domingo, 3 de novembro de 2019 2 comentários

Estudos para bico de pena



O traço que a caneta percorre.
As circunvoluções no improviso da folha.
Salvo um verso
do que era
apenas caligrafia.

domingo, 27 de outubro de 2019 0 comentários

Debalde


Não vislumbro razão 
no desenho em que os ponteiros claudicam, 
na sua obrigação 
de levar o destino a lugar algum.

domingo, 22 de setembro de 2019 2 comentários

Oblívio


A tristeza vai nos sendo 
talhada no seio da noite:
um sentimento fluido e denso 
que se alastra, minuto a minuto.

A escuridão, de encontro 
às vidraças embaçadas, é 
pontuada pelos esqueletos suspensos
das constelações de Virgem, Leão e Gêmeos.


A Lua transborda de saturação
na miríada de poças que meneiam
sem pressa pelo asfalto molhado.

Nos delgados obeliscos de vidro e aço, 
brotando do solo como uma enfermidade de pele 
rumo ao céu escuro, as poucas luzes acesas parecem 
escarnecer do mundo tantos andares abaixo.
As igrejas, com seus santos esculpidos
(como se a sustentar nos ombros
o peso da falta de fé dos transeuntes),
não oferecem refúgio aos seus parcos fiéis.

A luminosidade achacadiça 
de um neon semiapagado 
planta-me sombras pelo corpo, 
como vestes exageradas. 

E nisso sou mais um
pelas artérias desse coração combalido
a que chamam de metrópole.



) Poema escrito há 32 anos, 
ainda em meus tempos de faculdade de Comunicação Social, 
eu recém-chegado à capital mineira. (

domingo, 18 de agosto de 2019 2 comentários

Análogas



)
Para Indi,
admirável em qualquer idade
(

A menina agrilhoada
na mulher despontada:
eis a luta travada.
A menina é arteira, sagaz,
dribla a mulher sem deixar-se tocar.
Mas a mulher é astuta,
troça da menina,
deixa pensar que se engana.
A menina apronta. A mulher se revela.
Peleja em vão, luta desconexa, sem fáceis triunfos.
Mulher, menina, ambas a mesma...
Subversivas? Desejantes!



 
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