domingo, 29 de janeiro de 2012 24 comentários

Verbo


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012 20 comentários

Bula


Cumpro a sina,
sem dor
nem amargura:
plausível tudo.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012 20 comentários

Hermético


Ela me telefona 
para dizer que me leu. 
E que continuo 
para poucos.

Esotérico. Não 
facilito as coisas 
para meus leitores. 

Ela é gentil 
ao colocá-los 
no plural. 

Mas isso não 
é surpresa, ela é 
assim há coisa 
de muito tempo. 

Em minha defesa, 
devo dizer que o sentido 
do que escrevo está 
circunscrito pela percepção 
- melhor, pelo indiscernimento - 
do que seus olhos 
arrecadam por instantes, 
uma atmosfera mais 
do que uma 
ciência exata. 

Que você me leia
à margem do texto, 
que eu me abandone 
à castidade perversa 
do nexo recusado. 

Pois, lembre-se, 
de nada adianta a glosa 
- a própria tradução 
faz nascer o intraduzível. 

E eu tenho 
esse teimoso apetite 
que galopa pelo texto, 
que se esbate 
contra as jaulas da mesmice 
e as coleiras do já visto: 
em algum lugar 
nas frestas da prosa 
devem surgir as palavras 
resgatadas da prisão da página, 
pelo ato de se as ler. 

As coisas vivem 
pelo ofício do cotidiano, 
existem de passagem. 

Qual meu revide, 
meu desagravo 
- a desforra? 

Essa intrincada construção 
de frases que mesclam 
esperanças malogradas 
e felicidade efêmera, 
que de fora parecem 
imponderáveis e
intimamente desejam 
que a lisonja possa me fazer 
perdurar no eterno 
da intensidade 
de sua leitura.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012 22 comentários

O rumo dos remos



terça-feira, 17 de janeiro de 2012 14 comentários

Relicário


Água trazida como relíquia num cálice. 
Bebi metade num gole contínuo 
– não por avidez, 
mas porque o dia estava quente. 
Aqui, 
todos os dias são quentes, 
aliás. Então, 
esbaforido, o telefone tocou 
– quem, não me lembro. 
Sustei o trago. 
Coloquei o copo 
para obscurecer-se no balcão 
enquanto eu me comovia 
com alguma incumbência 
proposta pela minha impressionabilidade. 

Estive fora o dia todo. 

Quando voltei, lá estava – 
esquecido, escorregadio, 
num anel escuro de descuido 
– evidência muda da minha sede remota, 
agora à temperatura ambiente, 
metade de puro nada. 

Não foi tarefa pouca, 
nesse momento, 
alcançá-lo e sorver tudo.

domingo, 15 de janeiro de 2012 20 comentários

Lepidopterologia



A borboleta tem seu lugar na psicologia 
não por sua fase de crisálida,
seu intrincado mudar de pele,
também notadamente por sua fase de pupa,
temporada de paralisia integral da vontade.

Fascinados, estudamos os sonhos
frustrados da lagarta, que correspondem
tão mal a seu desajeitado corpo preso à terra.
Observamos
como o conflito aparentemente insolúvel
entre aspiração e realidade termina,
afinal, em resignação total, enquanto
a criatura deixa de comer, tece uma mortalha
ao redor de seu corpo, e se prepara para morrer.

Contudo, naquela condição mirrada,
quando a pupa pode ser classificada e posta
em mostruário, algo inesperado, totalmente
imprevisto, ocorre que nos dá o direito
de acreditar no impossível.

Dizem que Psique significa "borboleta" –
cautelosamente ela rasteja de seu casulo,
sua pré-história, desfralda suas asas
e se arroja ao vento.

Eis o que quero
: meu poema que só mortalha caída no chão,
a verdade concreta e póstuma das palavras
ficando para trás, enquanto
o significado finalmente voa para fora da linguagem,
reafirmando sua paixão acesa e aturdida
nos olhos de vendaval 

de quem me lê.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012 12 comentários

Um livro na estante


Uma estória de guerra, seu significado.

Ou já que o significado escapa à guerra,
o que ela fez à aparência das árvores
e aos edifícios, a maioria dos quais sobreviveu
como relíquia para visitação à distância,
e serem demolidos anos mais tarde
para que a rua fosse alargada
ou que se construísse
um novo complexo de escritórios.

Lá estava, na estante.
Comprado numa liquidação
e que ninguém havia lido.
Praticamente novo, a lombada intacta.
Mesmo eu, só olhei as figuras,
a quantidade de páginas implacáveis.
Talvez houvesse algo relevante e raro
disperso nos parágrafos,
um toque de argúcia nos títulos longos,
aquela transcendência que algumas
frases nos trazem ao final dos capítulos.

Não sei.

Quando o guardei de volta ao seu lugar,
o homem da capa ainda sorria
apesar de saber tão pouco do que viria,
mesmo sendo personagem principal da situação.

Como nós,
que ainda não lemos o livro.


 
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