sábado, 4 de fevereiro de 2012

Da litocronia


As pedras escorregadiças, 
lustradas por anos de conflito. 
Aguerridas, iludem o tempo 
enfrentando-o de frente, 
minério contra o vento, 
contra a chuva, 
expondo todos os achaques 
e tormentas que esfolam 
cada aresta com um toque 
não muito distinto do de um Michelangelo. 

Ainda assim, o ar 
é teimoso em sua insistência: 
quer assinalar as pedras 
com a rubrica do envelhecimento, 
como um encarcerado 
que decompõe a idade que lhe resta 
em linhas e traços. Quando o sol 
começa sua descida lenta, 
ornando o ar de ouro e cinabre, 
as pedras recortam a paisagem, 
severas e estoicas, sem saber 
que somos nós 
os interinos no crepúsculo.

22 comentários:

Will Carvalho disse...

"Posso ouvir o vento passar, assistir a onda bater, mas o estrago que faz, a vida

Contradita disse...

Acho as pedras um exemplo incrível para a necessidade de mudança.

É, pois mesmo elas não são sempre as mesmas.

Com toda sua força e dureza, são moldadas pela ação do tempo.

Deveríamos seguir seu exemplo, nos permitir mudar, mesmo quando lasca e machuca.

Incrível esse texto.

Um beijo

Fabrício Franco disse...

Will,

Ousamos nos imaginar eternos, nesse ínterim ínfimo que nos foi dado para viver. A vida é - mesmo! - eterna no enquanto fazemos dela algo significativo.

Abraço, e obrigado pela visita!

Fabrício Franco disse...

Lory,

"Pedras que rolam não criam limo". O ditado vem de muito. Isto posto, acho que até somos mais lenientes do que nos fazemos acreditar. Pois a vida dita, e se não seguimos seus ditames, acabamos por sofrer a mudança, ao invés de ter prazer com ela. Aceitar que tudo é mudança, até o (nosso) fim. É isso.

Obrigado pelo carinho!

Beijo!

Raquel Sales disse...

Fabrício,

Eu poderia passar horas discorrendo acerca dos aspectos físico-químicos do intemperismo e suas consequências para a vida (minha praia, vc bem sabe). Mas, como nem sempre a ciência condiz com poesia (e seus leitores odiariam), limito-me a dizer que as pedras ouvem e sussurram entre si, enquanto riem da efemeridade humana. E a gente ainda se acha importante. Quanta pretensão!

Bj

Fabrício Franco disse...

Raquel,

Há certos comentários que sobrepujam o post. O seu é um deles. Acredito que os leitores se sentiriam brindados com sua visão sobre o intemperismo. A ciência pode (e deve) ser poética.

Obrigado pela sua visita! Volte sempre!

Abraço!

Anônimo disse...

Fabrício César,
Você, poeta que vem Minas Gerais...que viveu sua infância podendo ver da janela a majestosa ITAÚNA (pedra negra), constrói muito bem a metáfora da pedra, do minério, na "simbologia' da vida.
E nós, humanos, apesar de frágeis, tentamos resistir aos desgastes do tempo, como se fôssemos rochas... Mas SOMOS OS INTERINOS DO CREPÚSCULO(como você escreveu!)
Ainda bem que a capacidade de apreciar o BELO nas palavras, na VIDA, permanece!
Grande abraço,
Andrea Marcondes

Fabrício Franco disse...

Andrea,

Tendo vindo de Minas (de onde até o nome sugere a ligação telúrica), nascido - como você lembrou - à sombra da Itaúna e crescido numa cidade cuja vocação é transformar o minério em aço, não poderia me escusar de ponderar sobre a pedra. Ela, que também é a vertente mais forte da minha educação poética ("pela pedra", como escreveu João Cabral de Melo Neto). Somos breves ("ars longa, vita..."), mas com tempo suficiente para significar. É nesse enquanto que me decalco.

Abraço, com carinho!

Su Palanti disse...

Pedras... Sempre pensei nas pedras como se fossem testemunhas de vidas incontáveis que jamais poderíamos fazer ideia. Cada brilho que emanam no sol moribundo de final de dia e´uma demonstração de força vital que nenhum de nós, reles humanos, jamais teríamos.
Bjuss.

Fabrício Franco disse...

Su,

As pedras nos recortam na paisagem, mostrando-nos que a durabilidade não está em ser rijo, mas em saber perder partes de si sem deixar a integridade perder-se.

Beijo e obrigado pela leitura!

Anônimo disse...

Tá aí. Eu me sinto pedra o tempo todo. Tão vulnerável à ação do vento, do tempo, da água... Resisto, resisto, mas não consigo impedir minhas mutações e vou me deixando mutar... A grande angústia é sempre a que momento será a próxima tormenta, tempestade, que fará meus grãos de areia se desprenderem de mim, assumirem outros contornos, me desfazendo, me refazendo, me conferindo uma nova identidade, a qual eu nunca posso me apegar. Volta e meia muda. Mas, sei lá, pedra é forte e os grãos parecem frágeis... ora sou pedra, ora sou grão. Mas, sem a vulnerabilidade de meus grãos não posso ser pedra mutante. Daquelas que quando a gente procura no tempo, não reconhece mais sua antiga forma/fôrma.

Lei.

Fabrício Franco disse...

Lei,

O que está vivo flui, molda-se. Só o que já morreu enrijece. Deixe-se esculpir pelo que vive. O tempo, a vida, a Divindade (seja lá como se queira nomear) é melhor escultor que nós. Nosso mármore é para ser talhado.

Beijos!

Van disse...

Oi Fabrício,

bela a sua forma de confrontar a transitoriedade humana com a atemporalidade das pedras.

Lindo texto.

Beijos

Fabrício Franco disse...

Van,

Muito obrigado pela sua visita e comentário. Fico envaidecido!

Beijo!

Anne Barreto disse...

Pedras. Brutas, preciosas, lapidadas, etc. Assim como seres humanos!
Adorei o texto! =)

Fabrício Franco disse...

Anne,

Seria mais fácil até se fôssemos como elas. Temos o mesmo valor das mais preciosas (até mais!), mas também nos embrutecemos à dureza e capacidade de corte das mais afiadas. O lado ruim? É que elas não sentem nada disso, nós sim.

Beijo!

Rafaela Gomes Figueiredo disse...

que, assim, não endureçamos.
e que teus versos fiquem gravados no tempo.
amém!

lindo poema.

Fabrício Franco disse...

Rafaela,

Que não endureçamos!

Obrigado pelo olhar gentil sobre minhas palavras. Fico muito grato!

Beijo!

Anônimo disse...

Limar e rimar
Mundo vasto mundo
Por mais que se cave
Nunca se chega ao fundo... 

Quantas vezes já ouvi: teu coração é de pedra! Tolos, todos! Pode até ser forte como as pedras desse poema lindo; pode ser resistente à lâmina de qualquer vento mas no fim é só areia mesmo, que derrete, vidrifica e quebra. Quisera ser como as pedras de fato que, paradas, entre  as maiores tempestades, não sabem o que é sentir. :)

Fab, não preciso falar de como amo teus pensamentos, né? Juro que se topar por aí com a Medusa em pessoa, e ela me oferecer o 'ser pedra pra não sentir mais', não vou aceitar só pra poder passar sempre aqui. :)

Beijo. 

Patrícia

Fabrício Franco disse...

Patrícia,

Que não haja Medusa então, para sua volta ser uma constante por aqui. Seus comentários enobrecem muito o que escrevo; fico honrado, de verdade.

Beijo!

Solange Maia disse...

Fabricio...

há o tempo, a solidez, as renúncias, a vastidão, a permanência, os paradoxos.... tudo isso em sua pedra !!!!

que incrível. amei.

beijo e parabéns !

Fabrício Franco disse...

Olá, Solange!

Seja bem-vinda ao Logomaquia. Há, mesmo, tudo isso que você elencou, nas pedras de todos nós, sejam elas aquelas no meio do caminho, dentro do sapato, ou simplesmente aquelas que compõem a paisagem de nossa travessia.

Obrigado pela leitura generosa. Volte sempre!

Beijo!

 
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