Ela me telefona
para dizer que me leu.
E que continuo
para poucos.
Esotérico. Não
facilito as coisas
para meus leitores.
Ela é gentil
ao colocá-los
no plural.
Mas isso não
é surpresa, ela é
assim há coisa
de muito tempo.
Em minha defesa,
devo dizer que o sentido
do que escrevo está
circunscrito pela percepção
- melhor, pelo indiscernimento -
do que seus olhos
arrecadam por instantes,
uma atmosfera mais
do que uma
ciência exata.
Que você me leia
à margem do texto,
que eu me abandone
à castidade perversa
do nexo recusado.
Pois, lembre-se,
de nada adianta a glosa
- a própria tradução
faz nascer o intraduzível.
E eu tenho
esse teimoso apetite
que galopa pelo texto,
que se esbate
contra as jaulas da mesmice
e as coleiras do já visto:
em algum lugar
nas frestas da prosa
devem surgir as palavras
resgatadas da prisão da página,
pelo ato de se as ler.
As coisas vivem
pelo ofício do cotidiano,
existem de passagem.
Qual meu revide,
meu desagravo
- a desforra?
Essa intrincada construção
de frases que mesclam
esperanças malogradas
e felicidade efêmera,
que de fora parecem
imponderáveis e
intimamente desejam
que a lisonja possa me fazer
perdurar no eterno
da intensidade
de sua leitura.







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