quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Comercial de sabonete

)
O que há entre o nirvana e o nihil?
(

De tudo sobrou
trinta segundos de vídeo:
um ramalhete de flores
e as mãos dadas
em dimensão de lente.
Uma imagem vivaz,
uma forma de exultação,
uma figuração de prosperidade.
 

Achávamos que o futuro era
confiadamente nosso, um fato
consumado, dogma, uma verdade
absoluta. Só que, vezes sem conta,
o verdadeiro não é verossímil.

Por mais funda,
mais alcança esta certeza:
quem espera, corteja
a frustração das coisas
que jamais se realizam.
 

E naquele mísero meio minuto,
toda a fulguração de uma vida a dois,
quizílias e consonâncias.

Agora, há apenas uma rosa,
tardia e murcha
: os felizes estão no vídeo.


16 comentários:

Anônimo disse...

Há tempos n lia verdades ditas ão lindamente. Música para os olhos. Bj. Ana Paula.

Fabrício César Franco disse...

Ana Paula,

Obrigado pelo elogio. Fico mais feliz em saber que você me lê.

... Que esta seja uma de muitas de suas visitas (e comentários) por aqui.

Beijo!

Raquel Sales disse...

Poeta,

Por coincidência, enviaram-me uma variação sobre o mesmo tema...

“sob as flores das camisolas
– pequenas, iguais –
duas solidões
guardadas
lado a lado”

Poemas primorosos, mas ambos doloridos que só...

Bj

P.s.: Segue o link do texto na íntegra: https://dl.dropboxusercontent.com/u/1393734/Leve%20um%20livro/ed_02.pdf

Fabrício César Franco disse...

Raquel,

Durante algum tempo (e há alguns dias, vezenquando) que eu achava que poemas doloridos eram os únicos, ou os mais dignos, a serem escritos/lidos. Afinal, felicidade, seu contraponto era para ser vivida. Porém, escrever sobre o sofrimento, embora seja um bom modo de nos 'limpar' do sentimento - ainda que lento -, não o faz sumir ou não nos torna mais prontos para o próximo baque. E felicidade, também, precisa ser dita, promulgada, propalada, até para que - de tanto chamada - nos venha.

Obrigado pela citação e pelo link, ótimo, da coleção de livros.

Beijo!

Raquel Sales disse...

Poeta,

num mundo de dureza, crueldade e amargor, há que se versificar a beleza, a doçura e a felicidade (mesmo no diminutivo). Assim, você torna os nossos dias de leitores mais tragáveis.

Outro bj

Em tempo: você sempre instiga a minha alma. É sinal de que escreve bem sobre qualquer tema.

Fabrício César Franco disse...

Raquel,

Obrigado, deveras, pelas palavras de motivação (elogio é motivação!).

Outro beijo!

Anônimo disse...

Caríssimo POETA,
"Dum vivimus, vivamus." (Lembra-se?)
É por isto que tenho exercitado o "nirvana" , em cada momento (mínimo que seja) de alegria e paz.
Niilismo, jamais!
......................................
(Como sempre, a metáfora instigante do título do poema! )
Grande abraço,
Andrea Marcondes

Fabrício César Franco disse...

Andrea,

... Sou feito de cicatrizes desses relacionamentos desfeitos. Acho que é a minha marca, senão maior, mais visível. Dos filhos de minha mãe, sou o oposto do mais novo, assentado e, apesar das dificuldades (quem não as tem, num relacionamento?), constante na feitura de sua vida a dois. Eu não tive essa sorte (ainda?).

Daí que escrevo sobre o que ficou em mim, destroços e projetos de reconstrução. Que haja mais destes, a partir de agora.

Meu abraço, com carinho!

Rafaela Figueiredo disse...

todo registro é como evidência viva, mas a sua rosa... deixa uma ponta de despedida.

lindos versos, Franco.

bjo

Fabrício César Franco disse...

Rafaela,

... Era a intenção. Há de existir ainda uma despedida que não seja triste, amarga, angustiante (embora algumas nos sejam libertadoras).

Obrigado por aparecer por aqui. Seus escritos têm ficado mais esporádicos, também. Que surjam mais frequentemente.

Beijo!

JB disse...

A percepção da solidão está tão difícil assim? O bom é que a gente levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Estou na torcida (e na espera)!

Beijos com carinho!

Fabrício César Franco disse...

JB,

Que o recomeço não tarde.

Beijos, com carinho!

Renata de Aragão Lopes disse...

As esperanças serão sempre vazias. Nada, absolutamente nada jamais acontecerá segundo nossas expectativas.

Triste? Não necessariamente. Brindemos à infinitude das possibilidades.

Grande abraço, amigo!

Fabrício César Franco disse...

Renata, poetisa!

Primeiro: obrigado pela visita. Você não sabe o quanto me alegra!

Depois: triste, sim, ainda que o brinde seja às possibilidades. Fica aquele travo amargo, no final do gole, pelas coisas inalcançadas (o que poderia ter sido). Depois, a embriaguez da promessa do novo até nos faz esquecer.

Abraço, com carinho!

Tarciana Almeida disse...

Olá poeta!

Como você consegue por em palavras a impermanência? Nos nossos dias, precisamos de mais poesia e você nos presenteia com ela. Ainda na impermanência de tudo, você consegue doar substância ao que sentimos, mesmo que por um instante.
Parabéns querido, lindo poema!

Fabrício César Franco disse...

Tarci,

Sempre tive isso, de perceber o que se esvai, mesmo durante momentos de extrema atenção ou alegria. Tudo passa, nessa vida. Às vezes, infelizmente.

Beijo, e obrigado pela visita!

 
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