quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023 0 comentários

Na comissura entre o texto e o leitor


Não é o curso irrefreável da natureza,
sequer uma epifania ou a contrafação
de um diamante. É, se tanto, uma busca
de resposta, aflição epidérmica que só
é abrandada ao rebojo do que escrevo.
Pois tudo o que se diz tende (e propende)
ao poema, e à tona de um momento
qualquer existe o alento da poesia.

Palavras são biodegradáveis e o texto é
fugaz no espaço a que se reduz nesse ruído
de fundo, grande supermercado cognitivo.
Eu escrevo na tentativa de gerar uma flor
no bocejo de quem me lê: atenção raptada
e mantida refém pelo tempo de um enquanto.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023 0 comentários

Ode (mínima) à inércia


Estático,
                  extático.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2022 0 comentários

Refrão


Vai dar no que der,
seja lá o que for
o que tem que ser:
nunca é indolor.

No fim das contas,
a gente já sabe:
aguentar as pontas
é o que nos cabe.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022 0 comentários

Formosa


Ninguém mais se lembra do nome da ilha;
se tanto, usam para falar da sobrinha, ou da filha.
Para mim, tem um quê de plenitude da ideia,
teor e forma em cima de mesma boleia
– trazida à baila sem raiva ou agressão,
o argumento para além da mera opinião.

Pois ter ideia, mesmo aquela que desabe,
no país onde a raiva é contra quem sabe
é de uma audácia sem tamanho: intrepidez.
Dia a dia, contra a truculência da estupidez,
tão-só estudar, refletir e negar a impostura
é buscar a liberdade frente à ditadura.

A ideia precisa, repito, vai além da crença
e a verdade – bela! – só é possível quando se pensa,
mesmo e sobretudo quando a situação é tensa.

 
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