domingo, 8 de maio de 2016 12 comentários

Nó górdio


1.
Qual a real medida desta manhã
que nunca me será dada de volta?
O que se faz aqui,
nesse débil agora,
que vai me fazer tirar leite das pedras?
Como ordenhar o vazio?

2.
Tempo é menos
uma medida de passagem
do que uma ressurreição falha.
Calendários e cronômetros não passam
de um tentame pífio
de se algemar o que se nos evade
e que, inversamente, nos prende
ao calabouço dos ponteiros,
à senzala das agendas,
à penitenciária das folhinhas.
Um nó só,
mas como é difícil desatar
: se livres, estamos extintos,
externos ao evento.
Resta-nos bem pouco a fazer.
Arte pela arte.
Vida pela vida.
E sempre, a morte.


quarta-feira, 6 de abril de 2016 12 comentários

Uma época em diagrama


O niilismo 
                          traça
                                                     sua 
                                                     carta 
                                                     geográfica
                                                                              : 
                          faz-se
                                                     ideologia 
                          da nossa 
                                                                                        impotência.


quarta-feira, 2 de março de 2016 14 comentários

Movimento rápido dos olhos


Nômade, contra os ventos,
na vertigem dessa madrugada,
que passa seu tempo
colocando nos faróis uma dança
de sombras e sugestões.
Vou esbarrar comigo por aí,
aparando minhas arestas
para não cair do corpo.
(A realidade cadastrada na memória
é falha e já nem sei mais quem sou).

A metrópole em esclerose
desorienta meus gestos,
exaustos de tantas etiquetas.
Enjoado da poética mortífera
dessa era de hipérboles,
faço meu último movimento
sob o céu instável:
eclipso-me na incerteza
dos plurais.
(Já não quero ser “eu”,
é mais fácil ser “nós”).

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016 10 comentários

Efeméride


Agora
não é antes
nem depois.

Assim como ontem
nunca será
amanhã,

embora

faltem exatas
quarenta e oito horas
para que amanhã seja ontem.
 
 
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