quarta-feira, 1 de julho de 2015

Involução do espécime


Você,
que transforma a angústia
em saudável perspicácia e defende tudo
o que compreende em palavras:
       sua condenação virá pela língua,
       na erosão lenta mas indiscutível
       que dimana de cada decepção.

Você,
que consome informações
em crescente desgosto, sem ao menos
ter a percepção de como tempo devora
só os desamparados e se dá a si mesmo
seus próprios mandamentos –
[não sou  -fóbico ou -ista (insira aqui seu prefixo), mas...]:
       atente para o momento em que não fizer sentido
       a natureza das coisas crispadas em seu íntimo.

Não é preciso se apressar, nem jogar fora
a verdade mais persistente:
“amai-vos uns aos outros”,
“somos todos iguais perante a Lei”.
Só se lembre bem de como era a vida antes:
obscurantismo, ignorância, medo
da escuridão como devorador de gentes,
o trovão que era reprimenda dos deuses,
um panteão inteiro a idolatrar em sacrifício.

Diga-me então como você é capaz
de chegar a este ponto, para trancar
as portas da história e não se reconhecer
no seu povo – os outros! – e como
desaprendeu as lições.


12 comentários:

Raquel Sales disse...

Poeta,
Nestes tempos de irracionalidade, resta-me torcer para que o lema * amai-vos uns aos outros" torne-se realidade. Que a igualdade seja mais que uma palavra no dicionário.
Bj

Fabrício César Franco disse...

Raquel,

Nestes tristes tempos, o que percebo é que até ler sobre o assunto tem afastado as pessoas. Nunca vi tamanho desinteresse aqui no Logomaquia.

Fico feliz que, ao menos, você teve a paciência de vir e comentar. Obrigado!

Valença disse...

Fabrício, triste realidade, mas a espécime ainda evolui em outros aspectos, em outros meios. Que nos seja permitido sempre fazer parte desta outra tribo. Obrigado pelo convite à reflexão!

Fabrício César Franco disse...

Eliana,

Eu que lhe agradeço a vinda ao Logomaquia, deixar sua opinião. As pessoas não têm tido esta coragem de se posicionar, ou, quando a tem, acabam por se colocar erroneamente. Que façamos, sim, parte da outra tribo. E que esta não mingue, não se extinga.

Abraço.

Anônimo disse...

Caríssimo POETA,
Sem dúvida, o desrespeito ao próximo (seja ele quem é; e como é!) constitui FALTA GRAVÌSSIMA!
...........................................................................
A profundidade de seu texto me fez pensar, reler, analisar...
Só agora tive coragem de declarar minha "visita".
Fiquei , em princípio, como o personagem Fabiano (em VIDAS SECAS, de Graciliano Ramos): "...isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim,contanto,
etc. É CONFORME!"
Reafirmo o que você escreveu:
"a verdade mais persistente:
"AMAI-VOS UNS AOS OUTROS"
"SOMOS TODOS IGUAIS PERANTE A LEI".

Grande abraço, com admiração,
Andrea Marcondes

Fabrício César Franco disse...

Caríssima Andrea,

... A alteridade deve ser PRIMORDIALMENTE respeitada, ainda que não a compreendamos no todo. Aliás, a busca desta compreensão já traz, em si, todo um propósito de vida. Ser e deixar ser. Assim, as linhas paralelas possam, nalgum momento, se intercruzar, em respeito e tolerância. Que as verdades persistentes sejam vividas, em suas inteirezas.

Abraço, com carinho.

Ariana Zahdi disse...

Bravo!!!

Fabrício César Franco disse...

Ariana,

Muito grato pela visita!

Tarciana Almeida disse...

Olá Fabrício,

Ouvindo aqui a baiana Pitty, me lembrei imediatamente do seu poema quando ela disse: "Quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra". Ela resumiu bem a ideia do julgamento e da reciprocidade. O primeiro jorra em abundância, a segunda está realmente em falta.

Grande beijo!!
Tarciana.

Fabrício César Franco disse...

Olá, Tarci.

Obrigado pelo comentário. Sim, Pitty foi mais sucinta!

Beijo!

Rafaela Figueiredo disse...

Uma reflexão brilhante, Franco!
Pq une à poética natural de sua escolha de palavras o cru sentido da realidade.

Sempre me recompensa vir aqui.
Sinto falta, mas o mundo blogger anda distante do meu universo ultimamente...
Triste, mas verdade.

Um beijo grande

Fabrício César Franco disse...

Rafaela,

Espero que sua ausência seja temporária. Há, sempre, a necessidade de ser ler gente como você. Que não haja distinção severa entre os mundos, bloggers e outros. Que a poesia extravase os limites e caia um pouco por aqui, para nossa leitura.

Beijo grande, com carinho!

 
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