domingo, 23 de outubro de 2011 8 comentários

Algo ágrafo


Minha vontade estende 
seus olhos longos para a folha.

A introspecção da paisagem:
fazendo massa crítica para escrever.

Olímpica em sua indiferença,
a musa fica lívida:

e me dá um branco.


sábado, 15 de outubro de 2011 8 comentários

Lá fora


Desde que comecei a escrever
(e provavelmente muito antes disso)
as palavras “lá fora” parecem carregar
mensagens distantes, como se um estranho
poder emanasse delas quando eu as digo
sem pressa ou as escrevo, cedendo ênfase
igual às duas palavras curtas.

Ao longo dos anos,
fui aprendendo de onde vem esta carga,
de que paisagem deriva seu clarão sobrenatural.

Em memória, eu retorno
à minha cidade natal e vejo,
da janela de casa,
minha mãe partindo para o trabalho,
aquele gosto estranho de mundo
amplo se estendendo
sem fim para além
das minhas possibilidades de despedida.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011 8 comentários

Peregrino


Estou no precário
de estar sem rumo,
onde a passagem sabe
das sendas que os meus pés
não mais abordam.

Eldorado,
Hespéria,
Pasárgada,
Cólquida,
Xangrilá,
reinos miríficos e mundos arcanos
já receberam a visita
de minha mala sem sossego.

A promessa de chegar
afasta o cansaço
das minhas solas gastas
e faz afluir o perto.

A distância é uma fronteira
em dissolução e assoma
como o regresso
prevalecendo-se dos passos.

Atrás de mim
seguem as pegadas
a caminhar pelas reminiscências
de meus roteiros,
a relatar não mais
que minhas trilhas imaginárias,
o fascínio de meus trajetos,
a tenção de meus andamentos,
meu sestro de andarilho.

 
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