segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

'Poiesis'



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À la carte para o leitor
(

A poesia tornou-se performance,
um duelo sem muitos direitos:
a última do Lácio não é mais flor.
Sobre o pavimento da folha
(este pedaço de todas as interrogações),
o único expediente
é recuperar a palavra
dispersa na mídia hansênica.

Acima do discurso tísico
deste milênio que estreia,
fazer poesia
é inventar a carne.


24 comentários:

Su Palanti disse...

Das rimas tísicas dos versos de outrora, brota uma criação quase hercúlea de deleite mais que de transição... Quero ficar neste mundo de hoje como se ele fosse apenas palavras... Palavras soltas aos ventos, que nos atingem como flechas de um Cupido maroto e quase inconsequente.

Rafaela Gomes Figueiredo disse...

é aquela história, lá da linguística, de corporificar a palavra.
mas aí a gente - q é poético - acredita q é para dar melhor sentido, associando-a à estrutura do nosso próprio corpo - o filho parido!

beijos

Fabrício Franco disse...

Su,

Que consigamos vestir o cotidiano de poesia, ainda que haja tanta força contrária.

Obrigado pela visita!

Fabrício Franco disse...

Rafaela,

Acertou em cheio. E até diria mais, além de corporificá-la, evangelicamente compartilhá-la, dividindo-a com os leitores. Uma missão, digamos, quase além de nós, pobres 'parideiros' de palavras. Mas, ainda assim, isso não nos esmorece, não é?

Beijo!

Anônimo disse...

Sim, é preciso "recuperar a palavra"!Como tudo que é humano,o IDIOMA nasce, cresce, EVOLUI...(e, vez em quando, esta evolução é desastrosa). Como você escreveu "o discurso tísico", " mídia hansênica"...Mas o que nos conforta é saber que há pessoas , como você, capazes de resgatar a ARTE DA PALAVRA. O título de seu poema o comprova: POIESIS ( do grego): arte de escrever em verso/ aquilo que desperta o sentimento do BELO!( É o que você faz, POETA!)

Meu abraço,
Andrea Marcondes

Fabrício Franco disse...

O bom de seu comentário, cara Andrea, é que ele é a glosa do meu texto. Fico muito feliz e honrado por tê-lo!

Obrigado, sempre e mais, pelo elogio. Tenho me sentido sim, a cada dia, um pouco mais poeta. Admissão de culpa ou aceitação de sina?

Abraço, com carinho!

Raquel Sales disse...

Fabrício,
Depois da atribulação desta 2ª feira, só tenho forças pra comentário breve. Vc “inventa carne” com muita habilidade e ainda dá de presente pra gente ler... Obrigada pela gentileza! Até mais.

Fabrício Franco disse...

Raquel,

Quem agradece a gentileza sou eu. Ter uma leitura tão generosa quanto a sua não é para qualquer um. Dá até gosto inventar (e reinventar) a carne assim.

Inté!

Contradita disse...

Não sei se parimos as palavras ou se somos expelidos pelas palavras carnívoras.

Sei que de qualquer forma, ler você é sempre surpresa grata e ter a carne reinventada, ter as idéias reajustadas, certezas confrontadas.

Disso, sei. O resto, ah o resto que seja poesia.

Bjo

Fabrício Franco disse...

Lory,

Gostei da sua última frase: "o resto que seja poesia". E se assim for, que tudo o mais seja o resto.

Beijo, com carinho!

Van disse...

Oi Fabrício,

e você inventa tão bem a carne, que torna-se alimento saboroso lê-lo.

Que a poesia nos alimente e salve-nos das tantas fomes deste milênio. Que você cada vez mais sinta-se alimentar e, alimentado pela poesia

Nada do que eu diga expressa, pois poesia não cabe em verdades, nem em discursos, poesia simplesmente não cabe: é a parte transbordante da nossa vida.

Beijos!

Anônimo disse...

Poesia é arte. E tem que saber fazer. Postei hoje mais cedo no twitter que uma pessoa que eu gostava muito me pediu uma poesia de presente de aniversário. Fiz. Ele me agradeceu e nunca mais falou comigo. A conclusão que eu tirei é que sou um fiasco nesse ramo. Não rolou trauma mas a confiança ficou levemente abalada.

Não creio que tenhas história semelhante dada a maestria com que te conduzes, reinventando a carne, as manhãs e as noites; e moldando teus sentimentos e dos teus leitores de forma tão confortável.

Obrigada por isso.

Beijo, poeta!

Patrícia

Fabrício Franco disse...

Van,

Transbordemos, pois!

Beijos!

Fabrício Franco disse...

Patrícia,

Eu que agradeço, sempre, pela leitura atenta e generosa. Poesia não advém só de quem a faz, mas muito principalmente de quem a lê. A construção poética é de duas vias; sem o eco da leitura, o poeta é mudo.

Beijo!

Anônimo disse...

Perfeito.
A coisa mais bonita que ouvi nos últimos tempos, e que está em consonância com o seu texto, foi: "o mundo precisa ser recriado de forma poética"...
Concordo muito.

Amo a palavra "poiesis"

Ass.,
Leilane.

Fabrício Franco disse...

Obrigado, Leilane. Temos, como Kipling disse uma vez, "a mais poderosa droga" (no sentido farmacológico) em nosso poder, que são as palavras. Saber dosá-las podem nos curar. O mal uso pode nos envenenar. Que saibamos a dosagem perfeita.

Beijo!

Anônimo disse...

Só digo uma coisa, para ampliar o nosso olhar, a poesia não está só nas palavras. A poesia é um meio de vivermos artisticamente, de contemplarmos a profundidade e a metáfora das coisas, de olharmos o mundo de forma mais bela, cuidadosa. Façamos, como disse Foucault, de nosso ser uma obra de arte. É nisso que acredito.

=)

Lei Paixão.

Fabrício Franco disse...

Lei,

Foucault tem razão. Corporificar a poesia é uma bela meta de vida; contudo é importante notar que há diversas formas poéticas, e não somente aquela que edulcora as coisas vistas, provadas, ouvidas, sentidas. Há a poesia-manifesto, a poesia-luto, a poesia-para-momentos-sem-razão... De fato, há quase uma infinitude de formas, uma - talvez - para cada emoção que sentimos. Como eu li recentemente, "não confundamos poética com melosidade, rica em clichês e chavões". Escrevamos, todos os dias, a poética da diferença.

;)

Anônimo disse...

Adorei! ;)


o que amo em viver de forma poética é a não necessidade de entender as coisas.
não entendo exatamente o que Foucault quer dizer ao propor que façamos de nosso ser uma obra de arte, mas sinto haver em mim uma pré-compreensão, que me passa por outras vias de sentido, que não a lógica, racional, explicativa...

gosto dessa leveza que viver poeticamente possibilita.

e se levar ao pé da letra o que eu quis dizer, não vai compreender...


Ass: Lei!

Fabrício Franco disse...

Lei,

Você resumiu, muito bem, quando diz que gosta "dessa leveza que viver poeticamente possibilita". É isso, tão somente.

Beijo!

Talita Prates disse...

Acabei de ler a @nao_toda: "Duvido da minha existência quando não escrevo."
Penso que isso complementa o que a tua poesia, linda e pertinentemente, me diz.

Um beijo, poeta.

Fabrício Franco disse...

Talita,

... Outra parte no quebra-cabeças que é essa comichão de todas as horas de verter palavras para o papel (celulósico, eletrônico). Sou como a Alicia, minha existência é dúbia sem o escrito.

Obrigado pela visita e comentário, Poetisa! Beijo!

Fernanda Fraga disse...

A literatura é livre por natureza. Cabe ao leitor entender ou deixar de entender. Guardar ou esquecê-los. Já dizia Wanderlino Arruda.

Abraço

Fabrício Franco disse...

Fernanda,

Essa afirmação me dói um pouco, eu lhe confesso. Embora eu saiba que, em tese e em gênese, a literatura é livre (tanto para quem cria como para quem consome), ao longo da vida me eduquei para a literatura funcional, ou seja, para quê (quem) se escreve. Nenhum texto deve ser em vão, não se deve desperdiçar palavras. Ainda menos, poesia. Entristece-me saber que uma poesia genial foi publicada alhures e ninguém a leu. Que passou desapercebida. Ou que se deu valor maior a vacuidades e destrambelhos mais amplamente publicados...

De todo modo, agradeço muito sua vista e comentário. Seja muito bem-vinda por aqui!

Abraço!

 
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