabrício César Franco disse...

Caríssima Andrea,

Citações em francês - olha só! - são um engrandecimento e um golpe baixo ao mesmo tempo. Não sei responder à altura (falta-me conhecimento do idioma). Mas a citação foi, como de sempre, ao alvo: é exatamente como Exupéry escreveu (volto a pensar que nada que se escreva consiga ser original, há algum tempo).

Abraço, com carinho!

Anônimo disse...

Você é,de fato, tão criativo quanto Dali, mas a sua "pontaria" e sua "perfeição" nesse poema foram dignas de um Da Vinci.
Conseguiu esmiuçar cada detalhe, cada nuance dessa criaturinha que povoa sua vida e seus pensamentos.
Menina de sorte!

Beijo,meu poeta preferido!

Fabrício César Franco disse...

Querida modelo do poema,

Tentei recolher, em palavras, todas as tintas com as quais você tem pintado minha vida.

Beijo, com carinho!

Rafaela Figueiredo disse...

Isso!
Seguir linhas e curvas, onde a razão se perde, para retratar o coração...
Lindo, Franco!

Bjs

Fabrício César Franco disse...

Rafaela,

Obrigado pelo elogio. Devo lembrá-la que você, também, é perita nesse périplo de curvas e linhas, forjando novas formas para nosso deleite, como leitores.

Beijo!

Will Carvalho disse...

"No lo temo la aventura de vivir en un mundo surrealista porque mi espiritu no conoce otra verdad que la que me eleva hasta las fronteras de lo impossible.El dia que deje de soñar manda-me flores blancas." Dali

O racionalismo não aprendeu a pintar o que o coração sente.
O sentir é surreal.

Fabrício César Franco disse...

Will,

... Será que, talvez por isso, nossas (a)(des)venturas no amor sejam sempre tão complexas?

Abraço e obrigado pela visita!

 
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