A tristeza vai nos sendo talhada no seio da noite: um sentimento fluido e denso que se alastra, minuto a minuto.
A escuridão, de encontro às vidraças embaçadas, é pontuada pelos esqueletos suspensos das constelações de Virgem, Leão e Gêmeos. A Lua transborda de saturação na miríada de poças que meneiam sem pressa pelo asfalto molhado. Nos delgados obeliscos de vidro e aço, brotando do solo como uma enfermidade de pele rumo ao céu escuro, as poucas luzes acesas parecem escarnecer do mundo tantos andares abaixo. As igrejas, com seus santos esculpidos (como se a sustentar nos ombros o peso da falta de fé dos transeuntes), não oferecem refúgio aos seus parcos fiéis. A luminosidade achacadiça de um neon semiapagado planta-me sombras pelo corpo, como vestes exageradas. E nisso sou mais um pelas artérias desse coração combalido a que chamam de metrópole.
) Poema escrito há 32 anos, ainda em meus tempos de faculdade de Comunicação Social,
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